Terça, 16 de Janeiro de 2018
   
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Salmo 76 - A Admiração Diante da Vitória

 

Um dos heróis que tive na minha adolescência foi Ayrton Senna, piloto de Fórmula 1. É certo que há um ou outro piloto, na história do automobilismo, que obteve melhores marcas e até mais vitórias que Senna. Entretanto, o que o torna um piloto singular não é ser vitorioso nas melhores condições de carro e de equipe, mas vencer nas mais adversas situações como era o caso de Senna. Isso aconteceu muitas vezes quando ele dividia equipe com Alain Prost e era ocasionalmente tratado como segundo piloto. Isso também ocorreu quando, com pneus gastos e disputando a vitória contra Nigel Mansell em seu carro mais potente, Senna segurou o favorito até o final, depois de perder e retomar à primeira colocação, vencendo a corrida por meio carro de vantagem (Grande Prêmio da Espanha – 1986). Algumas de suas vitórias são históricas e serão contadas por muito tempo por pessoas que, diante de feitos inigualáveis, passaram a admirar um dos melhores pilotos da história do automobilismo. 

Asafe, que nunca assistiu a uma corrida de Formula 1 e cujos únicos carros que conhecia eram os de guerra, também tinha um herói, a quem passou a admirar ainda mais depois de uma vitória marcante. O Salmo 76 é o registro do louvor de quem viu o Senhor agir em favor de um povo e uma cidade que não tinham em si capacidade de deter ou vencer o inimigo. Não é para menos. Asafe demonstra o poderio militar dos inimigos que atacaram Judá com termos fortes e sugestivos como (vv.3,5 e 6, respectivamente) “relâmpagos do arco” (rishfê-qashet), “valentes” (’avvîrê lev – lit. “poderosos de coração”) e “carro [de guerra] e cavalo” (rekev wasûs). Quanto maior é o poder do inimigo, maior é a admiração do salmista ao ver a libertação divina, admiração essa que o leva imediatamente ao louvor (v.11). Essa admiração de Deus e de seus feitos é o resultado de quatro percepções que o salmista tem a partir da libertação.

A primeira percepção é que Deus é imanente. Ser imanente significa que Deus se faz presente na história humana, especialmente junto aos seus servos, interferindo nos acontecimentos e aceitando se relacionar com as pessoas. Por isso, ainda que sejam verdadeiras a transcendência divina (1Rs 8.27) e a incapacidade do homem de entender completamente o Senhor (Jó 5.9; 11.7-9; Is 55.9), o salmista diz (v.1): “Deus se manifestou em Judá” (nôda‘ bîhûdâ ’elohîm). Se a essência de Deus não pode ser vislumbrada pelo homem, Deus se dá a conhecer por meio dos seus atos. Ao mostrar-se, o Senhor demonstrou sua grandeza: “Seu nome é grande em Israel” (beyisra’el gadôl she).

A revelação pessoal de Deus não é um acidente de percurso, mas uma iniciativa pessoal do Senhor, já que, não apenas chamou Israel para ser seu povo pactual, como se introduziu no meio do povo e da sua vida por meio da construção e do significado do tabernáculo (v.2): “Pois está em Salém a sua tenda e em Sião a sua habitação” (wayhî beshalem sukkô ûme‘ônatô betsîyôn). Salém e Sião são duas designações da cidade de Jerusalém, onde um tabernáculo foi erigido por Davi para receber a arca até o tempo em que Salomão construiu o templo.

A segunda percepção é que Deus é poderoso. A não ser quando Israel se tornava alvo da disciplina do Senhor, sua imanência entre os israelitas trazia a eles proteção. Essa é a razão desse salmo. O autor diz que em Jerusalém (cf. v.2) o Senhor protegeu seu povo vencendo um inimigo poderoso, bem armado e letal (v.3): “Ali ele despedaçou os relâmpagos do arco, o escudo, a espada e a batalha” (shammâ shivvar rishfê-qashet magen weherev ûmilhamâ). A libertação, segundo o salmista, foi tão magnífica que sua visão de Deus foi enaltecida pelo conceito da glória (v.4): “Tu és resplandecente e magnífico” (na’ôr ’attâ ’adîr).

A descrição do local do livramento e o poderio desbaratado do inimigo fazem alguns estudiosos crerem que o salmo trata da libertação de Jerusalém do ataque anunciado por Senaqueribe (2Rs 18.19-37), frustrado pela ação de Deus de, em uma noite, fazer perecer 185 mil soldados assírios (2Rs 19.35-37), encerrando sua campanha militar. Essa é uma sugestão que deve ser considerada, já que o salmista fala do grande poderio que foi vencido (vv.5,6): “Os valentes foram despojados. Eles dormiram seu sono e nenhum dos homens fortes pôde contar com seus punhos. Por causa da tua repreensão adormeceram tanto o carro como cavalo, ó Deus de Jacó” (’eshtôlelû ’avvîrê lev namû shenatam welo’-mats’û kol-’anshê-hayil yedêhem migga‘arateka ’elohê ya‘aqov nirdam werekev wasûs). Leve-se em conta que esse sono e a ação de dormir são eufemismos para a morte dos soldados, dos charreteiros (os carros aqui citados são uma figura para se referir aos seus condutores) e das suas montarias. Não é sem razão a admiração do salmista, visto o expresso e revelado poder divino na vitória.

A terceira é que Deus é temível. Asafe declara exatamente isso (v.7): “Tu és temível” (’attâ nôra’). Esse fato está assentado sobre outra qualidade do Senhor que é a sua justiça. Assim, a razão para ser temido pelos homens é sua ação de castigar o mal (v.8a): “Dos céus anunciastes tua sentença” (mishammayim hishma‘ta dîn). O resultado prático de tal juízo torna Deus temível diante dos homens, pois seu julgamento não é apenas uma declaração, mas a concretização de ações poderosas. Sua sentença vem com força e efeito a fim de promover juízo. Desse modo, Deus é tanto o juiz que dá o veredito contra o mal como o oficial de justiça que faz cumprir a sua decisão.

Nesse sentido, a atuação de Deus é dupla, pois ele, em primeiro lugar, traz o direito que alivia os oprimidos (vv.8b,9): “A Terra se aterrorizou e se acalmou ao se levantar Deus para executar o juízo e para libertar todos os aflitos da Terra” (’erets yor’â weshaqatâ beqûm-lammishpat ’elohîm lehôshîa‘ kol-‘anwê-’erets). Em segundo lugar, ele destrona os perversos da sua posição de arrogância e maldade (v.12): “Ele suprime o fôlego dos príncipes” (yivtsor rûah negîdîm). A ideia formada por essa frase é que o Senhor os impede de encher o peito orgulhosamente, abatendo-os e humilhando-os. A conclusão é a mesma do início do v.7, acrescida da indicação de que ninguém há que possa escapar dessa realidade: “Temível és aos reis da Terra” (nôra’ lemalkê-’arets).

A última percepção é a de que Deus é louvável. A admiração do salmista, por fim, repousa sobre a dignidade do Deus de toda a Terra, a qual é merecedora do louvor de seus servos. O curiosos é que ele não é louvável apenas por trazer libertação e paz aos seus, mas por trazer também juízo aos ímpios (v.10): “Pois a ira do homem te exalta” (kî-hamat ’adam tôdeka). À primeira vista, essa frase é confusa. Entretanto, esse é um modo de exaltar uma ação por meio do seu efeito. Nesse contexto, no qual Deus se levanta contra os inimigos de Judá, o que produziu a ira desses homens foi a atuação punitiva do Senhor sobre eles. Assim, seu nome é exaltado quando ele julga o mal e pune os pecadores. Parece ser a mesma ideia de Paulo de que Deus é revelado e glorificado tanto nos “vasos de misericórdia” como nos “vasos de ira” (Rm 9.22-22). Por isso, o salmista completa: “Tu te cercas dos sobreviventes da ira” (she’erît hemot tahgor), possivelmente transmitindo o conceito de que Deus é glorificado até nas lembranças e nos relatos contados pelos que viram seu poderio ruir diante do poder do soberano Senhor.

A ira dos inimigos punidos também aponta para o louvor do povo que busca a Deus pela demonstração da fidelidade divina (v.11): “Façam votos ao Senhor, vosso Deus, e cumpram” (nidarû weshallemû layhwâ ’elohêkem). Em situações de calamidade e de iminente destruição, era comum os homens fazerem votos a Deus pedindo libertação. O que o salmista ordena é que tais votos sejam pagos em atitude de fidelidade. Assim, o temor a Deus mostra seu lado reverente na adoração dos servos que admiram seu Senhor e o louvam com atitudes práticas: “Tragam ofertas para aquele que é temível, todos [vocês] que estão à sua volta” (kol-sevîvayw yôvîlû shay lannôra’).

Deus é, sim, admirável e digno de todo louvor, temor, respeito e submissão. Por que será, então, que as pessoas têm mais disposição de admirar e exaltar os feitos dos homens que exaltar aquele que lhes deu tais habilidades e cujo poder e glória são incomparáveis? Talvez seja porque, até mesmo naqueles que já foram perdoados e transformados pela graça de Deus, haja uma pontinha – maior ou menor – da mesma soberba que é alvo do juízo divino. Tal soberba tende a valorizar o homem em detrimento de Deus para que o próprio homem receba um pouquinho da glória que pertence apenas ao Criador soberano. Por isso mesmo, o povo de Deus deve notar essa raiz da antiga erva daninha e erradicá-la totalmente. Sendo assim, que nossa maior admiração seja constantemente direcionada àquele que faz o que ninguém pode igualar e que é tudo sobre todos, cumprindo a ordem dada por meio do profeta: “Mas o que se gloriar, glorie-se nisto: em me conhecer e saber que eu sou o Senhor e faço misericórdia, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o Senhor” (Jr 9.24).

Pr. Thomas Tronco

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