Domingo, 18 de Novembro de 2018
   
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Salmo 52 - A Obra e o Destino dos Ímpios

 

Todo o País ficou chocado com o massacre promovido por um atirador que atingiu e matou várias crianças em uma escola em Realengo, Rio de Janeiro, tirando sua própria vida após o crime. Além do choque de saber que muitas crianças inocentes e indefesas foram feridas, enquanto outras foram mortas, foi tenebroso ver os vídeos gravados pelo próprio assassino falando sobre o que faria. Pelas gravações, é possível ver claramente a premeditação do ato e os motivos fúteis dados pelo criminoso para a barbárie. Para mim, contudo, houve algo mais marcante. Entre as explicações confusas e sem nexo do assassino e as recomendações de como tratar seu corpo morto – como se fosse um tipo de herói –, o que me atingiu foi vê-lo desfrutar da ideia do que viria a fazer. Como não notar a vanglória com que explicava suas intenções? E como é possível, para nós, não nos enojarmos e não nos revoltarmos vendo algo desse tipo?

Há, na mídia, muitos outros casos de criminosos maldosos que se vangloriavam das perversidades que cometeram. Conheço um assassino, porém, que nunca apareceu na televisão. Seu nome era Doegue e ele é o assunto do Salmo 52, escrito pela pena de Davi, antes de ser rei em Israel. Davi, na verdade, estava fugindo de Saul para não ser morto devido ao ciúme que o rei tinha dele. Nessa fuga, Davi, sem explicar a razão verdadeira, se hospedou na casa do sumo sacerdote Aimeleque, em Nobe – local do tabernáculo na época – e, conseguindo provisões, partiu para um tipo de exílio. Nessa ocasião, um oportunista, empregado como pastor de ovelhas a serviço de Saul (1Sm 21.7), aproveitou para tentar subir de posto diante do rei. O que ele fez, descrito em 1Samuel 22.9,10, é também expresso no título do salmo: “Quando Doegue, o edomita, relatou a Saul dizendo-lhe: Davi esteve na casa de Aimeleque” (bebô’ dô’eg ha’adomî wayyagged lesha’ûl wayyo’mer lô ba’ dawid ’el-bêt ’ahîmelek).

O resultado foi que Saul, já enfurecido e fora do bom uso da razão, quis vingança contra Aimeleque e toda a sua casa. Ordenou que sua guarda os matasse, mas eles se negaram a fazê-lo. Desse modo, o autor da chacina, sob as ordens do rei, foi o próprio Doegue (1Sm 22.11-19). O único sobrevivente da casa de Aimeleque foi Abiatar, o qual fugiu para Davi e foi por ele acolhido e protegido (1Sm 22.20-23). Por meio dele Davi tomou conhecimento do ocorrido e, posteriormente, escreveu o salmo em questão. Nele, temos a oportunidade de notar certas características do homem que se vangloria do mal que faz.

A primeira delas é a completa falta de temor a Deus. O início do salmo é endereçado ao próprio Doegue. Davi lhe pergunta (v.1): “Por que te vanglorias na maldade, ó poderoso?” (mah-tithallel bera‘â haggibôr). A referência a Doegue como um homem poderoso pode tanto ser uma referência ao prestígio que ele agora tinha na corte de Saul por causa do seu ato traiçoeiro, como – o que é mais provável – ser uma acusação da tolice de Doegue se achar alguém grande por fazer o mal à vista de Deus. Essa segunda possibilidade fica mais clara quando olhamos a frase pela qual Davi contrapõe sua pergunta: “A fidelidade de Deus está presente todos os dias” (hesed ’el kal-hayyôm). O propósito desse contraste é evidenciar a loucura da ação de Doegue movida pela completa falta de temor ao justo e soberano Senhor. Em outras palavras, seria Davi perguntando ao malfeitor: “Como é que você age assim e ainda se orgulha disso, sabendo que Deus é fiel para sempre e que vai puni-lo por isso?”. Entretanto, tal raciocínio nem sequer fazia sentido para o ambicioso e maldoso pastor do rei.

A segunda característica é a promoção do prejuízo alheio. Para um homem assim, ninguém pode ser obstáculo para a concretização dos seus desejos. Sob esse modo de ver a vida, as pessoas são descartáveis e, assim, podem ser prejudicadas sem que o homem perverso se sinta constrangido por suas ações. Por isso, Davi se dirige a Doegue mais uma vez e diz (v.2): “Como uma navalha afiada, a maldade habita na tua língua, ó mentiroso” (hawwôt tahshov leshôneka keta‘ar meluttash ‘oseh remiyyâ). Certamente, Davi tem em mente o mal que Doegue produziu a Aimeleque e à sua família sem sentir qualquer remorso. O relato do livro de 1Samuel mostra que Davi não informou Aimeleque as suas reais condições diante de Saul. Para o sacerdote, Davi estava em uma missão real (1Sm 21.2), de modo que, ajudar Davi era servir à coroa. Aimeleque realmente não fez conscientemente nada que fosse contrário a Saul. Entretanto, não foi isso que Doegue fez Saul saber. Ele, que foi testemunha do que ocorreu em Nobe (1Sm 21.7), escolheu que verdades contar – ou manipular – a fim de demonstrar ao rei sua utilidade, mesmo que isso custasse a vida de homens inocentes.

A terceira característica é o apego natural à maldade. A atitude destruidora de Doegue parece não ter sido apenas um fruto de uma oportunidade, mas o ato de externar algo que se dava em seu íntimo. Davi não apenas acusa seu ato pernicioso e assassino; não somente aponta para sua consciência entorpecida. Davi denuncia o que passa no próprio coração de Doegue. Utilizando-se do verbo “amar” (’ahav) para se referir às escolhas feitas pelo traidor, Davi nos desvenda o apego daquele homem ao mal, pelo qual agiu naturalmente ao fazer suas péssimas escolhas (vv.3,4): “Tu amaste o mal mais que o bem; a mentira mais que as palavras justas; amaste todas as palavras de destruição, ó língua enganosa” (’ahavta ra‘ mittôv sheqer middaber tsedeq selâ ’ahavta kal-divrê-bala‘ leshôn mirmâ). Para Doegue não foi grande coisa mentir sobre a atuação do sumo sacerdote no episódio com Davi, nem, tampouco, fazer o que nem mesmo a guarda de Saul quis fazer, a saber, assassinar os sacerdotes do tabernáculo de Deus. O assassino naturalmente preferia o que era mal.

Depois de descrever o tipo de homem que Doegue era, Davi passa a falar sobre as consequências de agir como ele (v.5): “Também Deus te derrubará para sempre” (gam-’el yittatseka lanetsah). Se o que o traidor queria era ascender à corte de Saul, o resultado seria o movimento contrário. A ascensão temporária se tornaria uma queda permanente. E mais: “[Deus] te arrastará e te arrancará da [tua] tenda e te desarraigará da terra dos vivos” (yahteka weyissahaka me’ohel weshereshka me’erets hayyiym). Deus faz recair sobre o malfeitor seus próprios atos, pois, assim como os sacerdotes foram tirados da “tenda” do Senhor – o tabernáculo em que serviam – e foram mortos, o mesmo aconteceria com Doegue. E, finalmente, o desejo de ser respeitado pelas pessoas por causa dos favores do rei seria também frustrado pelo resultado diametralmente oposto (v.6): “E os justos verão e temerão e dele zombarão” (weyir’û tsadîqîm weyiyra’û we‘alayw yishaqû). Na verdade, o texto não diz apenas que os justos zombarão, mas que também dirão dele na sua queda (v.7): “Eis o homem que não faz de Deus seu protetor, mas que confia nas suas muitas riquezas e que é forte na sua maldade” (hinneh haggever lo’ yashîm ’elohîm ma‘ûzzô wayyivtah berov ‘oshrô ya‘oz behawwatô).

Antes de encerrar o salmo, Davi se apresenta como um contraste em relação à Doegue. Enquanto este é como uma planta que será “desarraigada da terra dos vivos” (v.7), Davi diz de si mesmo (v.8): “Mas eu sou como uma oliveira vigorosa na casa de Deus” (wa’anî kezayit ra‘anan bebêt ’elohîm). Além de se comparar a uma planta em plena produção de frutos, Davi se refere a uma planta que pertence a Deus e que, desse modo, é cuidada por ele e dá fruto para ele. Esse é o modo de o salmista se distanciar da figura horrenda do homem mal e de demonstrar que é um servo de Deus pela graça que dele recebe. Tal sentido de dependência do Senhor em seu benefício se vê nas palavras subsequentes: “Eu confio na fidelidade de Deus para todo o sempre” (batahtî behesed-’elohîm ‘ôlam wa‘ed). Por isso, diferente do malfeitor que buscava a alegria em uma busca inescrupulosa, Davi se mostra agradecido a Deus, mesmo na situação de fuga em que vivia, confiado no caráter divino (v.9): “Eu confiarei no teu nome, pois és bondoso perante os teus fiéis” (’aqawweh shimka kî-tôv neged hasîdeyka).

Realmente, os ímpios agem como loucos, sem temor a Deus e sem escrúpulos na busca do que desejam. Usam sua boca como armas mortais e não se importam com os prejuízos que causarão nas pessoas ao redor. Quanto a nós, que fomos retirados desse mundo perdido e desse sistema egoísta, devemos, tanto quanto pudermos, nos afastar de tudo que nos faça parecer com homens como Doegue. E, chocados com atuações malévolas como à do assassino do Rio de Janeiro, devemos espalhar a mensagem do evangelho de Jesus Cristo, sabendo que somente ele pode transformar pessoas assim em “oliveiras vigorosas da casa de Deus”. Caso contrário, serão como o próprio atirador do Rio de Janeiro que tinha o arrogante sonho de ser sepultado como herói, conduzido, segundo disse, por mãos “puras” e com um lençol branco, mas que, no final, foi enterrado em uma cova rasa, com autorização judicial, sem a presença de nenhum parente, amigo ou qualquer outro acompanhante.

Pr. Thomas Tronco

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