Quinta, 30 de Março de 2017
   
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Salmo 24 - Quem Tem Direito de Estar com Deus?

 

Há muito tempo não existem bons programas humorísticos na televisão como havia em meus tempos de criança. Hoje, os programas são apelativos e imorais, além de deixarem o humor completamente de fora. Para sanar esse vácuo, gosto de assistir àqueles concursos musicais em sua fase inicial. Diferente das fases seguintes, qualquer pessoa pode participar, tendo ela muita, pouca ou absolutamente nenhuma noção de música. Nesse aspecto, o programa passa a ser muito engraçado devido a apresentações emblemáticas de participantes que nunca serão cantores na vida.

O interessante é que muita gente vai lá, munida de extremo bom humor, somente para fazer apresentações estranhas e rir depois com os amigos. É aquela história dos “quinze minutos de fama”. Contudo, o que me deixa espantado são as reações de alguns candidatos que, após apresentações “horríveis”, ficam surpresos ao serem rejeitados pelos jurados. Alguns reclamam, choram, dizem não saber o motivo da reprovação e atacam os jurados como se fossem pessoas injustas ou como se desconhecessem a boa música. Nisso, o que me choca é o fato de tais candidatos realmente se acharem no direito de serem aprovados, apesar da total ausência de senso e de talento musical.

Infelizmente, esse não é o único campo em que falta noção aos homens. Muita gente, longe dos palcos musicais, se acha no direito de ter acesso a Deus sem antes ser tratada pela sua graça e pela sua Palavra. Quase todos já ouviram pessoas defendendo seu direito ao céu por serem pessoas boas – as obras são as bases desse tipo de defesa e não a graça de Deus. Para esses, o fato de nunca terem matado ou roubado ninguém lhes dá livre acesso à presença de Deus. Outros defendem o mesmo direito com base na suposta disposição de Deus de dar um “jeitinho” para que ninguém seja rejeitado. Alguns até dizem que “Deus é brasileiro”.

Nenhuma afirmação está mais distante da verdade. O Salmo 24, escrito por Davi, oferece alguns parâmetros para reconhecer aqueles que terão acesso a Deus enquanto outros serão rejeitados. Uma pergunta chave levantada pelo salmo é (v.3): “Quem subirá ao monte do Senhor e quem permanecerá no seu lugar santo?” (mî-ya‘aleh behar-yehwâ ûmî-yaqûm bimqôm qadshô). A pergunta vislumbra a cidade de Jerusalém – onde está o Monte Sião – (“monte do Senhor”) e o tabernáculo construído por Davi (“seu lugar santo”) ao trazer de volta a arca do seu exílio, primeiro entre os filisteus e, depois, em Quiriate-Jearim (2Sm 6 cf. 1Sm 6.21). Entretanto, é bem provável que o salmista tivesse em mente menos a geografia que o contato do adorador com seu Senhor. Desse modo, a pergunta não é sobre quem pode chegar a Jerusalém, mas sobre quem pode permanecer na presença de Deus. Segundo se depreende do salmo, aqueles que se relacionam com Deus e estarão para sempre com ele têm pelo menos três características inegociáveis.

A primeira é que são conscientes da supremacia divina (vv.1,2). O salmista inicia seu cântico dizendo (v.1): “Do Senhor é a terra e tudo o que existe nela” (layhwâ ha’arets ûmelô’ah). O Senhor, como Criador do universo, é também o proprietário da criação. Isso lhe confere um posto singular, não apenas como Deus no sentido religioso, mas também como o Senhor de tudo que envolve o dia a dia da criação, pois tudo é dele. Antes que alguém pense que isso tem a ver apenas com a natureza e não com a humanidade, Davi completa: “O mundo e seus habitantes” (tebel weyoshe). Assim, não há quem não esteja sob o domínio e a soberania do Senhor, de modo que possa, Deus, dispor de tudo e de todos como bem lhe parecer (Rm 9.20,21, Ef 1.5). O verdadeiro adorador do Senhor sabe dessa supremacia sobre tudo e se submete, não compulsoriamente, mas de coração como fazem os servos. Ele se deixa guiar por aquele que, por direito, o possui. Trata-se de alguém que é, em tudo, influenciado por Deus e que lhe tem como Senhor, de fato, nos mínimos detalhes da sua vida.

A segunda é serem santificados pelo Senhor (vv.3-6). A santificação – separação gradual e progressiva dos pecados e da mentalidade mundana – é um fator presente na vida dos que permanecerão diante do Senhor (Hb 12.14). Apesar de a Bíblia demonstrar que as obras não podem salvar o homem (Rm 3.20; Ef 2.9) e que a purificação do crente vem mediante a atuação de Deus (Jo 17.17), o salmista olha para a demonstração externa da santificação como uma evidência da efetiva preparação para levar o servo ao seu Senhor. Diz ele (v.4), respondendo à pergunta do v.3: “O de mãos puras e de coração limpo” (̃neqî caffayim ûbar-levav). Isso significa que a santificação daqueles que são alvo dessa graça divina muda suas ações – “mãos puras” – e, também, suas intenções – “coração limpo”. Além disso, o que Deus inicia na justificação completará na glorificação (Rm 8.30), pois, conforme declara o salmista (v.5), “esse levará consigo a bênção do Senhor e a justiça do Deus da sua salvação” (yissa’ berakâ me’et yehwâ ûtsedaqâ me’elohê yishô‘). Portanto, o que Deus iniciou nesta vida será também realidade no futuro dos servos santificados pelo seu Senhor.

A terceira característica é que eles são súditos do Rei da glória (vv.7-10). O v.7 anuncia, de um modo peculiar que transmite a ideia de um acontecimento glorioso, a vinda de quem ele chama de “o Rei da glória” (melek hakkavôd). Trata-se de uma menção ao Messias que vem para reinar; aquele que, segundo o v.8, é “o Senhor valoroso e poderoso; o Senhor poderoso de guerra” (yehwâ ‘izzûz wegibôr yehwâ gibôr milhamâ). O Deus dos exércitos (Sl 59.5) é aquele que irá reinar, a quem Davi aguarda. O salmista e todos aqueles que são servos desse supremo Senhor agem, portanto, como seus súditos. Isso significa honrá-lo como governante máximo, respeitando e reverenciando seu nome, e, também, dando a ele o melhor de tudo. Não dá para ser súdito desse rei honrando-o apenas com o que sobra. Ele tem prioridade na vida dos seus vassalos. O melhor do seu tempo, da sua força, dos seus esforços e do seu amor deve ser empregado a serviço do Rei dos reis.

Tais são as características daqueles que, respondendo à pergunta do v.3, “subirão ao monte do Senhor e permanecerão no seu lugar santo”. A presença de Deus não está aberta a qualquer um que queira, mas àqueles que sabem quem Deus é – e creem nele assim como se revelou –, que são santificados pela fé nele e que são súditos fiéis do maravilhoso Rei. Por isso, decreta o escritor do salmo (v.6): “Este é o que o busca, aquele que procura a presença do Deus de Jacó” (zeh dôr dôreshô mebaqshê paneyka [’elohê] ya‘aqov).

O Salmo 24 é muito bom para avaliarmos o tipo de relacionamento que temos com Deus e, principalmente, se estamos entre aqueles que comparecerão e permanecerão na presença de Deus com todos os benefícios de se estar lá. Aqueles que podem responder positivamente ao questionamento do salmista devem, cada vez mais, aprimorar as características descritas no salmo. Contudo, aqueles de cuja resposta se tem um “não”, devem, imediatamente, se submeter pela fé ao “Rei da glória” pedindo perdão por seus pecados e entregando a ele suas vidas. Caso contrário, serão como aqueles “cantores de chuveiro” que, achando que merecem ser ídolos, reclamarão pelo resto da sua existência que foram injustiçados por alguém que não entende de música.

Pr. Thomas Tronco

 

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