Segunda, 25 de Junho de 2018
   
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Salmo 69 - Reações das Pessoas Maltratadas

 

Nessa semana, li um pequeno texto que me deixou pensativo. Ele contava que, por volta das 3 horas da madrugada, um professor universitário atendeu seu telefone e ouviu: “Aqui é o seu vizinho. Seu cachorro está latindo e não me deixa dormir”. O professor agradeceu e desligou o telefone. No dia seguinte, no mesmo horário da madrugada, o vizinho, sonolento, atendeu ao telefone. “Aqui é o professor. Eu só queria dizer que eu não tenho cachorro”.  

Além do óbvio humor irônico contido nessa pequena história, a reação do professor me deixou pensativo. Que tipo de sentimento o motivou a “dar o troco” ao vizinho? Raiva, indignação, vingança? Apesar de ser uma resposta branda, a ironia raras vezes é ineficaz para atingir profundamente o coração de alguém. Por outro lado, há pessoas que, diferente do professor, reagem intensa e imediatamente. Por fim, cada um tem seu modo de reagir a um ataque, perseguição ou maltrato.

Davi não era diferente. O Salmo 69 foi escrito em uma situação de uma pressão insuportável. Não obstante partes do salmo serem aplicadas a Jesus (v.3 cf. Jo 19.28; v. 4 cf. Jo 15.25; v.9 cf. Jo 2.17 e Rm 15.3; v.21 cf. Mt 27.34,48), o contexto não trata do Deus encarnado, mas do rei Davi quando já reinava em Jerusalém – haja vista sua menção a Sião (v.35). Diferente de Jesus, o salmista era um homem pecador, pelo que se vê nas expressões (v.5) “minha culpa” (’iwwaltî) e “meus delitos” (’ashmôtay). Sua situação quando escreveu o salmo era de sofrimento (vv.1-3,17,29) por causa de uma perseguição atroz (vv.4,14,18) na qual ele foi alvo de acusações, fofocas e chacotas (vv.4,7,11,12,19). É nítido o fato de que o salmo não descreve exclusivamente a situação de Jesus, pois, diferente do Mestre que perdoa e ora por seus inimigos (Lc 23.34 cf. Mt 5.44), Davi deseja punição e juízo para seus perseguidores (vv.22-28). Além disso, um trecho do salmo também foi aplicado, no Novo Testamento, a Judas Iscariotes (v.25 cf. At 1.20).

Portanto, apesar do amplo uso desse salmo no Novo Testamento, seu enfoque primário envolve a própria situação de vida do rei Davi. Nesse sentido, ao ser perseguido ferozmente pelos inimigos, ele reage de maneiras comuns aos homens, nem todas aconselhadas por Cristo, mas certamente conhecidas de todos nós. Assim, o salmo apresenta cinco reações comuns aos homens que são maltratados.

A primeira reação do homem maltratado é supervalorizar o sofrimento. Não há dúvidas de que Davi estava sofrendo injustamente (v.4) — por isso, chama seus inimigos de “aqueles que me odeiam sem motivo” (son’ay hinnam). Entretanto, essa situação não era nova para o rei que já fora o general fugitivo do reino de Saul. Porém, poucas vezes vemos o profícuo salmista analisar sua situação de maneira tão pessimista como nesse salmo (v.2): “Estou imerso no lodo profundo, onde não há apoio para os pés. Acho-me nas profundezas das águas e a correnteza me afoga” (tava‘tî bîwen metsûlâ we’ên ma‘omad ba’tî bema‘amaqqê-mayim weshivvolet shetafotnî). Até seu clamor é dramático, temperado com uma pitada de desesperança e de impaciência (v.3): “Estou cansado de tanto clamar. Minha garganta está ardendo. Meus olhos estão nublados de tanto esperar pelo meu Deus” (yaga‘tî beqor’î nihar gerônî calû ‘ênay meyahel le’loay). Para reações como essa, Jesus nos informa que o sofrimento faz parte da nossa vida e afirma que eles não excluem obrigatoriamente a paz e o ânimo: “Estas coisas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo” (Jo 16.33).

A segunda reação é sentir-se ofendido pelos comentários. Mesmo o rei servindo ao Senhor, o que era dito injustamente a seu respeito lhe causava constrangimento diante das pessoas (v.7): “Por ti eu arco com insultos, a vergonha cobre meu rosto” (‘aleyka nasa’tî herpâ kissetâ kelimmâ panay). Normalmente, ataques como esse por causa da fidelidade a Deus são recebidos como um elogio. Mas, depois de certo tempo sendo atacadas, ofendidas e desprezadas, as pessoas começam a sentir mais profundamente as feridas causadas pela língua destruidora (v.10): “Eu chorei e fiquei sem comer e isso gerou mais escárnios contra mim” (wa’evkeh batsôm nafshî wattehî laharafôt lî). Por isso, é fácil notar a amargura de Davi ao dizer (v.12): “Os que se assentam à porta [da cidade] cochicham a meu respeito e sou o tema das cantigas dos beberrões” (yasîhû bî yoshvê sha‘ar ûnegînôt shôtê shekar). Esse é um sofrimento difícil de ser desconsiderado. E seria impossível fazê-lo sem o encorajamento das palavras de Jesus: “Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós. Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus” (Mt 5.11,12a).

A terceira reação é ser impaciente na oração. Davi ora a Deus – quanto a isso não há dúvidas (v.16): “Responda-me, ó Senhor, pois teu amor é bondoso. Atenda-me conforme a grandeza da tua compaixão” (‘anenî yehwâ kî-tôv hasdeka kerov rahameyka peneh ’elay). Porém, o hábito de buscar a Deus é sempre cultivado pelo salmista em meio à paciência e esperança, como se vê em outros salmos: “Em ti, força minha, esperarei; pois Deus é meu alto refúgio” (Sl 59.9). Contudo, no Salmo 69, a oração de Davi assume um caráter pouco frequente em seus poemas e cânticos (v.17): “Responda-me rápido” (maher ‘anenî). Essa urgência que a pessoa maltratada tem de ver sua oração atendida pode fazê-la, em seguida, achar que a oração é inútil em vez de simplesmente entender que Deus tem propósitos ao demorar para atender as orações. O perigo é que a “urgência da oração” pode se transformar em “ausência de oração”. Porém, a lição do Mestre foi em outro sentido, ensinando a “orar sempre e nunca esmorecer” (Lc 18.1). O apóstolo Paulo, homem maltratado por causa do Evangelho, escreveu: “Regozijai-vos na esperança, sede pacientes na tribulação, na oração, perseverantes” (Rm 12.12).

A quarta é ressentir-se pelo silêncio dos amigos. Diferente de outras ocasiões em que os inimigos do rei tramavam às ocultas (Ex.: Salmo 64), as circunstâncias do Salmo 69 parecem envolver uma perseguição aberta (vv.10-12). Nesse momento, quando Davi mais precisou de apoio, consolo e encorajamento, ele viu sua esperança desvanecer, pois não achou quem se postasse ao seu lado (v.20): “Eu esperei por compadecimento, mas não houve nenhum. E por confortadores, mas não encontrei ninguém” (’aqawweh lanûd wa’ayin welamnahamîm welo’ matsa’tî). É com coração pesado que ele constata (v.8): “Tornei-me um estranho para os meus irmãos e um estrangeiro para os filhos da minha mãe” (mûzar hayîtî le’ehay wenokrî livnê ’immî). Eis a importância de o autor de Hebreus dizer-nos que Jesus se compadece das nossas fraquezas (Hb 4.15) e de o próprio Jesus nos garantir: “Eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20).

A última reação é nutrir o desejo de vingança. Apesar de Davi ter se negado a fazer mal a Saul quando esse o perseguia (1Sm 24.6; 26.9), seus salmos contêm frequentes pedidos para que Deus o livre dos perseguidores julgando-os como homens injustos. Porém, nesse salmo, Davi é tremendamente enfático e longo nessa solicitação (vv.22-28). Ele quer que o castigo seja derramado por completo (v.24): “Derrama o teu furor sobre eles e que a tua ardente ira os atinja” (shefak-‘alêhem za‘meka waharôn ’afka yashîgem). Seu anseio é que não haja perdão nem graça de Deus para eles (v.27): “Acrescenta culpa sobre as culpas deles e não se acerquem eles da tua justificação” (tenâ-‘aôn ‘al-‘aônam we’al-yav’û betsidqateka). Por fim, seu desejo de vingança se expressa de maneira chocante (v.28): “Que seus nomes sejam apagados do livro dos vivos e que eles não sejam inscritos com os justos” (yimmahû missefer hayyîm we‘im tsaddîqîm ’al-yikkatevû). Essas colocações são tão sombrias que o final do salmo, de caráter dependente e reverente do adorador ao seu Deus (vv.30-36), não consegue apagar o tom iracundo que o salmo assumiu. Entretanto, nosso Senhor nos ensinou a subjugar esse tipo de sentimento, mesmo quando somos maltratados, a fim de dar lugar a um amor que só pode vir do próprio Deus: “Digo-vos, porém, a vós outros que me ouvis: amai os vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam; bendizei aos que vos maldizem, orai pelos que vos caluniam” (Lc 6.27,28).

Que contradição há entre as nossas reações naturais e as reações ensinadas e esperadas do novo homem que “está sendo renovado pelo conhecimento à imagem do seu Criador” (Cl 3.10 – NVI). Como são diferentes as maneiras de ver a vida e o sofrimento entre os homens terrenos e aqueles cuja “pátria está nos céus” (Fp 3.20). Porém, nessa luta interior somos encorajados a olhar as dores dessa vida como instrumentos de Deus para nos edificar. Assim, as pessoas que sofrem maus tratos devem pensar como o apóstolo Paulo: “Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte” (2Co 12.10).

Pr. Thomas Tronco

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