Sexta, 15 de Dezembro de 2017
   
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Salmo 41 - Quando Alguém Parece Descartável

 

Todos aqueles que já assistiram a filmes de guerra, de um modo ou de outro passaram a admirar os soldados. Não porque alguns filmes retratam certos guerreiros que, sozinhos, conseguem vencer todo um exército. Não! Refiro-me à admiração que cultivamos por eles quando, pelos filmes, vislumbramos o comprometimento dos soldados diante dos horrores da guerra. Nesse sentido, algo encorajador é ver como os soldados se importam uns com os outros e têm a meta de nunca deixar ninguém para trás. Mesmo feridos, aqueles que foram alvejados no campo de batalha são o alvo do esforço de todos os companheiros que se arriscam para resgatá-los e levá-los bem para casa.

Cenas como essas, ao mesmo tempo que nos encorajam, nos chamam a atenção para o fato de que nem sempre é assim fora dos conflitos militares. No dia a dia, notamos pessoas que, mesmo sem ferimentos de guerra, têm limitações que as impede de produzir tudo que queriam ou deveriam. Nesse momento, quando elas necessitam de ajuda, é comum as vermos relegadas ao segundo plano. Exemplos disso são pessoas idosas e doentes. Ainda que tenham sido muito queridas e solicitadas no passado, ao chegarem a uma situação debilitante, pouca gente as procura ou tem paciência de estar ao seu lado. Certamente, em momentos como esse é que se conhecem os verdadeiros amigos.

O fato é que, quando debilitados, recebemos um tratamento diferente por parte das pessoas. O Salmo 41 é um relato do tratamento que o rei Davi recebeu quando esteve à beira da morte. Apesar de não haver um título no salmo que dê com precisão o contexto em que foi escrito – assim como nos salmos 3, 34 ou 51 – em seu corpo é possível notar algumas características da situação vivida pelo salmista. Ele estava doente, de cama (vv.3,8), e correndo risco de morte (v.5). Talvez, o último versículo do salmo indique que a situação já tinha passado, mas, ainda que seja assim, Davi faz uma análise de como se comportaram os homens diante da sua debilidade e, também, como agiu o Senhor a quem ele servia. Tal análise nos fornece três contrastes entre o tratamento humano e o divino quando estamos debilitados.

O primeiro contraste está no campo da valorização da vida daquele que está perecendo. Ainda que tal regra não valha para os amigos de verdade – esses são poucos –, os homens tendem a desvalorizar a vida de quem não tem mais as mesmas capacidades que antes, nem pode contribuir da mesma forma. Por causa disso, não se importam se a pessoa vive ou morre. E quando morre, parece que a perda é apenas motivo de conversas vãs. O v.5 indica que quem está perecendo é descartado pelos homens ao redor: “Os meus inimigos dizem coisas ruins a meu respeito: ‘Quando ele morrerá e perecerá o seu nome?’” (’ôyevay yo’merû ra‘ lî matay yamût we’avad she). Com essas palavras, tais homens demonstram não ver qualquer valor no debilitado, além da ausência do sentimento de perda ao vê-lo partir.

Por outro lado, Deus age de modo contrário. Não abandona o que está fraco, mas, vendo o valor que possui – não em si mesmo, mas como alvo do amor divino – age em seu favor. Nesse sentido (v.2), “o Senhor o guarda e lhe mantém a vida” (yehwâ yishmerehû wîhayyehû). Entretanto, Deus não quer que o servo apenas tenha seu coração batendo e seus pulmões respirando. Ele tem para aquele a quem ama mais do que a simples sobrevivência. Quer lhe dar uma vida completa e, por isso, “o faz feliz na Terra” (wî’asherehû ba’arets). É certo que todos nós partiremos desse mundo e Deus, que ama os filhos, os toma para si por meio da morte. Contudo, quando não é chegada a hora de tal encontro, Deus não desvaloriza o servo pela suas debilidades. Para Deus, os homens que o buscam nunca são descartáveis. Por isso os preserva e lhes dá consolo e alegria apesar das circunstâncias contrárias.

O segundo contraste se dá na veracidade do relacionamento. A incapacidade de alguém pode criar nas pessoas ao redor um relacionamento puramente superficial e não genuíno. Davi recebeu muitas visitas em seu leito de dor. Nem todas foram expressões autênticas do que sentiam as pessoas que o visitavam. Diz o salmista (v.6): “Se alguém entra para me ver, diz coisas fingidas” (we’im-ba’ lir’ôt shawe’ yedaber). Essa descrição me lembra de conversas quando não se tem assunto, nem há interesse pelas pessoas com quem se fala. Trata-se daquela conversa sobre “nada”, mais para se desincumbir do dever de visitar o doente que para saber como ele está e como pode ser ajudado de verdade. Entretanto, quando a visita acaba, o coração expõe as verdadeiras intenções: “No coração ele ajunta perversidades para si; quando sai, ele fala mal de mim” (livvô yiqbats-’awen lô yetse’ lahûts yedaber). É o retrato da falsidade posta em prática.

O Senhor, por sua vez, não apenas age do modo oposto como intervém na maldade dos falsos companheiros (v.2): “Tu não o entregas ao desejo dos seus inimigos” (welo’-tittenehû benefesh ’oyevayw). Enquanto os homens usam de falsidade, Deus confirma sua fidelidade no relacionamento com aqueles que lhe pertencem. Por isso, não abandona o servo. Por isso, continua protegendo-o daqueles que lhe querem fazer mal. Se as circunstâncias mudaram, o amor de Deus não muda. Ele permanece sempre o mesmo.

O terceiro contraste se pode ver na manutenção da amizade. Davi, como rei, ajudava muita gente a quem mostrava seu favor. Sustentava muitos, recebia-os em seu palácio, separava-lhes lugar à sua mesa. Como não poderia deixar de ser, muitos desses não frequentavam a mesa do rei por simples amizade, mas por interesse, quer financeiro, quer político. Para obter seus intentos, estendiam ao rei seus braços de amizade. Contudo, diante da virada da situação, deixaram de ter interesse na manutenção dessa “amizade”. Por isso, Davi se queixa (v.9): “Também o meu amigo em quem eu confiava, aquele que comia o meu pão, levantou o calcanhar contra mim” (gam-’îsh shelômî ’asher-batahtî bô ’okel lahmî higdîl ‘alay ‘aqev). A expressão “levantar o calcanhar” produz a ideia de uma traição, pelo que é aplicada a Judas que, sendo “amigo” de Jesus, mudou de atitude e o entregou aos adversários (Jo 13.18). Talvez uma boa tradução, com outra expressão figurada, para “levantar o calcanhar”, seja “passar uma rasteira”. Os antigos “amigos”, diante da debilidade do salmista, lhe “passaram uma rasteira”, mostrando a fragilidade da sua relação.

O Senhor não é um amigo desse tipo, nem permanece ao lado dos servos apenas quando seus interesses são beneficiados. Ele permanece mesmo nos piores momentos, mostrando-se um amigo verdadeiro. Por isso, diz o texto (v.3): “O Senhor o sustenta sobre o leito de doença” (yehwâ yis’adenû ‘al-‘eres deway). Ou seja, quando uma doença abate o servo de Deus a ponto de ele ficar acamado, sofrendo e incerto de seu futuro, o Senhor não o abandona. Na verdade, faz de modo exímio o que fazem os amigos que se assentam ao lado do doente para ajudá-lo a atravessar aquele duro momento, dividindo um pouco da dor e da tristeza. Essa ação de consolo, prova da verdadeira amizade, ajuda o abatido a transpor a dor com coragem, sentido um grande alívio, como se o leito fosse mais confortável do que é, visto que está escrito: “Na sua doença transforma toda a sua cama” (kal-mishkavô hafakta beholyô). A ideia parece ser a de alguém que remexe o leito a fim de não se tornar duro e desconfortável. Resumindo, o Senhor faz com que as agruras de uma situação como a de Davi seja atravessada com mais conforto, consolo e coragem. É, de fato, a atitude de um verdadeiro amigo.

Esse salmo é uma lição para nós. Em primeiro lugar, nos ajuda a diferenciar os verdadeiros amigos daqueles que assim falsamente se dizem. Em segundo lugar, nos ensina o quanto é incerta a confiança que temos nas pessoas. Finalmente, o quanto precisamos cultivar nosso relacionamento com Deus, o verdadeiro amigo. Tais momentos de luta e de dor, além de nos revelar a verdade sobre as pessoas ao redor, devem nos lançar de tal modo nos braços do Senhor que jamais desejemos nos afastar dele. No final das contas, está mais do que comprovada a veracidade do texto que diz que “na angústia se faz o irmão” (Pv 17.17). Principalmente, se esse for o Deus eterno.

Pr. Thomas Tronco

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