Terça, 16 de Janeiro de 2018
   
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Salmo 56 - Entre a Cruz e a Espada

 

A fácil divulgação de informações por meio da Internet democratizou os famosos “quinze minutos de fama”. Pessoas desconhecidas, vindas dos mais distantes rincões, têm a oportunidade de deixar sua marca por meio de textos, fotos e vídeos. Recentemente, um rapaz ficou famoso ao ser preso. Na verdade, não foi seu crime que o tornou famoso, mas as circunstâncias da sua prisão. Segundo explicou, em entrevista dada a uma emissora de televisão, ele tentou escapar da polícia pulando um muro. Nesse momento, recebeu uma pedrada, que o fez cair, e foi detido por um morador.

A fama do meliante se deu devido ao modo engraçado de narrar sua prisão. Ele contou que o morador, que era musculoso, o fez sofrer, nem tanto pela força que empregou para detê-lo, mas pelos seus odores corporais, os quais fizeram com que o criminoso implorasse para ser entregue à polícia. Essa história, que virou piada entre os internautas e lhes forneceu novos jargões, é uma lembrança de que há circunstâncias nas quais, independente do que se escolha, o resultado será penoso. Para situações como essas, existe, popularmente, a expressão “entre a cruz e a espada”, retirada da história de muitos homens que, no passado, tiveram de decidir entre a fé e a punição capital.

Outra história desse tipo, desprovida do humor da primeira, é a da fuga do rei Davi do seu rei e sogro, Saul, que procurava tirar-lhe a vida por causa do ciúme que tinha do jovem. Vários salmos foram escritos nesse ínterim. O Salmo 56 é um deles. Seu título nos ajuda a, facilmente, identificar o contexto: “Quando os filisteus o capturaram em Gate” (be’ehoz ’otô pelishtîm begat). Essa breve descrição nos remete à 1Samuel 21. Conta o texto que Davi, fugindo de Saul, conseguiu suprimentos no tabernáculo que ficava em Nobe, nos arredores de Jerusalém, e fugiu em direção à terra dos filisteus (1Sm 21.10), inimigos de Saul.

Davi devia estar realmente muito desesperado, pois sua fuga de Saul o colocava diante de outro risco. Davi buscou refúgio na cidade de Gate (1Sm 21.11), cidade de Golias, herói filisteu morto pelo próprio Davi. Na verdade, ele estava de posse da espada do gigante (1Sm 21.8,9). Reconhecido pelos filisteus, Davi teve de fingir que era doido, babando e arranhando a porta da cidade (1Sm 21.12,13). Normalmente, essa não seria uma técnica muito efetiva, pois é bem provável que não acreditassem nele ou que, se acreditassem, ainda assim quisessem matá-lo. Davi estava “entre a cruz e a espada”. O fato é que Deus o protegeu e fez com que Aquis, rei de Gate, acreditasse na loucura de Davi e o dispensasse (1Sm 21.14,15). O Salmo 56, escrito depois disso, é uma declaração de fidelidade a Deus pela libertação maravilhosa.

No decorrer do salmo, algumas coisas são enfatizadas por meio da repetição. Tais ênfases rascunham para o leitor a história dos servos de Deus que são perseguidos pelos ímpios. Há pelo menos três etapas dessa história frisadas pela repetição de palavras na pena do salmista. A primeira é a opressão. Davi se vê oprimido pelos inimigos que, nesse caso (v.1), são “muitos” (ravvîm). Trata-se dos inimigos israelitas, a serviço de Saul, e dos inimigos filisteus, oponentes dos israelitas. De ambos os lados Davi é oprimido e corre riscos. Por isso, ele se utiliza da ideia da “continuidade” tendo como intenção expressar o tamanho do problema que vive. Essa continuidade é expressa pelo uso repetido da expressão “todos os dias” (kal-hayyôm).

Ele diz (v.1): “Homens me oprimem todos os dias. Os opressores me pressionam” (she’afanî ’enôsh kal-hayyôm lohem yilhatsenî). Davi passou um bom tempo sem ter um dia sequer em que não se preocupasse com sua vida e que não buscasse guarida. O uso indistinto da palavra “homem” (’enôsh) – aqui traduzido no plural – aponta para o fato de haver tanta gente atrás dele que não era possível identificá-los, nem fazer uma lista das pessoas que representavam risco para o salmista. Ele continua dizendo (v.2): “Meus adversários me perseguem todos os dias” (sha’afû shôreray kal-hayyôm). Essa perseguição também é vista, no salmo, sob a óptica das emoções do salmista no v.5: “Todos os dias eles infligem dor à minha condição” (kal-hayyôm devaray ye‘atsevû). A descrição da perseguição constante se completa no uso da palavra “todo” (kal) aplicada a outro objeto: “Todos os planos perversos deles são contra mim” (‘alay kal-mahshevotam lara‘). Essa situação está bem longe de ser cômoda ou tranquila.

A segunda etapa é a confiança. Ela é a resposta de Davi ao medo imposto pelos inimigos (v.3): “No dia que eu tiver medo, confiarei em ti” (yôm ’îra’ ’anî ’eleyka ’evtah). Para expressar melhor essa confiança e exaltá-la por meio do salmo, Davi cria uma repetição de frases que se parece muito com um tipo de refrão para o cântico. Trata-se do v.4 ecoando nos vv.10,11. Eles só não são exatamente iguais porque, no v.10, há uma dupla repetição do início do v.4, substituindo, na segunda ocorrência, a palavra “Deus” (’elohîm) por “Javé” (yehwâ). Também porque a pergunta do final dessas orações contém duas palavras para se referir aos homens, “carne” (basar) e “homem” (’adam), nos versículos 4 e 11, respectivamente.

Tais diferenças são mínimas diante da semelhança dos textos em questão. Assim, a confiança de Davi é expressa no refrão que diz (v.4): “Em Deus, cuja palavra eu louvo, em Deus eu confio;” (be’lohîm ’ahallel devarô be’lohîm batahtî). Ao enaltecer a palavra de Deus como alvo do louvor, o próprio Senhor é aquele quem recebe a exaltação – o louvor dirigido à “palavra” é uma sinédoque que vislumbra o todo, Deus, por meio de uma parte. Contudo, por meio dessa figura, Davi também oferece as promessas de Deus como razão pela qual o Senhor deve ser adorado por seus servos e pela qual eles podem nele confiar. A consequência natural, ainda que pareça contraditória diante das circunstâncias, é um inegável senso de segurança. Por isso, sem hipocrisia ou falso otimismo, Davi diz: “Nada temerei” (lô ’ira’).

A terceira etapa é a proteção. Os mesmos refrões terminam com frases parecidas. O v.4 diz: “O que fará a carne contra mim?” (mah-ya‘aseh basar lî). Longe de ser uma preocupação de ordem alimentar, o que Davi tem em mente é aclarado na frase correlata presente no final do v.11: “O que fará o homem contra mim?” (mah-ya‘aseh ’adam lî). Quando Davi diz “carne”, ele tem em mente os homens no sentido de serem mortais e impotentes diante do Deus imortal. Para Davi, Deus é eficiente em proteger seus servos. A primeira razão está em ele ser contrário aos pecadores, pelo que Davi ora com confiança (v.7): “Abata os povos na tua ira, ó Deus” (be’af ‘ammîm hôred ’elohîm). A presença da menção da “ira de Deus” nos lembra que ele não é indiferente ao mal e que assume uma postura contrária a ele.

A segunda razão para Davi esperar ser protegido pelo Senhor é o fato de ele ser favorável aos servos (v.9): “Isto eu sei: que Deus é por mim” (zeh-yada‘tî kî-’elohîm lî). Não há como ouvir essa declaração sem que se lembre do que diz Paulo ao versar sobre a soberania de Deus e a segurança do crente: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8.31). Essa proteção se dá, segundo conta o salmista, com todo cuidado e atenção da parte de Deus. Nenhuma das orações dos servos deixa de ser ouvida. Nenhum problema é desconsiderado. O Senhor vê, ouve e guarda tudo cuidadosamente (v.8): “Tu computaste o meu desterro. Puseste minhas lágrimas em teu odre. Acaso não estão no teu livro?” (nodî safartâ ’atâ sîmah dim‘atî beno’deka halo’ besifrateka). Nenhum sofrimento daqueles que pertencem ao Senhor lhe escapa. É como se ele registrasse cada um deles. Isso mostra que Deus não apenas protege os servos. Ele se relaciona intimamente com eles e está presente em suas vidas. A proteção é uma consequência do relacionamento entre Deus e o servo devido unicamente à graça do próprio Senhor.

É interessante ver como cada uma dessas etapas é feita por uma pessoa diferente e como as ações são compatíveis com a natureza e o caráter de cada uma delas. Assim, o perverso “oprime”, o servo “confia” e o Senhor “protege”. As atitudes dos perversos e do Senhor não podem ser controladas pelo servo. Ele apenas é alvo de tais ações. Entretanto, suas próprias atitudes são da sua responsabilidade e há um papel a ser cumprido. Um papel que é compatível com a confiança e a obediência que eles têm em Deus, assim como um filho que confia no pai ou como um soldado que confia no seu comandante. Para tanto, todos nós, servos de Deus, devemos imitar o salmista sendo “fiéis” e “agradecidos” (v.12): “Os teus votos estão sobre mim, ó Deus e eu os manterei. Darei graças a ti” (‘alay ’elohîm nedareyka ’ashallem tôdot lak). Tendo agido assim, não importa o tamanho dos músculos dos que tentem nos deter. Deus sempre será o nosso protetor amado.

Pr. Thomas Tronco

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