Quinta, 30 de Março de 2017
   
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Salmo 6 - O Papel do Arrependimento dos Pecados

 

alguns anos, acompanhei o caso de um irmão que, apesar de sempre ter sido dedicado e ativo na igreja, vinha paulatinamente se afastando tanto dos cultos como do convívio dos irmãos e da própria família. O motivo era o desejo de pegar um grande diamante em um garimpo que mantinha com muito esforço. O ano não tinha sido bom e já chegava a época das chuvas, o que poderia deixá-lo com um grande prejuízo. Por esse motivo, ele praticamente abandonou a igreja. Eu o alertei várias vezes sobre o risco de um crente se manter longe da comunhão dos salvos e do alimento da Palavra de Deus, mas nada mudava a atitude desse irmão.

Entretanto, para minha surpresa e alegria, certo dia ele me procurou e disse que não estava agindo bem e que estava arrependido. Com toda convicção, afirmou que, ainda que terminasse o ano acumulando prejuízos, não iria mais deixar os valores espirituais em segundo plano. Foi um arrependimento verdadeiro e uma grande mudança de rumo. Como uma surpresa adicional, na última semana antes do início das chuvas – que impossibilitam o trabalho de garimpo – esse irmão encontrou um poço no fundo de um rio onde pegou diamantes suficientes para pagar as despesas do ano todo, para financiar o início do trabalho no próximo ano e para contabilizar um bom lucro. Foi incrível como a tristeza e a preocupação se transformaram em alegria, não, contudo, sem passar antes pelo arrependimento.

Davi viveu essa dinâmica mais de uma vez. Uma delas está registrada no Salmo 6, o primeiro dos sete “salmos penitenciais” (6, 32, 38, 51, 102, 130, 143). O salmista experimentava um momento muito complicado em que sua própria vida estava em risco. Ele suplica a Deus que o livre e o salve (v.4) explicando, no v.5, que “não há, na morte, recordação de ti” (’ên bammawet zikreka). Davi não está, obviamente, ensinando que não há vida após a morte. Ele está clamando ao Senhor que o salve e oferece como razão, para tanto, a ideia de que empregará sua vida poupada para recordar do Senhor e da sua boa ação para com ele. Ele completa essa ideia dizendo “quem, na sepultura, o louvará?” (bishôl mi yôdeh-lak).

Esse compromisso e desejo de louvar o Senhor, caso seja poupado, ocorre em um momento em que o salmista não apenas corre risco de vida, mas se sente abalado pelas circunstâncias. Ele diz “estou desfalecido no meu lamento” (yaga‘tî be’anhatî). Imagine alguém lamentar tanto um sofrimento a ponto de se sentir cansado. Essa era a realidade de Davi. Ele chorava a ponto de se sentir exausto. Esse pranto tomava horas da sua noite. “Toda noite minha cama fica cheia das minhas lágrimas; meu leito se desfaz” (bekal-laylâ mittatî bedim‘atî ‘arsî ’amseh), diz ele no v.6. Esse pranto tem uma causa (v.8): “todos aqueles que me são hostis” (bekal-tsôreray).

Perante situação tão triste, mesmo aterradora, Davi considera a possibilidade de se tratar de uma disciplina de Deus. Assim, o busca a fim de pedir pela sua misericórdia. Apesar de não ficar explícito o pecado e a confissão de Davi, a semelhança desse salmo com os outros nos quais Davi pede perdão, demonstra que ele está, sim, clamando pela misericórdia de Deus em meio ao arrependimento (basta comparar o v.1 com Salmo 38.1,4 e o v.2 com Salmo 32.3, 38,3 e 41.4).

Assim, Davi clama ao Senhor (v.1), não que não o repreenda, mas diz: “Não me repreenda na tua ira” ou “repreende-me não na tua ira” (’al-be’appeka tôkîhenî). O salmista sabe do poder de Deus e entende que o Senhor pode lhe trazer um castigo maior do que ele possa suportar. Jeremias parece ter a mesma visão ao dizer “castiga-me, ó Senhor, mas em justa medida, não na tua ira, para que não me reduzas a nada” (Jr 10.24). Como uma oração complementar, Davi pede: “E não me discipline na tua irritação” (we’al-bahamatka teyasserenî). É bem possível que Davi merecesse tal punição. Por isso, o foco do pedido do salmista (v.2) é “seja favorável a mim, Senhor” ou “use de misericórdia para comigo, ó Senhor” (hannenî yehwâ).

Do choro Davi passa para o arrependimento. Entretanto, não para nele. Algo maravilhoso acontece nessa jornada. O pranto se transforma em alegria mediante o pedido de perdão, não porque o salmista passe a ver a situação com outros olhos, mas simplesmente porque o Senhor de fato o perdoou e agiu de acordo com essa realidade. Assim, Davi se vê livre das mãos dos inimigos (v.8) exatamente porque “o Senhor ouviu a voz do meu lamento” (shama‘ yehwâ qôl bikyî), explica ele. Sua trajetória foi “do choro ao arrependimento e do arrependimento à alegria”. O pecado realmente causa inúmeras tristezas, seja em termos de consequências, seja na óbvia tristeza pela perda de comunhão com o Senhor. O perdão de Deus encontra o cristão, nesse sentido, como um bálsamo sobre uma ferida: traz alívio e cura.

Conheço muita gente que passou do choro à alegria por meio do arrependimento – eu inclusive. Nem sempre a alegria vem por meio da prosperidade ou da solução completa do problema, mas sempre há alívio da consciência culpada e restauração da comunhão com Deus e com o corpo de Cristo, a igreja. E, pensando bem, ao refletir sobre a graça, a bondade e o amor de Deus por nós – verdadeiras riquezas – o que são diamantes?

Pr. Thomas Tronco

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