Segunda, 27 de Fevereiro de 2017
   
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Por Que É Difícil Ser Pastor Hoje?

Se alguém deseja ser bispo, deseja uma nobre função. Essas palavras não são minhas. São do apóstolo Paulo (1Tm 3.1). E ele, é claro, estava certo. De fato, ser pastor é um grande privilégio. É nesse trabalho que nos envolvemos mais profundamente com o estudo da Palavra, fazendo descobertas maravilhosas! É nesse trabalho que vemos mais de perto a ação de Deus na vida das pessoas. É, também, nesse trabalho que temos a honra de atuar mais diretamente na ampliação das fronteiras do Reino de Deus, ajudando a cumprir o alvo final da história humana.

Contudo, como ocorre com todos os ofícios, o trabalho de pastor tem lá suas dificuldades. Nunca foi diferente. Também, pudera: os pastores são os alvos preferidos do diabo que, na luta contra a verdade, sabe onde golpear a igreja quando se empenha em feri-la e jogá-la no chão. Por isso, nas épocas de perseguição, os pastores são os primeiros a ser buscados pelas autoridades e, quando alguém quer zombar do cristianismo ou maldizê-lo, a primeira figura a ser desonrada e difamada é exatamente a figura do pastor. 

É muito feio um homem maduro ficar chorando suas mágoas. Então, nenhum pastor deve viver se lamentando ou suplicando a compaixão das pessoas quando essas coisas lhe sobrevêm. Somos soldados e não garotinhos chorões. Se alguém está no ministério e não tem fibra pra aguentar o tranco, então que vá trabalhar em um ofício mais calmo. Vá, por exemplo, cuidar de uma horta. Afinal de contas, nunca se ouviu falar sobre uma revolta de repolhos malignos!

Se não existe dúvida de que em todas as épocas a função pastoral enfrentou dificuldades, também está fora de questão que, nos dias em que vivemos, algumas dessas dificuldades adquiriram contornos mais fortes. Quero, então, destacar uma e outra aqui, não para chorar as mágoas, mas para alertar os crentes a fim de que eles evitem fazer parte do grupo de pessoas que tornam mais difícil o exercício do santo ofício episcopal. 

Em primeiro lugar, é difícil ser pastor hoje porque os crentes pensam no pecado meramente como fraqueza. Assim, se alguém furta, engana, ofende, blasfema, despreza, calunia, se embriaga, vive no ócio, fornica ou adultera, ouvimos frases assim: “Ele errou. Mas quem não erra?”. E, então, tudo segue normalmente. Às vezes, o vilão recebe até alguns privilégios como uma “pessoa fraca” que precisa de compreensão, amor e apoio. A partir daí, as coisas são ajustadas para que ele se torne o centro do universo, com tudo girando ao seu redor. Nada mais lhe é negado, pois (Deus o livre, coitadinho!) isso poderia levá-lo a cair de novo. No final das contas, ele descobre que até valeu a pena ter aprontado tanto.

A concepção do pecado como fraqueza não está errada. O problema é que o pecado não é fraqueza. O pecado é um ato de franca a aberta rebelião contra Deus. Trata-se de uma ofensa grave contra o Senhor que é santo. Trata-se de um crime digno da pena capital (Rm 1.28-31). É cuspir na imaculada Palavra de Deus. É afrontar o Criador. É pisar o Filho de Deus. É profanar o sangue da aliança. É ultrajar o Espírito da graça (Hb 10.29). 

Os crentes deveriam ficar horrorizados diante do pecado. Deveriam sentir-se inconformados e enojados. Diante do pecado deveríamos adoecer, definhar e perder peso. Os relatos sobre o pecado no nosso meio deveriam fazer o nosso rosto corar de vergonha e os nossos olhos chorar amargamente! Em hipótese alguma deveríamos fazer o que temos visto tantas vezes os crentes fazendo, aceitando o pecado, minimizando-o ou até mesmo justificando-o, na tentativa de resguardar o agressor.

Falando nisso, esse negócio de tratar o pecador como um coitadinho, com todo afeto, atenção e carinho, até parece ser piedoso e bíblico, mas não é. Esperneiem o quanto quiserem, mas as Escrituras não ensinam esse cuidado. Aliás, duvido muito que as pessoas que oferecem essa forma de amparo ajam assim porque estão preocupadas em obedecer à Bíblia. Tampouco acredito que façam isso porque a compaixão de Jesus habita nelas. Na verdade, acho que elas se comportam dessa forma porque, no fundo, não acreditam que o pecado seja um problema tão sério como os pastores dizem. Aí fica fácil ser indulgente e carinhoso. 

Na Bíblia, o cuidado, o afeto, a atenção e o carinho são oferecidos ao pecador somente quando ele está sofrendo demais por causa do arrependimento que sente. Nunca essas coisas lhe são dadas porque ele é fraco (o fato de ele ser fraco só aumenta sua responsabilidade em manter-se longe do perigo), mas sim porque ele está sentindo dores demais em sua alma, dores de culpa impossíveis de serem enfrentadas sem a ajuda dos irmãos. É aí, nesse caso apenas, que o cuidado com o pecador deve ocorrer. Quando a culpa que sente é tão esmagadora e torturante, então devem surgir o apoio e o consolo dos irmãos, a fim de que ele não seja consumido por excessiva tristeza (2Co 2.7).

Já o pecador cuca-fresca e sorridente, o pecador indiferente que diz por aí, com um sorrisinho amarelo, que “pisou na bola”, que deu “uma mancada” ou que o que fez “foi mal”, esse não merece nenhum cuidado. Na verdade, temos de admoestá-lo severamente e, depois, nos afastar indignados e enojados, pedindo ao Senhor que tenha misericórdia dele e de nós todos, livrando-nos dessa forma de apatia tão ímpia e desavergonhada. 

O segundo motivo pelo qual ser pastor neste início de século não é nada fácil é que os crentes acreditam que firmeza e severidade no trato com o pecador rebelde são falta de amor. Achando que quem persiste no pecado é só um crente fraquinho, as pessoas consideram inadmissível que o pastor o admoeste com seriedade ou o leve à disciplina. Se o fizer, imediatamente vão transformar o pastor no bandido da história e, assim, tudo será invertido: o safado que emporcalhou a igreja com sua sem-vergonhice se torna a indefesa vítima do pastor que agora é o líder religioso perverso e sem amor, igualzinho àqueles que condenaram Jesus à morte.

Em meus mais de vinte anos de ministério pastoral já vi de tudo e lidei com quase todo tipo de “cristão”. Conheci diáconos mentirosos, maridos violentos, esposas infiéis, pais viciados, meninos delinquentes, adolescentes ladrões, jovens alcoólatras, velhos golpistas e até um pigmeu antropófago. Eu admoestei todas essas pessoas e, por longo tempo, tentei pacientemente convencê-las a abandonar o pecado. De todas elas, somente o pigmeu antropófago se arrependeu. Hoje ele é vendedor de órgãos (musicais) e dizem até que virou vegetariano.

Brincadeiras à parte, o que quero destacar é que a maioria daquelas pessoas nunca acolheu a palavra pastoral por mais fundamentada que fosse na Bíblia. Mas isso não foi tudo. Se hoje você perguntar para elas porque estão longe da comunhão, a resposta será mais ou menos assim: “Eu estava passando por uma fase muito difícil na minha vida e cometi alguns erros. Então o pastor, em vez de dar o apoio de que eu precisava, foi logo jogando tudo na minha cara e me disciplinou. Aí eu não aguentei e caí de vez. Fiquei tão traumatizado que até hoje passo mal quando ouço falar de igreja!”.

Ah, e os parentes e amigos dessas pessoas vão concordar com esse testemunho. Você duvida? Então pergunte às mães de jovens desviados por que os filhos delas não vão mais à igreja. Oito entre dez dessas mães dirão: “Meu filho era um crente firme. Se não fosse aquele pastor...”.

Prossiga em seu teste. Pergunte sobre pecados realmente graves: “Como seu filho entrou para as drogas? Por que aquela moça abandonou a igreja e foi para a prostituição? Como aquele moço do louvor foi cair de vez no homossexualismo? Por que aquela senhora se envolveu com essa seita?” Ouvindo as respostas você descobrirá que o pastor é o culpado por todas as calamidades da raça humana, como se os “crentes fraquinhos” também não tivessem forças para, sozinhos, destruir suas vidas com as próprias mãos.

Eu já me acostumei tanto a ser responsabilizado pelos descaminhos dos outros que hoje já nem estranho mais. Pelo contrário: quando um pecado aparece na igreja e eu começo meu trabalho de aconselhamento, admoestação e correção, muitas vezes já sei de antemão onde tudo vai acabar. No final, o culpado de tudo serei eu. Rancores e críticas vão surgir contra mim, pessoas irão embora, partidos vão se formar... Numa certa altura eu gritarei sozinho: “Ei, um momento! O criador de todo esse problema não sou eu! Quem começou isso tudo, lembram? Foi aquela ovelha travessa que nunca ouviu os conselhos bíblicos, não foi? Onde ela está agora? Ah, já sei! Ela está em casa atendendo ao telefone de algum irmão da igreja que ligou para lhe dar apoio!”.

Tudo isso tem de mudar. Sim, pois a Bíblia mostra que o pastor pode e deve tratar o pecado com firmeza e severidade quando o arrependimento não vem (At 5.1-11; 1Tm 5.20; Tt 3.10). A Bíblia vai além e diz que, nessa forma de agir, o pastor deve ser acompanhado por toda a igreja (1Co 5.13). Isso não é falta de amor. Na verdade, a Bíblia ensina que essa é uma das formas mais produtivas de mostrar amor por alguém (Pv 27.6).

E tem mais: está na hora de os crentes pararem com essa mania cruel, covarde e injusta de culpar alguém (o pastor ou quem quer que seja) pelos próprios erros ou dos seus queridos, pois, mesmo que alguém tenha dado um empurrãozinho para nos ajudar a cair, diante de Deus a culpa pela nossa queda permanece conosco (Gn 3.17-19). No final de tudo, o fato é que cada um dará contas de si mesmo a Deus (Rm 14.12; 2Co 5.10), tanto o que empurrou (por ser tão maldoso), como o que caiu (por ser não só maldoso, mas também fraco e bobo).

O terceiro motivo pelo qual é difícil ser pastor hoje é que os crentes não conseguem mais enxergar a dimensão comunitária do cristianismo. Isso significa que eles não reconhecem o valor imenso da igreja, não buscam um envolvimento mais profundo com ela e não se preocupam em promover os interesses ou aliviar os pesos da comunidade da fé.

Não sei ao certo quando e como tudo isso começou, mas o fato é que, além desse descaso por parte de muitos crentes, há também uma verdadeira campanha contra o envolvimento do indivíduo na igreja local. Artigos e livros são escritos, palestras são proferidas e aulas são ministradas em seminários afirmando que, nesta época pós-moderna, as pessoas devem viver o cristianismo do seu jeito, de acordo com suas percepções individuais, sem ter de se “sujeitar” a esta ou aquela instituição.

Parece lindo, mas os resultados desse discurso têm sido trágicos. Primeiro, essas ideias têm fornecido a base teórica para a apostasia. Encorajados por esses pensamentos, aqueles crentes irresponsáveis que só iam à igreja de vez em quando e, ainda por cima, “pela orelha”, encontraram uma linda desculpa para sumirem de vez. Agora, eles dizem coisas mais ou menos assim: “Eu sirvo muito melhor a Deus em casa ou indo com minha família a um parque do que frequentando a igreja onde há tanta hipocrisia!”. Puxa! Isso tem de ser piada! Só uma anta com cérebro de minhoca não percebe a hipocrisia dessa frase!

Leiam 1João 4.20 e pensem: será que essa gente que nunca foi capaz de amar o irmão que via em sua frente, que mal sabia o nome dos líderes da igreja, que ia embora correndo dos cultos enquanto o poslúdio ainda estava tocando; essa gente que nunca visitou um irmão doente, que nunca socorreu uma ovelha fraca e nunca, nem com um dedo, ajudou o povo redimido a levar seus fardos, agora serve a Deus, a quem não vê, em casa e no parque? Ora, tenham dó! Se esse tipo de crente reflete o modelo que Jesus quer que sigamos, então eu sou o Bozo! (querido Bozo, caso leia este artigo, quero que saiba que não tenho nada contra você; só usei seu nome aqui por força de expressão).

O ensino de que o cristianismo pode ser vivido plenamente sob a capa da individualidade, por incrível que pareça, produziu também um novo tipo de igreja! É “meio” contraditório, mas tudo começou mais ou menos assim: alguns líderes “cristãos” resolveram alcançar pessoas que foram “feridas” nas igrejas de que participavam e que, por isso, se afastaram, apoiadas na ideia de que podiam ser crentes sozinhas. O suposto objetivo daqueles líderes era reunir esses crentes sem igreja, aceitá-los com todas as suas “fraquezas” e restaurar-lhes a paz e a alegria depois do grande sofrimento e de todas as “injustiças” que os pobrezinhos sofreram nas mãos de pastores e comunidades “sem amor”.

Quando soube desses ministérios, pensei: “Ou esses caras são muito ingênuos ou são muito safados. Será que eles acreditam mesmo que os que abandonaram a igreja são santinhos magoados? A Bíblia diz que os crentes piedosos, que andam mesmo na luz, têm comunhão com os irmãos (1Jo 1.7). Será que esses são exceção? Mas, talvez os criadores desse novo tipo de igreja sejam, na verdade, muito malandros. Talvez queiram um ministério nesses moldes para se livrar da parte amarga do pastorado, para evitar aquele trabalho de correção em que ninguém joga confete, para fugir dos enfrentamentos difíceis e desgastantes que o pastor de verdade tem de encarar (2Tm 4.2). Talvez queiram apenas isto: um ministério fácil, um pastorado cheio de tapinhas nas costas, que só gera elogios e um bom salário.

Qualquer que tenha sido o impulso por trás desses “ministérios”, o fato é que, para alcançar seu público-alvo, eles ofereceram aos que abandonaram a comunhão tudo aquilo com que sempre sonharam: um novo modelo de igreja em que você “vem como está” e, se quiser, permanece como está. Nada de compromissos, nada das chatas admoestações pastorais e, especialmente, nada de disciplina contra o pecado obstinado. Ali, dizem, “o indivíduo é respeitado e valorizado enquanto ente singular, com todas as suas falhas e imperfeições”.

A estratégia deu certo e surgiram igrejas compostas por aquela gente que é só encrenca, que não dá certo em lugar nenhum, que quando vai embora não deixa qualquer saudade. Com isso, o cristianismo foi mais uma vez desfigurado e a consciência já enfraquecida de quem vivia longe da verdade, encontrou mais uma almofada em que se recostar, dizendo: “Ufa!, agora ninguém mais pode dizer que estou desviado!”

Há muitos outros prejuízos que a concepção meramente individualista de espiritualidade gerou. A apostasia e aquelas estranhas igrejas novas são apenas dois exemplos que estão longe de abarcar todos os males dessa forma de pensamento. Infelizmente, não há espaço aqui para mostrar outros problemas oriundos disso. Por isso, vou encerrar. Antes, porém, quero dar um recadinho para esse grupo imenso de apóstatas que vive criticando as igrejas de verdade de onde saíram. Lá vai:

Prezado ente singular com falhas e imperfeições:

Venho por meio destas maltraçadas linhas dizer que sei que você não vê valor nenhum em ser parte de uma igreja e que o deus fanfarrão que você inventou se satisfaz com sua adoração imaginária, feita em casa e no parque. Gostaria, porém, de dizer que você está errado. Pegue a Bíblia (se tiver) e leia (se souber) os seguintes textos: 1Coríntios 12.20-27, Efésios 4.1-16 e Hebreus 10.25. Talvez essas passagens o ajudem a mudar de ideia.

Outra coisa: pode ser que você esteja fora da igreja séria porque ela não aceitou o seu modo de vida e você esteja agora procurando uma igreja “mais amorosa” que o aceite do jeito que você é. O que vou dizer talvez o faça cair da cadeira, mas como você já está acostumado a cair, vou dizer assim mesmo. É o seguinte: a igreja não é o lugar de pecadores, onde os maiores perversos são recebidos de braços abertos. Não! A igreja é o lugar de pecadores arrependidos. É verdade que ela é o refúgio onde os maiores perversos são recebidos, mas ela é também a comunidade onde esses mesmos perversos são convidados a viver uma vida de honra a Cristo e onde deverão permanecer, desde que deixem para trás o chiqueiro em que viviam (1Co 6.9-11).

Por isso, se você é só pecador e teima em permanecer nos seus erros, o último lugar em que você deve estar é a igreja (1Co 5.1,2). Nesse caso, meu apelo é que você viva bem longe do aprisco santo e siga o seu caminho de mentiras, quem sabe dentro de uma igreja de mentira, servindo um deus de mentira, sob a orientação de um pastor de mentira que prega um amor de mentira.

Sem mais,

Pr. Marcos granconat

Quando escrevo coisas desse tipo, as reações das pessoas são as mais diferentes. Há gente que aplaude, dizendo que escrevi tudo o que sempre quiseram dizer; há gente que se preocupa, achando que eu estava passando por alguma crise no ministério; e há gente que me ataca com paus e pedras, acusando-me de ensinar a salvação pela “instituição” igreja (???) ou dizendo que eu escrevi porque estava com raiva do Caio Fábio. Nesse último caso, fiquei especialmente surpreso. Até porque eu sequer pensei no Caio quando escrevi. Pra mim o Caio é um fenômeno. Tudo o que ele ensina faz lembrar o nome dele. É verdade! Sempre que o escuto, eu penso: “Nossa! Se aceitar essa doutrina eu Caio!”.

Desculpem o trocadilho infame e vamos ao que interessa. O problema sobre o qual vou tratar aqui talvez não seja tão grave, mas como tem incomodado com frequência, acho bom apontá-lo – até para dar ao fim desta série um tom mais light. É muito difícil ser pastor hoje porque as pessoas perderam o tato. Isso significa que muitos crentes não têm mais nenhuma noção de coisas que não convêm e adotam comportamentos que, de fato, não são errados quando considerados em si mesmos, mas que mostram a total ausência daquele grau de sensibilidade que os crentes maduros devem ter.

Há muitas coisas que não são propriamente pecado. No entanto, essas mesmas coisas, dependendo das circunstâncias, devem ser evitadas a fim de que a nossa vida reflita a sobriedade, a sensatez e a sabedoria que o Senhor requer do crente. Deixem-me exemplificar: não é errado dar uma sonora gargalhada; não é errado aproximar-se de uma moça para conhecê-la melhor; e também não é errado conversar animadamente sobre o jogo de futebol do domingo. Mas se um homem faz tudo isso durante o velório da esposa...  

Essa noção do que não convém, essa percepção daquilo que, como diziam os antigos, “não fica bem”, essa sensibilidade acerca do que é impróprio para o momento parece ter desaparecido da mente das pessoas, inclusive dos crentes. Até alguns pastores parecem precisar de “Simancol” – aquele velho remédio que todo mundo com um mínimo de bom senso receitava para os mais “avoados”. Conheci um pastor que, quando sabia que alguém estava passando por uma fase de muita angústia, em vez de chorar com os que choram (Rm 12.15), levava um grupo na casa do coitado para fazer uma “pizzada” e animá-lo. Conheci outro que, durante os cultos fúnebres que dirigia, em vez de prantear o irmão falecido como faziam os homens piedosos da Bíblia (At 8.2), ficava inventando piadinhas e fazendo gracejos com a família do morto (acreditem se quiserem) pois, segundo ele, o dia da morte do crente era um dia alegre (!!!???).

Se esse é o tato demonstrado pelos homens de Deus, qual é a situação do povo? Há muito tempo atrás eu tratei o caso de uma moça que havia praticado imoralidade. A igreja soube do problema, mas antes que houvesse disciplina, a moça se arrependeu de verdade, dando ensejo a um processo de restauração e amparo. Até aí, tudo bem. O problema é que, passadas algumas semanas, a moça começou a paquerar um rapaz. Então eu disse a ela: “Olha, não há nada de errado em uma moça crente se aproximar de um moço da igreja, mas a fase pela qual você está passando impõe uma postura diferente, com marcas de cuidado mais intenso. Você precisa adotar neste momento uma postura menos aberta e também uma espécie de solenidade de comportamento, própria de quem acabou de se recuperar de uma queda vergonhosa”. A moça olhou pra mim do mesmo jeito que um pastor neopentecostal olha para um Novo Testamento grego. Percebi que ela não estava entendendo nada e tentei explicar-lhe inutilmente algumas noções de tato, pedindo que ela fosse sensível ao momento e às circunstâncias, evitando a aproximação de rapazes. A moça não contestou. Mais tarde, porém, o pai dela me procurou para dizer que sentia que eu estava “pegando no pé” de sua filha. Outros parentes dela concordaram e, talvez, alguns leitores deste artigo concordem com ele também.

Ao escrever sobre a atitude que os crentes devem nutrir diante dos escrúpulos de outros irmãos, Paulo disse: “Tudo é permitido, mas nem tudo convém” (1Co 10.23). O problema dos crentes de hoje é que eles acolhem a primeira parte do versículo e até a estendem para áreas que o apóstolo jamais teve em mente. Quanto à segunda parte, eles perderam totalmente a noção do que é inconveniente, criando, no final das contas, mais um encargo para o pastor: o de ensinar tato às ovelhas, explicando-lhes noções que elas deviam ter aprendido por si mesmas, através da simples experiência de vida, através da singela sensibilidade aos escrúpulos dos outros e da mais elementar observação da atmosfera que as cerca. Como é difícil ser pastor hoje! 

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria

 

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