Terça, 19 de Junho de 2018
   
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Salmo 72 - Os Santos Desejos para a Vida

 

Toda criança sonha em crescer e se tornar como seus pais – ironicamente, quando crescem, sentem saudades da infância. Trabalhar, dirigir e ter uma família são desejos que os pequenos têm por ver essas realidades presentes na vida dos pais. Por isso, o término da faculdade é um momento ímpar na vida de muitas pessoas. Significa que terminou a preparação formal para aquilo que elas serão na vida. Significa também que o momento que tanto aguardaram finalmente chegou e suas vidas sofrerão uma transformação muito grande. Os sonhos se tornam possibilidades. Por outro lado, as incertezas futuras se tornam medos presentes. Mesmo assim, nada é capaz de nublar a expectativa do que a vida trará. 

O rei Salomão também passou por isso. Ele assumiu o trono de Israel na velhice do seu pai, que faleceu após dar-lhe importantes conselhos (1Rs 1.32-42; 1Cr 29.22-30). Davi havia sido um grande e poderoso rei. Agora, o jovem Salomão assumiria seu lugar tendo a obrigação de sair da sombra do poderoso rei e cumprir o que lhe cabia como chefe de Estado. É certo que ele estava animado com o mundo que se abria diante dele, mas também estava assustado e ansioso. Por isso, foi até o tabernáculo do Senhor que estava na cidade de Gibeão e recorreu a Deus para ajudá-lo na grande tarefa que estava por vir. Ele pediu a Deus sabedoria para reinar e Deus lhe prometeu muitas bênçãos (1Rs 3.3-15; 2Cr 1.1-13). O Salmo 72, escrito por Salomão, chamado logo no princípio do salmo de “rei” (melek) e de “filho do rei” (ben-melek) – já que era o herdeiro do famoso e recém-falecido rei Davi – faz coro ao início do reinado de Salomão e aos anseios demonstrados no seu pedido a Deus. Sendo assim, esse salmo, provavelmente escrito por ele nessa época, apresenta os anseios do novo rei.

Assim, seu primeiro desejo é promover a justiça entre os homens. Falando de si na terceira pessoa, Salomão roga a Deus (v.2): “Que ele [o rei] julgue o teu povo com justiça e os teus aflitos com justas medidas” (yadîn ‘ammeka betsedek wa‘anîyeyka bemishpat) – vale lembrar que, quando questionado por Deus sobre seus desejos, esse foi o anseio apresentado por Salomão (1Rs 3.7-9). Esse desejo por justiça significa ter a capacidade de decidir e governar com retidão impedindo que os fracos sejam oprimidos pelos fortes. Assim, prosseguindo sua oração no salmo por meio de uma sequência volitiva iniciada no v.1, ele clama (v.4): “Exerça ele justo juízo sobre os aflitos do povo, defenda os filhos dos necessitados e reduza a pó os opressores” (yishpot ‘anîyê-‘am yôshîa‘ livnê ’evyôn wîdakke’ ‘ôsheq). Um fator importantíssimo da justiça almejada pelo rei é que ela se baseava no caráter de Deus e não nos conceitos corrompidos do homem. Por isso, ao exercer a justiça, Salomão prevê um processo de santificação no meio de Israel (v.5): “Temam-te enquanto brilhar o Sol e também diante da Lua, de geração em geração” (yiyra’ûka ‘im-shamesh welifnê yareah dôr dôrîm). Pelo jeito, ele esperava e desejava que sua correta atuação trouxesse prosperidade e paz em justa medida a todos (vv.3,6,7), além de socorro aos carentes (vv.12-14).

O segundo desejo é exercer uma influência abrangente. Parte da oração de Salomão é feita de modo tão hiperbólico que alguns intérpretes consideram o Salmo 72 um salmo messiânico. Contudo, o Novo Testamento não o aplica a Jesus em nenhum lugar. Ao que tudo indica, Salomão deseja ser bem sucedido em seu encargo real de modo a exercer influência sobre o mundo, começando por um triângulo cujos possíveis ângulos são o mar Mediterrâneo a oeste, o mar Vermelho ao sul e o rio Eufrates ao norte, terminando nos confins do mundo (v.8): “Que ele governe de mar a mar e desde o rio até as extremidades da Terra” (weyerd mîyam ‘ad-yam ûminnahar ‘ad-’afsê-’arets). Salomão desejava ter algum mando (v.9) sobre os reinos do “deserto” e sobre as “ilhas” (talvez tivesse em mente locais como Tiro e Chipre), queria receber riquezas (v.10) de Társis (possível região na Espanha), de Sabá (reino no Extremo Sul da Arábia, atual Iêmen) e de Sebá (região portuária nas margens do mar Vermelho) – todos esses locais eram marcados por suas riquezas. Como rei, ele quer chegar ao topo da influência real sendo um tipo de rei dos reis, que nada mais é que um imperador a quem outros rei e reinos servem (v.11) – nos dias de Salomão, Israel teve prerrogativas imperiais.

O terceiro desejo do rei é ser alvo e veículo de bênçãos. Como alvo de bênçãos, ele deseja receber um reconhecimento positivo por parte das pessoas (v.15): “Que ele viva e lhe seja dado do ouro de Sabá. Que intercedam por ele continuamente. Que o bendigam todos os dias” (wîhî weyitten-lô mizzehav sheva’ weyitpallel ba‘adô tamîd kol-hayyôm yevarakene). Ele também quer ser abençoado com uma fartura que somente Deus pode dar, visto que almeja colher até nos cumes dos montes, sabendo que tais locais são menos férteis para a agricultura (v.16): “Que haja abundância de grãos na Terra. Que [as messes] ondulem no alto dos montes” (yehî pissat-bar ba’arets bero’sh harîm yir‘ash). Como veículo de bênçãos, Salomão deseja que sua prosperidade pessoal seja compartilhada com seus súditos, criando, assim, uma condição tão positiva que faça crescer o número de habitantes das cidades (v.16b). O ponto alto dessa parte do salmo é quando Salomão abertamente deseja ser abençoado como Abraão (comparar com Gn 12.2,3) e, assim como o patriarca, ser também veículo de bênçãos para outros (v.17): “Que seu nome permaneça para sempre. Que brote sob o Sol o seu nome. E que todos os povos sejam abençoados nele e lhe chamem bendito” (yehî shemô le‘ôlam lifnê-shemesh yanîn shemô weyitbarkû bô kol-gôyim ye’asherûrû).

Seu quarto desejo é glorificar ao Deus Todo-poderoso. Nesse ponto da oração, Salomão para de pedir por si e se dedica a declarar seu reconhecimento do poder e da bondade do Senhor, fonte única de todas as bênçãos almejadas pelo novo rei de Israel (v.18): “Bendito é o Senhor Deus, Deus de Israel, aquele que faz, por si só, prodígios maravilhosos” (barûk yhwh ’elohîm ’elohê yisra’el ‘oseh nifla’ôt levaddô). A ênfase na identidade de Deus como “Senhor” e “Deus” de Israel serve para enfatizar a adoração e reverência prestada pelo rei de Israel ao Rei dos reis e Senhor dos senhores. Se Salomão deseja que seu próprio nome e seu domínio se espalhem pela Terra, seu desejo é ainda maior quando se refere ao nome e ao domínio do Senhor (v.19): “E bendito é o seu glorioso nome para sempre. Que toda a Terra se encha da sua glória!” (ûbarûk shem kevôdô le‘ôlam weyimmale’ kevôdô ’et-kol ha’arets). A ênfase nesse anseio se mostra na dupla ocorrência da palavra “amém” (’amen), cujo significado é “verdade”, e que, em uma oração, serve como ratificação e apoio ao que fora dito.

Finalmente, Salomão desejou assumir o lugar da geração anterior. O último versículo do Salmo 72, literalmente, diz (v.20): “Completaram-se as orações de Davi, filho de Jessé” (kallû tefillôt dawid ben-yishay). Dois sentidos podem surgir do verbo dessa frase. O primeiro é o de “terminar”. Por isso, entende-se que é possível que o Salmo 72 fosse o último salmo de uma coletânea antiga dos salmos davídicos, livro ao qual Salomão teria encerrado com um salmo de sua autoria. O segundo sentido do verbo seria o de “cumprir-se” (conforme o uso do verbo “kalâ” em 2Cr 36.22). Nesse caso, o que Salomão teria em mente é que os anseios do seu pai expressos em suas orações sobre o reino, sobre os preparativos para a construção do Templo (que começou a ser erguido no início do reinado de Salomão) e sobre o próprio filho que se assentava agora sobre o trono, haviam se cumprido pela graça de Deus, motivo pelo qual o salmista adorou o Senhor nos vv.18,19. Em ambas as possibilidades, o quadro geral é o mesmo: Salomão assumindo a responsabilidade de reinar no lugar do grande rei Davi, seu antepassado, e continuar louvando ao Senhor por meio de orações e instruções ditas, cantadas e registradas (visto que temos salmos, provérbios, escritos sapienciais e poesias de autoria salomônica). Salomão tinha consciência do ocaso da geração anterior e da responsabilidade que tinha de ocupar o posto vago.

De modo marcante, os desejos de Salomão, não por mera coincidência, acabam por igualar-se aos desejos da igreja de Deus. Ela também tem o desejo de promover a justiça entre os homens e, por isso, Paulo orienta os crentes a “aprovardes as coisas excelentes e serdes sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo, cheios do fruto de justiça” (Fp 1.10,11). Ela também deve exercer uma influência abrangente, pelo modo como Jesus ordenou: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (Mt 5.16). Ser alvo e veículo de bênçãos deve ser o desejo da igreja, motivo pelo qual ela deve se dedicar a “toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos” (Ef 6.18). A igreja verdadeira também deve, com toda seriedade e compromisso, glorificar ao Deus Todo-poderoso, visto que Deus mesmo “nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, para louvor da glória de sua graça” (Ef 1.5,6). Finalmente, a igreja de Cristo deve, com honra, assumir o lugar da geração anterior, conforme Paulo ensinou a Timóteo pouco tempo antes de morrer: “E o que de minha parte ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros” (2Tm 2.2).

Que desejos seriam melhores que esses para o povo que foi salvo das trevas do pecado por Cristo e aguarda o tempo de habitar para sempre com o supremo Rei dos reis e eterno Senhor do senhores?

Pr. Thomas Tronco

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