Terça, 16 de Janeiro de 2018
   
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Salmo 73 - Inveja da Condição dos Ímpios

Certo rapaz gostava muito de dirigir seu carro. Cuidava dele como se fosse um filho. Lavava, encerava e mantinha tudo em bom estado de conservação. Seu carro só não lhe trazia mais alegria porque o rapaz detestava o modo como outros motoristas se portavam no trânsito. Em lugar de aproveitar os passeios de carro, o jovem ficava muito nervoso quando era ultrapassado pelo lado direito, quando via carros mal-estacionados e, principalmente, quando outros carros atravessavam o sinal vermelho. Ele se sentia lesado por ter de esperar a vez para seguir em frente enquanto um “espertinho” cruzava indevidamente o semáforo. Essa indignação e essa sensação de perda foram crescendo até que, um dia, invejando a condição daqueles motoristas que sempre chegavam antes que os outros, ele resolveu passar o cruzamento com o sinal vermelho. Foi quando um caminhão, em alta velocidade, se chocou com seu carro e lhe tirou a vida.

Asafe, autor de doze salmos (50, 73-83) e chefe do louvor na “Casa de Deus” (1Cr 16.3 cf. 25.1,6), não tinha um automóvel, mas conhecia o sentimento que acabou levando aquele rapaz à morte. O Salmo 73 é um relado do conflito pelo qual ele passou. Apesar dos encargos importantes que tinha, Asafe atravessou uma crise que quase o inutilizou na obra do Senhor. Essa crise – e seu aprendizado posterior – foi descrita no Salmo 73. Ele começa com a afirmação (v.1) de que “Deus é bom para Israel, para os puros de coração” (tôv leyisra’el ’elohîm levarê levav). Entretanto, parecendo contradizer essa verdade, Asafe completa (v.2): “Meus pés quase se desviaram” (kim‘at natayû raglay). Ele não quis dizer que tropeçou em algo, mas que quase se afastou do Deus bondoso. A razão disso é clara na pena do salmista (v.3): “Pois eu senti inveja dos arrogantes ao ver a prosperidade dos maus” (kî-qinne’tî bahôlelîm shelôm resha‘îm ’er’eh).

Assim como o jovem que se cansou de ver os motoristas “espertinhos” cruzarem o sinal vermelho, Asafe se cansou de ver os maus vivendo tranquilamente enquanto os justos sofriam. Em algum momento, essa indignação se tornou inveja e desejo de viver como aqueles homens que não temiam a Deus, mas que não sofriam privações. Assim, dá para entender porque ele disse “meus pés quase se desviaram”. Esse estado – impróprio para o servo de Deus – não surgiu do nada. Sua causa foram conceitos e sentimentos errados.

Dentre as causas da inveja de Asafe, a primeira delas é a visão unilateral da situação. Usando um dito popular, Asafe viu apenas um “lado da moeda”: a vida tranquila dos homens maus. A unilateralidade da visão de Asafe é facilmente notada na análise irreal que faz desses homens (v.4): “Pois não há tormentos para eles e seus corpos são bem alimentados” (kî ’ên hartsuvvôt lemô tam ûbarî’ ’ûlam). Essa visão cresce e Asafe acaba por fazer uma descrição quase sobre-humana dos injustos, como se experimentassem uma existência distinta do resto da humanidade (v.5): “Para eles as fadigas humanas não existem e eles não sofrem como os homens” (ba‘amal ’enôsh ’ênemô we‘im-’adam lo’ yenugga‘û). A visão do salmista, que vê apenas um lado da realidade, ignora que todos os homens são sujeitos às condições da vida e, com uma observação unilateral da situação dos ímpios, conclui equivocadamente (v.12) que eles vivem “sempre tranquilos” (shalwê ‘ôlam). Não é de surpreender que Asafe os invejasse.

A segunda causa é a frustração diante da impunidade. Asafe vê que os homens maus, em lugar de esconderem seu orgulho vergonhoso e seu procedimento violento, os exibiam como se fossem peças do vestuário (v.6). Quem age assim, normalmente o faz pela certeza da impunidade. Por isso, suas palavras nem eram dissimuladas ou hipócritas. Sua maldade era exposta abertamente entre as pessoas por meio de palavras de uma arrogância sem limites (v.8): “Eles afrontam e falam com maldade. Eles falam da opressão abertamente” (yamîqû wîdavverû bera‘ ‘osheq mimmarôm yedavverû). A palavra traduzida aqui como “abertamente” quer dizer literalmente “de um lugar alto”. Isso pode significar falar com “orgulho” ou fazê-lo “de um lugar em que todos vejam”. Quer dizer que a certeza de impunidade leva o homem assim como que a subir em palanques para anunciar arrogantemente seus atos de injustiça e de exploração – o v.10 favorece a questão do orgulho dizendo que eles “colocam nos céus as suas bocas” (shattû bashamayim pîhem), como se fossem “deuses” falando. A impunidade que Asafe observa fica patente na pergunta desafiadora dos ímpios que questionava a própria capacidade ou existência de Deus (v.11): “Eles dizem: ‘De que maneira sabe Deus o que acontece? Há no Altíssimo conhecimento?’” (we’omrû êkâ yada‘-’el weyesh de‘â be‘elyôn). Ninguém age assim se sabe que terá de encarar o Senhor. Essa certeza de impunidade associada à prosperidade desses arrogantes foi uma das causas da inveja do salmista.

A terceira é o equívoco quanto ao propósito da vida. Parece que Asafe nutriu, por algum tempo, a falsa noção de que o homem existe para “ser feliz” e para “desfrutar de paz e de riquezas”. Isso porque, mesmo vendo que o procedimento dos ímpios é deplorável, ele reprova a validade dos seus próprios procedimentos justos (v.13): “Assim sendo, em vão eu mantive a minha consciência pura e banhei minhas mãos na inocência” (’ak-rîq zikkîtî levavî wa’erhats beniqqayôn kaffay). Se Asafe se lembrasse que o objetivo da sua existência é “glorificar a Deus” em lugar de “ser feliz e próspero”, ainda que os injustos prosperassem, ele estaria satisfeito e convicto de estar no lugar correto. Mas ele conclui que seu procedimento santo tem sido inútil diante dos resultados que estava colhendo (v.14): “Pois eu sofro o dia todo e sou punido a cada manhã” (wa’ehî nagûa‘ kol-hayyôm wetôkahtî lavveqarîm). Essa punição a que ele se refere parece ser o fato de ter de lutar com as dificuldades da vida enquanto os maus prosperavam. Não são necessários mais que esses três erros de observação e pensamento para se ter inveja das pessoas mais desonestas e vis do planeta.

Contudo, o salmo não termina assim. Os vv.15-17 formam uma transição para uma postura totalmente diferente. Enquanto os vv.15,16 evidenciam que Asafe não deixou sua vida ser guiada por aquela visão pessimista e invejosa – e o quanto seria danoso se tal ocorresse –, o v.17 é como uma vertente do salmo. Nele se inicia uma guinada no pensamento do salmista, sobre a prosperidade dos ímpios e o sofrimento dos justos, que o faz assumir seu lugar correto sob a direção soberana e santa do Senhor. O ponto que converte o rumo do texto é a preposição temporal “até que” (‘ad). Ela demonstra que aquilo que aconteceu no passado havia terminado naquele momento (v.17): “Até que eu entrei no santuário de Deus” (‘ad-’avô’ ’el-miqdeshê-’el). Não é possível determinar se Asafe se refere a uma entrada literal no tabernáculo ou se é uma figura de linguagem para se referir a uma aproximação de Deus – ou ambos concomitantemente. No entanto, é possível ver claramente o resultado: “Eu compreendi o futuro deles” (’avînâ le’aharîtam). Refletir sobre o fim dos injustos sanou a inveja que sentia deles e evitou seu desvio completo. Isso não ocorreu sem que três fatores o guiassem.

O primeiro fator foi lembrar a verdade completa. O outro “lado da moeda” era que a alegria presente dos ímpios se tornaria punição nas mãos de Deus (v.18): “Tu seguramente os colocarás em lugares escorregadios. Tu os farás cair em ruínas” (’ak bahalaqôt tashît lamô hiffaltam lemashû’ôt). Se a figura anterior era a de arrogantemente anunciarem sua maldade de lugares altos, essa nova figura os coloca como caídos dessas alturas onde subiram, destruídos pela queda (ver vv.19,20).

O segundo foi reconhecer a graça de Deus. O salmista narra seu estado inicial de conflito dizendo (vv.21,22): “Quando meu coração se tornou azedo e senti minhas entranhas perfuradas, eu fui um tolo e ignorante. Como fazem os animais, assim agi eu contigo” (kî yithammets levavî wekilyôtay ’eshtônan: wa’anî-ba‘ar welo’ ’eda‘ behemôt hayîtî ‘immak). Entretanto, quando se aproximou de Deus (v.17) ele percebeu a presença do Senhor consigo (v.23): “Mas estou continuamente contigo” (wa’anî tamîd ‘immak). Apesar de o salmista ter vivido momentos de revolta, de inveja e de ingratidão, o Senhor nem o abandonou, nem o desamparou nas dificuldades: “Tu seguraste a minha mão direita” (’ahazta beyad-yemînî). Finalmente, Asafe reconhece o que nunca deveria deixar de perceber: que a graça de Deus o acompanhava sempre.

O último fator foi nutrir a esperança da vida futura. Se no presente o Senhor era o guia de Asafe – assim como de todos os que lhe pertencem –, ele seria, no futuro, aquele que garantiria o bem-estar do salmista para que vivesse na sua maravilhosa presença (v.24): “No teu conselho tu me guias e, depois disso, levar-me-ás à glória” (ba‘atsatka tanhenî we’ahar kavôd tiqqahenî). A jornada com Deus que começa na Terra só termina nos céus. Assim, olhando para o futuro glorioso, Asafe vive com a esperança presente e com o consolo que vem dessa esperança (v.25): “Estando contigo, eu não tenho alegria na Terra” (we‘immeka lo’-hafatstî ba’arets). A ideia não é que andar com Deus gera tristeza. Pelo contrário, o que Asafe afirma é que nenhuma alegria terrena pode superar a alegria que ele tem no Senhor. Esse é o sentimento que surge no salmista que vive problemas no presente, mas que sabe que viverá no futuro na glória de Deus. Assim, a esperança da vida futura cria, na vida presente, contentamento, consolo, confiança e coragem (v.26,28).

É certo que o mundo tem muitas coisas que nos chamam a atenção. Com toda certeza seremos tomados de inveja ao ver os homens que não temem o Senhor desfrutar de paz, de alegria e de prosperidade enquanto nós lutamos para cumprir honradamente nossas responsabilidades. E é totalmente seguro que o diabo sempre fará sugestões a fim de acharmos desvantajoso seguir nosso Deus. Entretanto, ao saber previamente o que acontece quando se é atingido por um caminhão veloz, você ainda inveja os motoristas que cruzam o sinal vermelho? Não! Você simplesmente aguarda com paciência o semáforo ficar verde, pois sabe que sua alegria não vem de atravessar primeiro o cruzamento, mas de chegar são e salvo ao seu destino.

Pr. Thomas Tronco

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