Domingo, 26 de Fevereiro de 2017
   
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Salmo 42 - Os Altos e Baixos da Vida

 

A história da humanidade contém trechos marcantes devido a grandes feitos de homens que, ainda hoje, são considerados singulares. Entretanto, poucos feitos podem ser comparados ao de Pedro, discípulo de Jesus, ao andar por sobre as águas do lago Tiberíades, também conhecido como mar da Galileia. Entretanto, além de singular, é um episódio curioso por mostrar nuances tão marcantes quanto contraditórias na pessoa de Pedro. O mesmo relato que o mostra como um homem de fé no poder de Jesus também o pinta como um homem de pouca fé diante da força das ondas. Enquanto Pedro tinha seus olhos fixos em Jesus, mantinha-se, também, sobre as águas. Mas quando voltou seus olhos para as vagas, começou a afundar e teve de clamar por socorro ao Senhor a fim de não perecer.

O Salmo 42, abertura do segundo livro dos cinco que formam a coletânea de salmos que temos na Bíblia, mostra a dinâmica da vida dos servos de Deus que lembra muito a experiência de Pedro. Os autores do salmo são os filhos de Corá, os quais assinam outros dez salmos. Eram de uma família da tribo de Levi, da linhagem de Asafe (1Cr 26.1), cuja função no Templo era louvar a Deus por meio de cânticos (2Cr 20.19), além de trabalhar como porteiros do Templo (1Cr 9.17-19). A ligação dessa família com o ministério no Templo torna a lição do Salmo 42 de especial relevância para aqueles que querem servir ao Senhor, mas que, vez por outra, desanimam diante das lutas que enfrentam.

O salmo começa em um ponto alto. O salmista tem um grande anseio de estar na presença do Senhor. Diz ele (v.1): “Como uma corça anseia por um canal de águas, assim a minha alma anseia por ti, ó Deus” (ke’ayyal ta‘arog ‘al-’afîqê-mayim ken nafshî ta‘arog ’eleyka ’elohîm). Essa é uma comparação interessante. A constante necessidade que uma corça tem de água, principalmente em uma região seca e montanhosa, é a situação à que o salmista compara sua necessidade constante de andar em comunhão com o Senhor e seu prazer nessa presença. Ele olha para Deus e se sente refrigerado e suprido. A figura continua mostrando que ele deseja cada dia ter mais comunhão com Deus, dizendo (v.2): “Minha alma tem sede de Deus” (tsam’â nafshî le’lohîm). A expressão “minha alma” não quer dizer, aqui, apenas a parte espiritual do escritor. É uma figura usada para representar o homem todo. Assim, ele anseia por Deus de todo coração, com todas as forças. E não se satisfaz com o que tem. Deseja sempre mais – por isso, seu desejo será coroado no encontro futuro com Deus: “Quando irei e me verei diante de Deus?” (matay ’bô’ we’era’eh penê ’elohîm). Ele olha para o futuro e vive um ponto alto da sua vida.

Entretanto, ele também olha para as circunstâncias problemáticas ao seu redor e atravessa um ponto baixo da vida, pelo que diz (v.3): “As minhas lágrimas se tornaram pão para mim dia e noite” (hoytâ-lî dim‘atî lehem yômam walaylâ). Essa é uma descrição terrível. Em primeiro lugar, revela a intensa tristeza do autor do salmo, a ponto de se desfazer em lágrimas. Em segundo lugar, ele não conseguia se alimentar direito, tamanha sua tristeza. Era como se seu pranto fosse o alimento dos seus dias. Que aflição profunda! E o que causaria tamanho desgosto? O próprio texto dá uma forte indicação do motivo: “Em dizerem para mim o dia todo: ‘Onde está o teu Deus?’” (be’emor ’elay kal-hayyôm ’ayyeh ’eloheyka). O texto não revela o problema em si, mas mostra o efeito. O escritor do salmo era zombado pelos outros por algum sofrimento que perdurava. Tudo leva a crer que era, também, acusado de ter sido abandonado pelo Deus a quem servia. Isso, pelo visto, o abateu sobremaneira.

Mas o salmo dá outra virada ao apresentar um clima diferente quando o salmista volta seus olhos novamente para o Senhor. Só que, em lugar de olhar para o futuro, ele olha para o passado e se lembra do quanto já serviu a Deus e com que prazer (v.4): “Lembro-me disso: [...] Caminhei com a multidão; eu conduzi a multidão festiva até a casa de Deus em meio a brados de alegria e gratidão” (’elleh ’ezkerâ [...] ’e‘evor bassak ’edadem ‘ad-bêt ’elohîm beqôl-rinnâ wetôdâ hamôn hôgeg). A recordação do louvor a Deus, do culto no Templo, da alegria da multidão por servir ao Senhor e do papel que exercia de promotor de um culto verdadeiro fez com que o salmista, mais uma vez, fosse transportado a um ponto alto da sua vida.

Apesar do bom momento, seus olhos voltam para o presente e o que ele contempla é um homem abatido pelo peso das circunstâncias. Ele se pergunta (v.5): “Por que a minha alma se encurva?” (mah-tishtôhahî nafshî). Ele se sente sobrecarregado a ponto de encurvar-se diante das agruras que enfrenta. O v.7 dá conta de que, apesar de tentar por todos os meios se livrar do mal, ele sente que está caminhando “de abismo em abismo” (tehôm-’el- tehôm), como se fosse atropelado pelas correntezas destruidoras de um tsunami: “Todas as tuas vagas e tuas ondas passaram sobre mim” (kal-mishbareyka wegalleyka ‘alay ‘avarû). É como se estivesse se afogando sem forças para resistir por mais tempo.

Porém, mais uma vez o humor do salmista sai do fundo do poço de tristeza e sobe até o céu de esperanças. Se há pouco ele declarou chorar dia e noite, agora afirma (v.8): “De dia o Senhor estabelece a sua fidelidade e de noite eu canto uma oração ao Deus da minha vida” (yômam yetsawweh yehwâ hasdô ûballaylâ shîroh ‘immî tefillâ le’el hayyay). Que transformação! As lágrimas que alimentam o salmista são convertidas em estrofes de cânticos de louvor e em declarações de confiança e esperança naquele que é poderoso acima de todos os males que afligem seus servos. A impressão que se tem desse ponto do salmo é que, não importa o que aconteça, o salmista está pronto para enfrentar todas as lutas tendo à mão a fidelidade do Senhor para protegê-lo como um escudo.

Entretanto, uma nova linha do salmo é escrita. Por meio dela percebemos o escritor novamente abatido, escrevendo do fundo do vale da tristeza. Ele pergunta a Deus (v.9): “Por que se esqueceste de mim?” (lamâ shekahtanî). É de surpreender que ele faça tal pergunta à pessoa sobre a qual declarou ser fiel todos os dias. Não é, claro, gratuita a mudança de ânimo. Ele se vê ainda sobrecarregado, conforme diz, “com a opressão dos meus inimigos” (belahats ’ôivay). O efeito da perseguição por parte de tais homens é a que ele declara no v.10: “opressores me injuriaram com um alarido em meus ossos” (beretsah be‘atsmôtay herefûnî tsôreray). Essa frase misteriosa parece indicar que as zombarias e ataques por parte dos homens que o perseguem o atingiram profundamente como se, com um barulho ensurdecedor, lhe abalassem os ossos e lhe tirassem a capacidade de permanecer de pé.

Sua conclusão é a de um homem dividido entre a opressão que sente e a confiança que tem. Ele escreve (v.11): “Por que a minha alma se encurva? E por que se agita contra mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, o meu salvador pessoal e meu Deus” (mah-tishtôhahî nafshî ûmah-tehamî ‘alay hôhîlî le’lohîm kî-‘ôd ’ôdennû yeshû‘ot panay we’lohay). O salmista sofre, mas também confia.

À primeira vista, parece se tratar de um salmo cheio de contradições. Ou melhor, que o próprio salmista é contraditório e, talvez, uma pessoa instável. Mas, na verdade, não há contradições. Deus não era fiel em um dia e infiel no outro. Também a situação não era boa em um dia e ruim no seguinte. O que parece mudar ao longo da experiência do salmista é a perspectiva com que ele vê os acontecimentos. Quando ele olha para os problemas, deixa-se abater e vive um momento baixo da vida, em meio à angústia e às incertezas. Mas, quando olha para Deus, vive um ponto alto por saber que Deus é maior que as circunstâncias, que é fiel apesar das nossas falhas e que tem um amor que nunca acaba. Por isso, ele se enche de esperança e de alegria. Os altos e baixos da vida do salmista, afinal de contas, não vêm das circunstâncias em si, mas da sua perspectiva pessoal quando olha para os problemas ou de quando olha para Deus.

Por fim, de certo modo, todos os que já fomos redimidos por Cristo compartilhamos algo com esse salmista e com Pedro quando estava diante de Jesus no mar da Galileia. Ao olharmos para o Senhor, somos elevados e sustentados sobre as águas dos problemas desse mundo. Mas quando desviamos o olhar do nosso Senhor e, em falta de fé, atentamos somente para o tamanho das ondas ao nosso redor, começamos a afundar. Não há encorajamento melhor que esse para que mantenhamos nossos olhos, pela fé, no Senhor Jesus Cristo, aguardando aquele dia em que olharemos diretamente em sua face.

Pr. Thomas Tronco

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