Quarta, 15 de Agosto de 2018
   
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Salmo 70 - O Valor da Memória

 

Eu tenho um amigo alemão com quem gosto muito de conversar. Não é sempre que podemos gastar algum tempo conversando, mas, sempre que isso acontece, aprendo algo novo e relevante para minha vida. Em nossa última conversa, ele me disse ter vergonha a respeito dos rumos e dos resultados da Segunda Guerra Mundial para o seu país. A princípio, não compreendi muito bem o sentimento do meu amigo, principalmente em relação ao “holocausto”, visto que tudo aquilo ocorreu em outra geração e por mãos de uma minoria dominante. Porém, ele me explicou que isso é resultado de sua educação no ensino fundamental, visto que as professoras ensinam parte de história alemã como motivo de vergonha para o povo com a finalidade específica de impedir que coisas assim voltem a acontecer. Nesse ponto, fiquei atônito. Primeiro, com a nobreza do objetivo; depois, com o valor que a memória tem na vida prática das pessoas. A lição que tirei disso foi: “Relembrar o passado altera os rumos no presente”. 

Acredito que Davi sabia muito bem essa lição e o Salmo 70 é uma prova disso. Esse salmo é praticamente uma cópia do Salmo 40.13-17. Apesar de nenhum versículo ser exatamente idêntico no texto hebraico, o sentido básico é exatamente o mesmo. Na verdade, parece que Davi escreveu “de cabeça” o Salmo 70 lembrando do trecho final do Salmo 40 – razão para as pequenas diferenças – com a clara intenção de relembrá-lo. É possível também que, pelo uso popular de um salmo tão belo, sua letra tenha sofrido certa alteração na boca do povo, levando o salmista a reproduzi-la. De qualquer modo, a intenção do Salmo 70 vem expressa no seu título. Literalmente, e ele diz: “Para relembrar” (lehazkîr). A pergunta é: “Para relembrar o que?”.

Essa resposta não é fácil definir, pois duas situações podem estar por trás do salmo. A expressão lehazkîr (infinitivo construto do verbo “lembrar”, no grau Hifil, prefixado pela preposição “para”) pode ser traduzida de modo a sugerir duas situações. Ela pode ser “para recordar” – como em Isaías 43.26 – em que a situação talvez relembrasse a crise que Davi passou quando escreveu o Salmo 40. Nesse caso, a lembrança da esperança do rei no passado serviria agora para reavivar a esperança e a confiança no Senhor, lembrando, também, da libertação passada. Outra possibilidade de tradução é “para celebrar” – como em Cantares 1.4 –, sugerindo o mesmo tipo de livramento que o salmista teve nos dias do Salmo 40, conclamando o povo a agradecer e comemorar aquilo que pediu a Deus e dele recebeu.

O fato de não ser possível definir o contexto do Salmo 70, não nos impede de notar a intenção de Davi de relembrar os dias de tormento que atravessou apoiado na oração confiante ao Senhor. Nesse sentido, o salmista quer oferecer quatro recordações que ajudem os leitores do salmo a decidir pelo modo correto de se comportar no presente diante das dificuldades e do controle soberano e amoroso do Senhor.

A primeira recordação é a grande necessidade que temos de Deus (v.1). “Ó Deus, [seja favorável] a me livrar” (’elohîm lehatsîlenî). Deve-se notar que o salmista não dá nenhum tipo de ordem a Deus, nenhum tipo de ultimato, nem sequer algum modo de orar ou alguma realidade a ser lembrada que obrigue o Senhor a socorrê-lo. O que o salmista pede é o favor de Deus, favor esse imerecido para qualquer homem – “favor imerecido” é uma das definições teológicas para a graça de Deus. A razão dessa oração é o fato de que o salmista não pode, por si só, resolver o que lhe aflige. Assim, mesmo sabendo que nada merece, ele recorre ao único que pode sanar sua necessidade. O v.1 ainda fornece mais uma característica da situação atravessada pelo salmista, demonstrando que ele tinha uma necessidade “urgente”: “Ó Senhor, apressa-te em me livrar” (yehwâ le‘ezratî hûshâ). Com isso, o salmista não se deixa enganar pelo orgulho de dizer que pode enfrentar qualquer coisa e que tem respostas corretas para tudo. Ele reconhece que tem necessidades que ele mesmo não pode sanar e conhece o único que pode.

A segunda recordação é o pequeno poder das adversidades (vv.2,3). Davi lembra a situação arriscada que passou. Havia inimigos que queriam matá-lo, cuja determinação fazia com que a vida de Davi estivesse “por um fio”. Porém, sabedor de quem é o Senhor e qual o seu poder, Davi clama a fim de que seus inimigos sejam desbaratados: “Sejam envergonhados e derrotados aqueles que buscam [tirar] minha vida” (yevôshû weyahperû mevaqshê nafshî). Essa oração só faz sentido porque o salmista sabe que mesmo as piores adversidades nada são diante de Deus. Não era questão de Deus conseguir ou não livrá-lo, mas de querer ou não. Por isso, sua oração confiante: “Que fujam por causa da sua vergonha aqueles que dizem: Aha! Aha!” (yashûvû ‘al-‘eqev bashtam ha’omerîm he’â he’â). A confiança dos inimigos que riam e zombavam de Davi é vista por ele – e por Deus – como uma bravata inconsequente de quem não conhece o poder de Deus. O fato é que o salmista quer trazer à memória que, independente do tamanho da provação e da perseguição, nenhum problema é maior que o nosso Deus.

A terceira é a grande maravilha de servir a Deus (v.4). Se os inimigos dos servos de Deus são reduzidos a nada diante do Senhor Todo-poderoso, os agraciados de Deus crescem em seus braços: “Alegrem-se e exultem em ti os que te buscam” (yasîsû weyismehû beka kol-mevaqsheyka). Davi mostra que buscar a Deus leva o servo de Deus a encontrar mais que o Senhor a quem busca. Leva-o a encontrar a alegria verdadeira, sinal de edificação pessoal e uma paz centrada em Deus e não nas circunstâncias. E nesse crescimento pessoal, crescem-lhes também a gratidão e o louvor, expressão da comunhão maravilhosa que tem aquele que é encontrado por Deus: “E que aqueles que amam a tua salvação digam continuamente: ‘Seja Deus engrandecido’” (weyo’merû tamîd yigdal ’elohîm ’ohavê yeshû‘ateka). Esse é o júbilo e o louvor de quem conhece algo maravilhoso desconhecido dos que andam longe de Deus.

A quarta recordação é a pequena capacidade dos homens (v.5). Por ser rei, o salmista deveria ser o homem mais poderoso, respeitado e temido do país. Entretanto, Davi se mostra fraco diante dos inimigos, pelo que busca do Senhor um socorro que ele mesmo não pode promover, ainda que tenha recursos que outros não têm. Desse modo, o rico e nobre rei diz: “Eu sou pobre e desamparado” (’anî ‘anî we’evyôn). O salmista tem um vislumbre da sua incapacidade diante do mundo. Para o homem mundano, essa visão costumeiramente produz um pessimismo que lhe tira por completo a paz e a esperança. Para o servo de Deus, essa visão produz dependência: “Tu és o meu socorro e a minha preservação” (‘ezrî ûmefaltî ’attâ).

Davi tinha razão: há coisas que temos de recordar para saber como agir nas mais diversas situações. E isso aumenta em importância na medida em que essas situações vão se tornando mais difíceis e delicadas. Se isso foi importante nos dias de Davi, continua sendo nos dias de Jesus, pelo que, falando da obra do Espírito Santo, diz que ele utilizaria a memória como ferramenta de edificação e de direcionamento na vida dos crentes: “Mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito” (Jo 14.26). Nos momentos difíceis Jesus afirmou que seria necessário relembrar do seu ensino: “Ora, estas coisas vos tenho dito para que, quando a hora chegar, vos recordeis de que eu vo-las disse” (Jo 16.4). Que incentivo maior que esse nós precisamos para nos aplicar ao estudo da Bíblia e para nos submeter confiantes ao Senhor de quem recordamos as grandezas?

Pr. Thomas Tronco

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