Terça, 16 de Janeiro de 2018
   
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Salmo 45 - O Casamento dos Sonhos

 

Tenho um grande amigo que é pastor. Quando solteiro, ele pastoreava um grupo de jovens em uma igreja batista. Era um grupo muito animado. Como pastor e ovelhas se davam muito bem, foram efusivas as comemorações por ocasião do casamento do meu amigo. O grupo de jovens começou a demonstrar sua alegria por ver seu pastor feliz com o casamento dando-lhe dois pinguins de geladeira que rendem risos até hoje. Entretanto, o mais interessante foi, durante a cerimônia, o estouro de uma quantidade enorme de fogos bem no momento em que a noiva disse “sim”. Foi um momento de descontração. O tom solene exigido pela cerimônia foi, indubitavelmente, marcado pela demonstração de alegria verdadeira dos jovens da igreja por causa do seu pastor. Na verdade, toda a igreja estava feliz naquele momento.

Esse não foi o único casamento da história que gerou grande alegria nas pessoas ao redor. O Salmo 45 é uma poesia cantada em homenagem a um rei magnífico que desposaria uma mulher privilegiada. Ele é, conforme diz seu título, “uma canção de amor” (sir-yedîdot). O escritor dedica o salmo ao rei (v.1) e se declara um “escriba habilidoso”, ou um “hábil escritor” (sofer mahîr). Quando alguém faz a si mesmo um elogio desse tipo, ou se trata de alguém vaidoso, que não conhece suas limitações, ou de alguém cujo reconhecimento amplo lhe dá o direito de falar assim sobre si. A julgar pela qualidade do poema, ele é, sim, muito habilidoso e podemos esperar de sua pena o uso de todos os recursos da retórica a fim de alcançar seu objetivo que, nesse caso, é engrandecer o rei de Judá e a ocasião do seu casamento. Devido à sua grande capacidade – e da supervisão de Deus sobre o escrito em si –, temos nesse salmo um dos trechos mais bonitos da Bíblia e, também, mais difíceis de serem compreendidos devido à aplicação que o Novo Testamento faz do salmo à pessoa do Messias, o Senhor Jesus Cristo.

O rei em questão não é identificado, nem tampouco a rainha. Entretanto, o rei parece ser um homem tremendamente respeitado pelo seu procedimento (v.2) e um guerreiro com vitórias incontestáveis, dignas de um herói nacional (v.3) que mantém o domínio sobre seu povo e sobre nações conquistadas (vv.4,5). Ele parece exercer sobre o povo um boa influência por ser exemplo de justiça a ponto de, “figuradamente”, ser chamado de Deus pelo salmista (v.6) – nesse caso, o salmista não tem a intenção de compará-lo ao Deus eterno, mas lança mão de um recurso utilizado outras vezes nas Escrituras para exaltar uma qualidade ou uma função, nesse caso, a justiça; outros exemplos desse uso são a função de Moisés na sua relação com Arão e com o Faraó (Ex 4.16; 7.1) e o caso dito por Jesus em que homens foram chamados de deuses (Jo 10.34 cf. Sl 82.6). O rei que está para se casar é um homem de Deus, um homem reto, um bom governante, uma pessoa magnífica e honrada (vv.7-9).

A noiva, por sua vez, pertencia a outro povo, o qual deixava para trás (v.10), muito amada pelo seu noivo, a quem ela respeita (v.11). Ela era estrangeira e seria honrada por pessoas de outras nações (v.12). Na presença do seu rei, sua beleza é adornada e ela se torna ainda mais bela (vv.13-15). Para completar o quadro glorioso, sua descendência, em conjunto com o rei, seria distinta e numerosa, a qual traria grandes honras ao governante justo (vv.16,17). Que quadro lindo! Que romance belo! Quanta alegria! Quantas promessas! Toda essa alegria faz desse cântico um lindo salmo.

Entretanto, o Novo Testamento demonstra que Deus, movendo os escritores bíblicos (2Pe 1.21) a fim de registrarem sua palavra inspirada (2Tm 3.16), tinha aplicações ainda mais profundas e abrangentes para esse salmo, ainda que seu escritor não o soubesse ou que ignorasse certos detalhes das suas implicações futuras. O fato é que, quando Hebreus 1.8,9 aplica a Jesus o texto do Salmo 45.6,7, este assume um novo significado e cumprimento. Na verdade, o salmo parece se cumprir melhor no próprio Cristo que no rei que está prestes a se casar. Pensando assim, o salmo apresenta algumas características do reinado de Jesus, o Messias.

A primeira delas é a eternidade. O reinado de Jesus tem caráter permanente. Sua singularidade será perpetuada sem que haja fim. O v.2 diz: “Tu foste adornado mais que os filhos dos homens; a graça se derramou nos teus lábios; por isso, Deus te abençoou para sempre” (yofyafîta mibbenê ’adam hûtsaq hen besiftôteika ‘al-ken berakka ’elohîm le‘ôlam). O mais esplendoroso dos reis manterá seu caráter e seu trono perpetuamente porque Deus assim o quis e instituiu. Nada nem ninguém podem impedi-lo.

A segunda característica é a soberania. O rei messiânico não é alguém que pede favores, nem que torce para que seus planos se cumpram. Com poder (v.3), aquele que é chamado de “forte” ou “valente” (gibôr) subjuga os adversários e faz valer sua decisão. O resultado é um só e nem poderia ser outro (v.5): “Os povos caem sob ti” (‘ammîm tahteyka yifflô). Ninguém é mais poderoso que o rei eterno, de modo que os povos se lhe submetem ou caem por sua espada. O fato é que não se deve resistir ao rei divino nem contradizê-lo.

Apesar do receio que uma figura soberana possa causar, o rei Jesus não é um déspota, visto que reina com poder, mas também com retidão. Isso porque a terceira característica do Messias é a justiça. O v.6, citado em Hebreus 1, diz: “Ó Deus, o teu trono é eterno e perpétuo; cetro de retidão é o cetro do teu reino” (kis’aka ’elohîm ‘ôlam wa‘ed shevet mîshor shevet malkûteka). Esse rei não abusa do poder que tem, mas não deixa de usá-lo na promoção do bem, da justiça e da disciplina. São dirigidas a ele as palavras (v.7): “Tu amas a justiça e odeias a perversidade” (’ahavta tsedek wattisna’ resha‘).

Tais características de onipotência e glória são expostas diante da presença de uma pessoa que tanto é favorecida pelo rei, como lhe é motivo de alegria: uma noiva. Sobre ela fala o v.9: “Uma consorte real está junto à tua mão direita” (nitsvâ shegal lîmîneka). A rainha em questão é a esposa do rei de Judá que estava para se casar na ocasião da composição do salmo. Entretanto, a figura da igreja como “noiva de Cristo” (Ef 5.25) faz com que ela possa ser comparada à rainha do Salmo 45 – ainda que identificá-la como tal é fazer o texto dizer mais do que realmente pretende. Assim, como igreja de Cristo, podemos olhar para a rainha israelita e entender como devemos nos portar hoje a fim de honrar a pessoa e a posição do noivo, nosso rei Jesus Cristo.

A igreja, como noiva do rei salvador, deve deixar a velha vida para trás. À rainha israelita foi ordenado (v.10): “Esquece o teu povo e a casa do teu pai” (shikhî ‘ammeka ûbêt ’avîk). A igreja, resgatada do mundo perdido, deve também se esquecer dele e se afastar do seu modo de vida pervertido e egoísta, fugindo do pecado (Gl 1.4; Ef 4.22-24). Deve, também, ter uma postura reverente e submissa, apesar de amorosa, que honre seu salvador (v.11): “Ele é o teu Senhor; portanto, prosta-te diante dele” (hû’ ’adonayik wehishtahawî-lô). A obediência a Deus deve ser uma marca distinta da igreja que faz com que a luz de Cristo seja vista pelo mundo (Ef 5.8,9). Finalmente, deve manter um caráter glorioso, compatível com o do noivo, visto que a rainha é assim descrita no v.13: “A filha do rei é completamente bela” (kal-kevudâ bat-melek). Cristo deve ser visto através da igreja (2Co 3.18).

Às vezes, penso que a igreja deixa de viver como uma rainha porque se esqueceu que está casada com um rei. O que se espera de uma noiva tão gloriosa, não por seu próprio caráter, mas pela dignidade do noivo, é que ela seja um exemplo para os de fora; uma embaixatriz das qualidades do seu Senhor. No âmbito do relacionamento com seu redentor, ela deve amá-lo e cumprir sua vontade. Deve ser fonte de regozijo para aquele que governa soberanamente sobre tudo. As pessoas devem olhar para esse casamento e ver a alegria e o amor que transbordam dele. Por fim, o estilo de vida dos crentes e seu contato íntimo com o Senhor Jesus devem ser, a exemplo do salmo, uma viva “canção de amor”.

Pr. Thomas Tronco

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