Terça, 16 de Janeiro de 2018
   
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Salmo 77 - A Questão do ‘Ponto de Vista’

 

Um dia desses, ouvi no rádio do carro um homem dito “religioso” pedindo altas quantias de dinheiro às pessoas. Fiquei prestando atenção a fim de saber como ele manipularia a Palavra de Deus em seu favor, mas fiquei muito surpreso ao ver que ele nem sequer a citou. Em lugar disso, usou como incentivo um suposto relato de uma mulher que lhe ofertou 3 mil reais e que, depois, consultando a conta corrente, percebeu que havia 10 mil reais a mais do que deveria. Quando contei isso a um amigo, achei interessante sua observação. Ele disse: “E a mulher sacou o dinheiro que não era dela, ?”. 

Depois de rir movido por essa observação, percebi como era fácil ver a mesma situação sob ópticas diferentes. Para algumas pessoas, o relato do erro bancário que gerou o acréscimo indevido na conta da mulher se tratava de uma suposta “bênção” pela contribuição que ela fez ao pastor pedinte. Contudo, outro ponto de vista era o de que tal relato revelaria a desonestidade da mulher ao se apossar de um dinheiro que não lhe pertencia, afastando qualquer possibilidade de isso ser considerado bênção de Deus. O fato é que quase todos os assuntos são vistos sob pontos de vista diferentes – uns certos, outros errados.

O Salmo 77 também apresenta dois pontos de vista sobre uma situação. A diferença é que ambos veem da mesma pessoa, o salmista Asafe. Trata-se de uma ocasião difícil para o escritor. Ele atravessa um momento que o faz clamar (v.1): “Dirijo minha voz a Deus e clamo. Dirijo minha voz a Deus a fim de que atente para mim” (qôlî ’el-’elohîm we’ets‘aqâ qôlî ’el-’elohîm weha’azîn ’elay). Apesar de, até então, parecer uma atividade normal aos servos de Deus, sua angústia o leva a uma oração incessante na qual ele não encontra nem a solução para o problema e nem o consolo para sua alma (v.2): “Eu busco o Senhor no dia da minha aflição. Minhas mãos ficam estendidas incansavelmente durante a noite. Eu me recuso a ser consolado” (beyôm tsaratî ’adonay darashtî yadî laylâ niggerâ welo’ tafûr me’anâ hinnahem nafshî). Estender suas mãos em oração e negar o consolo apontam para uma aflição severa que ainda não encontrou seu fim. Seguramente, o salmo foi escrito em um momento de dor.

Assim, o salmista clama ao Senhor pela resolução de um problema grave – que não é citado no texto – e para o qual, até então, não havia tido a desejada resposta. Diante isso, o salmista passa por uma crise de fé. Ele se torna, em dado momento, pessimista e desesperançado. Entretanto, parece vivenciar uma virada marcante – não dos acontecimentos em si, mas do seu modo de ver a situação. É como ocorreu no Salmo 73 em que, apesar de a injustiça e a prosperidade dos ímpios continuarem, o salmista, que estava quase abandonando a fé e a atitude correta diante de Deus, passa por uma virada ao meditar em Deus (Sl 73.17) e volta à sua condição original de servo esperançoso. Por isso, o salmista já tratado pelo Senhor e de volta à postura correta, escreve o Salmo 77 para relatar seus dois pontos de vista sobre a dor que atravessa e enaltecer a sua confiança em Deus e sua esperança final.

O primeiro ponto de vista é o de quem focaliza o sofrimento em si. Nesse caso, o salmista via o bem-estar pessoal como seu bem mais precioso. Ao faltarem-lhe a paz e o conforto, o resultado foi ver seu mundo desabar. Ao olhar para sua vida sob essa lente pessimista, a primeira consequência foi não encontrar conforto em Deus (v.3): “Eu me lembro de Deus e gemo. Eu medito e meu espírito desfalece” (’ezkerâ ’elohîm we’ehemayâ ’asîhâ wetit‘attef rûhî). O fato de Deus lhe parecer motivo de sofrimento e não de consolo se deve à sua interpretação da situação, na qual Deus lhe estava sendo contrário (v.7): “É para sempre que o Senhor rejeita? E não volta ele a se agradar outra vez?” (hal‘ôlamîm yiznah ’adonay welo’-yosîf lirtsôt ‘ôd). Parece que, sob a óptica do sofrimento, o escritor pensa que Deus só deveria favorecer os seus e nunca lhes permitir sofrerem. Eis a razão pela qual Deus não lhe serve de conforto e esperança, mas de desgosto e desânimo.

O salmista também busca uma explicação para o que lhe sobreveio. Pensamentos como “o Senhor está trabalhando em minha vida de uma maneira misteriosa para o meu bem” nem sequer passaram pela sua mente. Em lugar disso, ele empreende uma busca acurada por respostas para o sofrimento que atravessa (v.6b): “Com meu coração eu medito e meu espírito avalia” (‘im-levabî ’asîhâ wayhaffes rûhî). Como nem sempre é fácil entender os planos e a atuação de Deus, algumas respostas às quais o salmista chega são erradas.

Ele cogita que Deus deixou de ser fiel (v.8): “Cessou definitivamente a sua lealdade? Chegou ao fim a promessa [feita para durar] de geração em geração?” (he’afez lanetsah hasdô gamar ’omer ledor wador). Ele também concluiu que Deus não é bondoso como todos pensam (v.9): “Deus se esqueceu de conceder graça? Ou será que ele, ao se irar, fechou a sua compaixão?” (hashkah hannôt ’el ’im-qafats be’af rahamayw). “Fechar sua compaixão”, aqui, traz a ideia de obstruir a passagem em que transita a misericórdia divina. Buscando ele mesmo responder a essas perguntas, o salmista chega a pensar que Deus é o culpado por sua dor, sendo repreensível por se tornar inativo diante do sofrimento (v.10): “Eu concluí que meu sofrimento é este: a mudança da destra do Altíssimo” (wa’omar hallôtî hî’ shenôt yemîn ‘eleyôn). Todas essas suposições estão erradas e são fruto de uma mente que acredita que ser feliz e viver bem são os objetivos máximos do homem nesse mundo, de modo que Deus teria obrigação de promovê-los. Não é preciso dizer que tal mentalidade é a porta para a apostasia.

Apesar do pessimismo do primeiro enfoque, o segundo ponto de vista é o de quem focaliza o próprio Deus. Sem explicar bem o porquê, o salmista passa a olhar para Deus com confiança gerada a partir das lembranças do glorioso passado de Israel como beneficiário da mão poderosa e protetora do Senhor (v.11): “Lembro-me dos feitos do Senhor, pois me lembro dos teus prodígios do passado” (’azkîr ma‘allê-yah kî-’ezkerâ miqqedem pil’eka). Não significa que ele recordou algo esquecido, mas de que tais verdades, vistas agora sob a óptica correta, são a razão de outra postura de sua parte. Ele simplesmente apontou seus olhos para a história do seu povo e meditou sobre o caráter de Deus expresso nas suas ações (v.12): “Pois eu refleti em todos os teus feitos e meditei em todas as suas ações” (wehagîtî bekol-pa‘oleka ûba‘alîlôteyka ’ashîhâ). Interessante notar que a mesma ação de “meditar” pode levar alguém para longe ou para perto de Deus dependendo do ponto de vista (comparar vv.3,6 com v.11).

A consequência imediata dessa nova disposição mental, ajustada com a realidade dos servos de Deus, é a convicção do tipo de atuação que vem do Senhor (v.13): “Ó Deus, na santidade está o teu caminho” (’elohîm baqqodesh darkeka). Desse modo, nenhum parâmetro humano pode julgar as ações de Deus. A separação de Deus do mundo e sua distinção de toda a criação fazem com que nosso modo egoísta de pensar, nosso procedimento muitas vezes infiel e nossa falta de misericórdia estejam ausentes no Deus santo. Por isso, nem o quadro imaginado pelos homens com respeito aos falsos deuses encontra paralelos no Senhor: “Que deus é grande como [nosso] Deus?” (mî-’el gadôl ke’lohîm).

Muitos são os feitos de Deus, na história israelita, em que se pode refletir sobre seu poder e caráter. Entretanto, o salmista parece retroceder seu pensamento aos tempos de Israel no Egito, ao narrar a libertação do povo com a citação não apenas de Jacó, mas também de José (v.15). Essa percepção se confirma quando, nos versículos seguintes, o salmista cita a travessia do povo pelo mar mediante o grande poder de Deus (vv.16-19). Ele encerra o salmo com o resultado final de uma aflição para qual, sob o olhar meramente humano, não havia solução (v.20): “Tu guiaste o teu povo como rebanho pelas mãos de Moisés e de Arão” (nahîta katso’n ‘ammeka beyad-mosheh we’aharon). É muito significativo ele olhar para uma solução inesperada que veio no tempo certo sob as mãos do Onipotente, quando é justamente isso que ele precisa no momento dificílimo que atravessa. O significado dessa menção é que, sob a óptica de quem conhece o caráter, a sabedoria, o poder e o amor de Deus, ele mantém sua esperança no Senhor e a correta condição de servo adorador.

Que necessária mensagem para as pessoas de hoje! O crescimento do egoísmo e do utilitarismo dentro das igrejas tem tornado a busca de Deus uma busca meramente de prosperidade, conforto e felicidade. Quando alguém não encontra tais coisas, muda de igreja a fim de encontrar o local, o pastor ou o ritual que possam lhe conceder as ditas “bênçãos”. Se nada resolve, o que surge são o sentimento de revolta contra Deus e o subsequente afastamento de tudo que está relacionado ao verdadeiro cristianismo. No final das contas, vivemos dias de superstições pseudoevangélicas que servem apenas para dar vazão à cobiça humana, conforme preveniu o apóstolo: “Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos” (2Tm 4.3). Que a verdadeira igreja do Senhor abandone o ponto de vista do egoísmo e se apegue com todas as forças à visão da glória do Deus verdadeiro!

Pr. Thomas Tronco

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