Segunda, 20 de Novembro de 2017
   
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Salmo 35 - A Dor de quem Espera

 

O primeiro de semestre de 2010 foi um tempo muito difícil para mim. No final de janeiro, comecei a sentir certo formigamento na perna direita e, alguns dias depois, dores nas costas. Como esses sintomas não melhoravam, procurei o pronto-socorro de um hospital e ali foi diagnosticado meu problema: hérnia de disco. Eu nem sabia que doença era essa até então. Enquanto eu aguardava o dia da consulta com um neurologista, as dores aumentaram abruptamente fazendo-me sofrer demais. Eu nunca havia sentido dores tão lancinantes. Mesmo deitado e sob o efeito das medicações, o sofrimento era enorme. Em poucos dias, tive de ser internado.

Mesmo nos melhores dias, era com o auxílio de uma bengala que eu caminhava. Nos maus momentos, era inevitável terminar o dia no hospital. Na pior ocorrência da dor, fui atendido e transportado pelo corpo de bombeiros, recebendo, no hospital, uma das medicações mais fortes que existem. Foram cerca de três meses de dores intensas e visitas ao hospital. Hoje, apenas administro um problema que já não me aflige tanto. O interessante é que, bem no começo, um amigo, que sofreu do mesmo mal, me disse: “Tenha paciência! As dores fortes vão passar, mas demora um pouco para que isso ocorra. Mas, não desanime, pois a crise vai passar”. Ele tinha razão e eu sabia disso desde a primeira vez em que me falou tais palavras. Não duvidei dele em nenhum momento. Entretanto, a espera, apesar da certeza, foi dolorida e me trouxe um enorme sofrimento.

Davi, o grande salmista, atravessou uma situação parecida, não exatamente de doença, mas em termos de sofrimento incessante. O Salmo 35, diferente do anterior, nos mostra Davi em um momento de angústia, sem, contudo, ver a resposta de Deus às suas orações. O problema não era a falta de esperança do salmista. Ele, na verdade, demonstra ter certeza de que Deus o livrará. Entretanto, não havia chegado o momento de ser aliviado da tristeza e do perigo. Isso fez com que o salmo apresentasse três situações de sofrimento duradouro e o devido encorajamento aos servos de Deus por meio da esperança do livramento no momento correto, escolhido assim pelo Senhor.

A primeira das situações que são frequentemente duradouras e que causam pesar nos servos de Deus é a oposição dos adversários (vv.1-10). Nos vv.1-3 Davi pede a Deus que lhe proteja dos inimigos na medida necessária a fim de livrá-lo e de punir os que lhe atacam sem motivo. Uma pergunta importante de se fazer diante disso é “quem são eles?”. Davi não cita seus nomes ou títulos. Em vez disso, Davi descreve-os em sua atividade opositora. A confiança do salmista no v.4 dá início a tal descrição. Diz ele: “Baterão em retirada e serão derrotados aqueles que planejam o meu mal” (yissogû ’ahor weyahperû hoshvê ra‘atî). Trata-se de pessoas que arquitetavam modos de prejudicar Davi. A sutileza e a periculosidade de tais projetos são transmitidas pelo salmista (v.7) ao escrever sobre o objetivo dos adversários contra ele: “Pois sem motivos esconderam armadilhas para mim” (kî-hinnam tamnû-lî). Traiçoeiramente, os adversários de Davi pensavam em modos de fazê-lo cair em uma armadilha. É a figura de uma caçada em que os opositores fazem o papel de predadores. Assim como caçadores de verdade, eles armam emboscadas para pegar de surpresa a vítima indefesa. É uma atitude desonesta e maldosa. A vítima, além de não poder se defender da armadilha, nem imagina que ela existe, pois tudo é feito às escuras, já que Davi, falando do inimigo (v.8), se refere às “suas redes às quais esconderam” (rishtô ’asher-taman). É a mesma ideia da caça, com ênfase na traição oculta.

A segunda situação é a falsidade das pessoas próximas (vv.11-18). Quem dera os inimigos fossem seus únicos motivos de desgosto! Davi, agora, apresenta o sofrimento pessoal que teve como fonte pessoas a quem ele chamou (v.11) de “testemunhas da injustiça” ou de “testemunhas da violência” (‘edê hamas). Até aí, não há surpresas. Contudo, o v.12 introduz um elemento que, sim, nos surpreende. Tratava-se de pessoas a quem Davi havia beneficiado. Em troca, eles foram traidores e malévolos: “Eles me retribuem o mal em lugar do bem” (yeshallemûnî ra‘â tahat tôvâ). É revoltante! Davi foi bondoso com tais homens que, agora, são testemunhas mentirosas e malvadas contra ele. Isso piora quando Davi explica melhor seu procedimento bondoso para com eles no passado (v.14): “Eu agia como se eles fossem amigos ou irmãos para mim” (kereah-ke’â lî hithallaktî). Muita gente tem companheiros tão chegados que são como familiares. Assim eram tais homens para Davi. Apesar disso, diz o salmista (v.15): “Mas, na minha queda, eles se alegraram e se ajuntaram; se ajuntaram contra mim” (ûbetsal‘î samhû wene’esafû ne’esfû ‘alay). Dá até para ouvir o grupo reunido rindo de Davi e expondo como cada um trabalhou em prol da sua queda quando ele de nada desconfiava. São risos que dão nojo nos homens justos. Olhar para esse tipo de ajuntamento injusto e traidor realmente desanima qualquer um.

A terceira é a provocação arrogante (vv.19-28). Nesse ponto, Davi ora ao Senhor pedindo que os impeça de agir conforme o mal que pretendem. É sob esse prisma que percebemos suas atitudes. Davi diz (v.19) que tais homens “piscam os olhos” (yiqretsû-‘ayin). A palavra traduzida por “piscar” tem uma forte conotação de uma atitude maliciosa. Trata-se de um sinal com os olhos que transmite arrogância e maldade contra seu alvo. Eles também zombavam e tripudiavam a respeito da situação difícil de Davi (v.21): “Alargam suas bocas contra mim dizendo: Aha! Aha!” (wayyarhîvû ‘alay pîhem ’omrû he’â he’â). A interjeição aha é uma onomatopeia – figura de linguagem que expressa sons como “pocotó” ou tique-taque – que simboliza “risos” ou “gargalhadas”. Representa a exultação aberta por verem o mal do salmista. O sonho desses homens era ver chegar o dia em que pudessem alegremente dizer (v.25): “Nós o aniquilamos” (billa‘anûhû). Temos de ser sinceros: é difícil conviver com uma situação como essa. Quanto tempo suportaríamos maus tratos e provocações assim? Em quanto tempo desistiríamos de tudo ou abandonaríamos o bem partindo para a briga com homens maus, ingratos e arrogantes como os tais?

Entretanto, apesar do estado duradouro desses males, Davi revela seu sofrimento, mas não seu abandono da esperança de ver dias melhores modelados pelas mãos do Senhor eterno. O salmista, que ainda não viu seu livramento, nem a derrocada dos inimigos, não tem dúvida de que ocorrerão. Ele conhece o Senhor e sabe que tipo de cuidado amoroso ele tem para com os seus. Assim, mesmo que o tempo de Deus não coincida sempre com a pressa do servo de se ver imediatamente livre das pressões, Davi sabe que chegará o dia em que o Senhor o livrará e lhe dará a alegria que se esvaiu diante das circunstâncias. Essa esperança faz com que o salmista declare, do meio do turbilhão, como será seu regozijo naquele dia (v.9): “E a minha alma se alegrará no Senhor e regozijará na sua salvação” (wenafshî tagîl bayhwâ tasîs bîshû‘atô). É muito interessante ver como, ao mesmo tempo, tal certeza produz uma esperança futura e um consolo presente. Por causa dessa esperança é que, depois de sofrer por tanto tempo, Davi persiste em se manter na justiça e no serviço do Senhor, inclusive, louvando-o por meio desse salmo.

Como Davi não foi o único a carregar problemas duradouros, essa mensagem é de especial aplicação e atualidade para nós mesmos. Nós também nos cansamos de sofrer injustiça. Também ficamos desanimados ao tratar bem pessoas que nos retribuem com o mal. Infelizmente, também somos, por vezes, alvo das chacotas e das provocações arrogantes de outros. Pois é exatamente nesses momentos que nossa fé no Senhor deve ser redobrada e nos fazer lembrar de tudo que ele nos fez e das coisas que ainda nos fará. É nessas horas que a esperança cristã nos deve dar novo fôlego e, por pura fé, nos fazer regozijar no Senhor pela libertação que ele ainda não produziu. Independente dos detalhes dos planos de Deus para nós, sabemos que o resumo deles é que ele cuidará dos nossos dias com todo seu amor até nos receber no eterno lar, onde jamais sofreremos injustiça ou qualquer outro tipo de mal. Portanto, lembre-se: “Tenha paciência! As dores fortes vão passar. E mesmo que demorem um pouco para que isso ocorra, não desanime, pois a crise vai passar”.

Pr. Thomas Tronco

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