Quinta, 29 de Junho de 2017
   
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Salmo 21 - Ações que nos Levam a Agradecer

 

Li, certa vez, sobre um capelão do Exército americano chamado Clark Vandersall Poling, ex-aluno da Yale Divinity School. Em 3 de fevereiro de 1943, em meio à Segunda Gerra Mundial, ele estava a bordo do navio cargueiro U.S.S. Dorchester, que transportava mais de novecentos homens, quando sofreu um ataque de torpedos. Era madrugada e eles estavam no mar gelado cheio de icebergs. Vinte e cinco minutos foram suficientes para afundar o navio e lançar no mar da magrugada fria os quase mil homens. A contagem de mortos foi de 678 homens – mais de dois terços do total. Entre eles havia quatro capelães, incluindo Clark Poling. Relatos dão conta de que os quatro cederam a outros os seus coletes salva-vidas e foram vistos pela última vez de mãos dadas orando pela segurança dos soldados. Tal atitude de bravura e abnegação fez com que os quatro capelães tivessem seus nomes e rostos estampados em selos, placas comemorativas, pinturas, vitrais e até em um monumento em homenagem a eles.

Atitudes como as desses capelães são lembradas e recontadas muitas vezes, muito tempo depois de acontecerem. Geram um misto de sentimentos nas pessoas como admiração, tristeza e agradecimento. A guerra, em meio às suas atrocidades, consegue destacar atitudes heróicas e desprendidas de homens que, mesmo mortos, dão bons exemplos e encorajam outros a darem o melhor de si. Por isso, nos muitos documentários que li e vi em vídeos, percebi que algo se repete como um eco. Muitos guerreiros, de volta às suas casas, costumam dizer duas coisas: a primeira é que “os verdadeiros heróis são aqueles que morreram nos campos de batalha”; a segunda é que são gratos a alguém que fez algo incrível por eles, às vezes dando a própria vida para salvá-los.

O rei Davi também era grato por ações de outro nas batalhas, a saber, ao próprio Deus. O Salmo 21 é um cântico de gratidão por ações ainda mais eficazes que as dos heróis guerreiros. Davi demonstra uma alegria contagiante ao lembrar o que Deus fez por ele. Por isso, o salmista inicia (v.1) seu cântico dizendo: “Senhor, o rei se regozija no teu poder e quão grande é a alegria no teu livramento!” (yehwâ be‘azzeka ismah-melek ûbîshû‘ateka mah-yageyl me’od). O rei em questão é o próprio salmista que, curiosamente, se refere a si mesmo na terceira pessoa (ele) por todo o salmo. Quanto à sua exultação, ela tem motivos bem definidos. Há, nesse salmo, pelo menos cinco ações de Deus que costumam produzir louvores nos seus servos.

A primeira delas é atender as orações. Davi diz (v.2) a Deus: “Concedeste-lhe os desejos do seu coração” (ta’awat livvô natattâ lô). Esse tipo de linguagem quase sempre está ligado não apenas aos desejos do servo, mas à sua oração por eles. É o caso desse exemplo. O salmista não apenas tem necessidades, mas pede a Deus que intervenha nelas. O pranto se torna riso quando Deus, não alheio à condição e aflição do servo, ouve a súplica do rei e a atende. A exultação de Davi está, portanto, no fato de o Senhor ter respondido seu pedido. Por isso escreve: “E não negaste o pedido dos seus lábios” (wa’areshet sefatayw bal-mana‘ta).

A segunda é agir com bondade. A palavra “pois” (), no início do v.3, demonstra que o que ele vai dizer a seguir está relacionado com o que já afirmou no verso anterior. É uma explicação que associa a resposta de Deus com sua bondade. O texto traz: “Pois leva-lhe bênçãos de bondade” (kî-teqaddemennû birkôt tov). É a ideia de alguém que deixa seu conforto para “sair ao encontro” de outro a fim de, especificamente, entregar-lhe coisas boas que são fruto de um coração benigno e amoroso. Não é de espantar que Davi, diante do Senhor dos senhores, que de ninguém precisa, fique alegre a agradecido por vê-lo agir desse modo. A visão da bondade de Deus se perfaz no resultado da ação: “Colocas sobre a sua cabeça uma coroa de ouro refinado” (tashit lero’shô ‘ateret paz). Esse é o vislumbre da vitória de Davi sobre seus inimigos e o reconhecimento público da sua entronização sobre Israel, tudo isso efetivado pelo Senhor.

A terceira ação é produzir alegria. Depois de os vv.4,5 corroborarem a visão das benesses de Deus sobre o rei, o v.6 explica que as “bênçãos de bondade” não foram dadas de modo transitório. Davi está extasiado diante do Senhor “pois lhe preparaste bênçãos perpétuas” (kî-teshitehû berakôt la‘ad). “Bênçãos sem fim” também é uma tradução possível para a expressão usada pelo salmista. Deus não foi parcimonioso com seu servo. Resolveu abençoá-lo e nada vai mudar tal desejo ou a aplicação da soberania divina. O resultado de uma ação desse porte é a resposta alegre de Davi. Na verdade, as bênçãos de Deus aqui descritas produzem, por si só, tal alegria. Portanto, Davi completa: “Encheste-lhe de alegria com a tua presença” (tehaddehû besimhâ ’et-paneyka).

A quarta ação de Deus que gera louvores é fortalecer os servos. Sempre que se fala de Davi, seja como rei, seja como salmista, seja como refugiado, precisa-se apontar sua constância como servo de Deus. Ele não era uma pessoa que agia de um modo quando tudo ia bem e de outro quando as coisas ficavam difíceis. Sua constância estava embasada na constância e na bondade do próprio Deus em quem esperava. Por isso, proclama o salmista (v.7): “O rei, pois, é alguém que confia no Senhor” (kî-hammelek boteah bayhwâ). Se isso é realidade enquanto escreve o salmo, sabe ele que também o será no futuro, pois acrescenta: “E com a fidelidade do Altíssimo ele não falhará” (ûbehesed ‘eleliôn bal-yimmôt).

Por fim, a quinta ação é vencer o mal. A confiança de Davi não é sem razão. Depois de andar toda sua vida na presença de Deus, aprendeu sobre o modo de ele agir contra aqueles que lhe são contrários. Assim, os inimigos de Deus, que também eram inimigos do seu servo, seriam alvo da mão punitiva do reto juiz. Na certeza de que mais uma vez tal seria a ação de Deus em seu favor, Davi se alegra desde já dizendo (v.8): “A tua mão cairá sobre todos quantos lhe são hostis; a tua destra atingirá aqueles que te odeiam” (timtsa’ yodkâ lekal-’oyebyeka yemîneka timtsa’ sone’eyka). Assim, tantos os “maus” como o “mal” que produzem encontrarão um fim nas mãos punitivas do santo Deus.

Não é pouco o que fez o Senhor por Davi para produzir nele todo o louvor e gratidão demonstrados nesse salmo. Na verdade, nem é pouco o que o Senhor tem feito pelos seus servos, incluindo a nós mesmos. O problema, muitas vezes, longe de estar nas mãos do Senhor, está nos olhos dos servos que deixam passar despercebidas atuações divinas tão grandiosas como essas. Quando os olhos dos servos, desprovidos de confiança e esperança, voltam-se apenas para as circunstâncias e dificuldades da vida e se afastam da bondade do Soberano, a benesse do Senhor não é notada. Isso cria crentes lamuriosos e descontentes.

Contudo, basta notar o que Deus tem feito e sido para seu povo. Basta ver o modo como responde suas orações, como age com bondade para com eles, a alegria que sua presença lhes causa quando mantêm comunhão, o modo como os fortalece e como os livra do mal. Essa observação produzirá, certamente, em todos nós que já entregamos a vida a Cristo e que pertencemos ao Senhor da igreja, a mesma conclusão (v.13) com a qual Davi encerrou o Salmo 21: “Cantemos e façamos músicas sobre a tua força” (nashîrâ ûnezammerâ gebûrateka). Em outras palavras, “louvemos e sejamos gratos ao nosso santo Deus”.

Pr. Thomas Tronco

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