Quarta, 15 de Agosto de 2018
   
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Salmo 64 - Ação e Reação

 

A era cristã passou por um desenvolvimento substancial no tamanho dos seus locais de culto. A igreja primitiva se reunia nas casas (Rm 16.3-5; 1Co 16.19; Cl 4.15; Fm 2), em grupos limitados de pessoas, de modo que, em uma cidade, havia muitas igrejas, pelo que se pode ver no número de pastores efésios que se encontraram com Paulo na cidade de Mileto (At 20.17-38). Mas, depois que Constantino assumiu o império, passou a construir, com verba pública, edificações que abrigassem os cristãos, em devolução ao que lhes foi tirado durante os anos de perseguição. Tais edificações, em conjunto com a teologia de uma época em que pagãos passaram a fingir a conversão a Cristo com interesses seculares, passaram a ser consideradas templos, no sentido de não serem apenas locais de reunião dos crentes, mas um lugar de habitação do Deus que “não habita em templos feitos por mãos” (At 17.24 cf. 1Rs 8.27; 2Cr 2.5,6; 6.18; Is 66.1).

Não precisou mais que isso para que muito da adoração cristã passasse a ser transferida para a construção e manutenção das edificações religiosas. Com o tempo e com o desenvolvimento da arquitetura, elas foram se tornando cada vez maiores e belas. O limite desse intento se deu no auge da arquitetura gótica, quando as catedrais passaram a alcançar alturas enormes, como que em uma busca, por meio de pedras, pelo próprio Deus altíssimo. Essa época viu algumas tragédias devido à queda de construções que iam além do que as leis da física permitiam suportar, como no caso da catedral de Beauvais. O desejo de templos cada vez mais alto trouxe ruína e morte para muitas pessoas. A “ação” de desafiar o equilíbrio e a resistência dos materiais da época gerou uma “reação” adversa – várias, na verdade.

Davi não viveu na época das grandes construções dos templos cristãos, nem tinha o conhecimento de arquitetura daqueles construtores, mas sabia que algumas “ações” geravam inevitáveis “reações”. O Salmo 64 está ambientado nas mesmas circunstâncias do salmo precedente: o golpe de estado de Absalão e a fuga de Davi para salvar sua vida. Se o contexto histórico é o mesmo, o enfoque do salmista não é. No Salmo 63, Davi olha para seu relacionamento com Deus e no valor dele sobre todas as necessidades da vida. Porém, o Salmo 64 é uma reflexão sobre a “ação” maligna dos inimigos dos servos de Deus e a “reação” do Senhor ao proteger seus filhos e se opor aos inimigos. Desse modo, podemos usufruir da teologia oferecida pelo salmista ao notar as “ações” e “reações” contidas na canção davídica.

Entre os feitos que deixaram o salmista “perplexo” (v.1), a primeira das ações dos inimigos é reunir pessoas para o mal (v.2). Davi roga a Deus que o proteja “do grupo de malfeitores” (missôd mere‘îm). Trata-se de uma associação de pessoas que tinham um interesse comum: conspirar contra o salmista para fazer-lhe mal. O perigo aumentava à medida que os conspiradores, que lideravam tal movimento, arrebanhavam adeptos que se amotinavam contra o rei, aprovando e apoiando o golpe de estado. Por isso, a oração de Davi é, também, por proteção “do motim dos obreiros da maldade” (merigshat po‘alê ’awen).

A segunda ação dos malfeitores era causar danos por meio das palavras (v.3). Como soldados que se preparam para a guerra amolando o corte das suas armas, os inimigos de Davi se preparavam para destruir se utilizando daquilo que diziam contra o rei: “Eles afiam suas línguas como espadas” (shannû kaherev leshônam). A palavra hebraica para língua (lashôn) pode ser usada tanto no sentido literal como no sentido figurado, representando aquilo que ela produz, ou seja, as palavras. O resultado final é o que Davi chama de “palavra amargurada” (davar mar). O que diziam era a exata expressão da amargura que sentiam contra Davi, fazendo jus ao ensino do Senhor de que “a boca fala do que está cheio o coração” (Lc 6.45).

A terceira era tramar maus intentos em segredo (vv.4,5). O que esses homens tinham em mente não era uma disputa aberta, honesta e honrada, mas um golpe pelas costas que fosse indefensável. Para eles, honra nada significava. O que eles queriam, a qualquer custo, era a vitória sobre o rei. Por isso, Davi diz (v.4) que eles trabalhavam “para atingir o inocente às escondidas” (lîrôt bammistarîm tam). A expressão “às escondidas” é explicada na sequência quando Davi se refere a um ataque não anunciado que pega seu alvo despreparado e desprotegido: “eles atacam de súbito” (pit’om ioruhû). Essa exposição figurada, como se os ataques verbais e as tramas de motim fossem uma guerra literal, recebe um complemento no verso seguinte (v.5), quando Davi lhes expõe tanto a disposição como a preparação oculta: “Eles se fortalecem uns aos outros [para praticar] maldade” (yehazzeqû-lamô davar ra‘). “Eles discorrem a fim de esconder armadilhas” (yesafferû litmôn môqeshîm).

Por fim, a última ação dos inimigos de Davi foi planejar o mal alheio (v.6). Os danos que causavam não eram frutos de um momento de descontrole. Em lugar disso, os danos vinham de planos prévios bem estruturados, com alvos bem definidos: “Eles inventam injustiças” (yahpesû-‘ôlot). Isso significa que tais homens buscavam novas maneiras de atingir seu alvo. O planejamento perverso é nítido em tais palavras. Por fim, Davi entendeu o risco que corria na mão desses homens, já que sua dedicação em procurar novas formas de fazer o mal tornavam-nos imprevisíveis e perigosos: “O íntimo de cada um [deles] abriga] um coração insondável” (weqerev ’îsh welev ‘amoq). Em outras palavras, uma busca pelos seus intentos concluiria que, quando mais adentrado no interior dos tais, tanto mais se descobriria quão insondáveis são seus corações.

Que ações terríveis! Quanta decisão e disciplina para fazer o mal. E o pior é que tais homens não estavam preocupados com os resultados dos seus atos (v.4): “Eles não temem” (lo’ yiyra’û). Mas deveriam temer. O fato é que suas ações gerariam reações que eles não desejavam. E a reação que eles deveriam temer, mas não temeram, era a reação de Deus (vv.7-9). Davi tinha convicção de que o Senhor reagiria contra aquele mal: “Mas Deus lançará [suas] flechas; de súbito, eles serão feridos” (wayyorem ’elohîm hets pit’ôt hayû makkôtam). O resultado final seria dor e lamento a ponto de ocorrer o que Davi previu: “Todos aqueles que os virem menearão a cabeça” (yitnodadû kol-ro’eh bam). Para uma ação tão feroz contra o servo de Deus, há uma reação punitiva severa da parte do soberano, simplesmente porque ele é justo e fiel. Eis o motivo pelo qual, ainda que fugindo da fúria dos maus, o salmista já se alegra e confia no Senhor (v.10). E quão verdadeiro tudo isso foi na história do salmista, visto que o breve sucesso dos seus inimigos foi seguido da ruína devastadora dos perseguidores (2Sm 18).

Basta olhar a reação de Deus para que, qualquer um que o conheça, se sinta desencorajado e agir com dissimulação, malícia, difamação e premeditação de ações que atinjam outrem. A justiça do Senhor, cedo ou tarde, é aplicada contra a maldade. O arrependimento e a mudança de atitude, nesses casos, são urgentes. Por outro lado, o servo de Deus sabe que tem um protetor capaz de defendê-lo e trazer à luz o mal que estava oculto e prestes a ser atirado contra o indefeso. Isso deve gerar uma grande confiança e consolo nos aflitos servos do Senhor, além de genuíno louvor e gratidão. Afinal, como no caso da catedral de Beauvais, a ação insensata de tentar superar os parâmetros criados por Deus gera uma reação contrária que inverte o sentido da destruição. A diferença é que, no caso do servo de Deus, enquanto seus oponentes são derrubados por terra pela sua própria maldade, ele é elevado acima das mais altas catedrais, envolvido nos braços carinhosos e protetores do seu Pai.

Pr. Thomas Tronco

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