Quinta, 21 de Junho de 2018
   
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Salmo 78 - As Lições do Passado que Educam no Presente

Não sou de guardar na memória muitos provérbios populares, mas de um deles, ainda que o tempo passe, nunca me esqueço:  “O homem inteligente aprende com seus erros; o homem sábio aprende com os erros dos outros”. Não sei quem é o autor desses dizeres, mas acho-os geniais. Ensinam que a observação do presente e principalmente do passado, como seus erros e acertos, pode impedir que alguém sofra consequências de más decisões simplesmente porque viu o que aconteceu com outros quando assim agiram. Por isso, História da Igreja é tão importante para a igreja moderna.

Do mesmo modo, as Escrituras também fornecem muitas lições preciosas que podem guiar os servos de Deus no presente, livrando-os das armadilhas que lhes estão preparadas, tanto pelos inimigos do Senhor como pelo próprio pecado pessoal. O Salmo 78 é um exemplo do uso dessas lições a fim de educar as novas gerações para que evitem os erros do passado e prossigam rumo ao futuro munidos do desejo e da sabedoria que levam à comunhão de Deus e ao seu serviço. Assim, Asafe declara, logo de início, seu propósito (vv.3,4): “O que nós ouvimos e aprendemos e o que nossos pais nos contaram não esconderemos dos seus filhos. Anunciaremos à próxima geração os louvores do Senhor, o seu poder e os seus feitos maravilhosos” (’asher shama‘nû wanneda‘em wa’avôtênû sifferû-lanû lo’ nekahed mivvenêhem ledôr ’aharôn mesafferîm tehillôt yehwâ we‘ezûzô wenifle’ôtayw ’asher ‘asâ). Seguindo esse propósito, o salmista aponta seis fontes de aprendizado para que o povo de Deus aja com sabedoria e honre ao seu Senhor.

A primeira fonte de aprendizado são as instruções de Deus. O salmista, falando das ações divinas entre o povo de Israel, diz (v.5): “Ele estabeleceu uma norma em Jacó e promulgou uma lei em Israel” (wayyaqem ‘edût beya‘aqov wetôrâ wam beyisra’el). A “lei” (tôrâ), cuja palavra hebraica pode ser também traduzida como “instrução”, além de revelar o caráter de Deus, servia para tornar Israel – por meio da obediência – o povo reto que serviria seu Senhor. Por isso, Deus disse a Abraão: “Porque eu o escolhi para que ordene a seus filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guardem o caminho do Senhor e pratiquem a justiça e o juízo” (Gn 18.19). Nesse mesmo sentido, o salmista continua sua colocação reafirmando a necessidade, conforme a própria instrução divina (Dt 6.7; 11.19), de se transmitir às gerações posteriores as palavras e a revelação de Deus sobre ele mesmo e sobre seus desejos: “Ele ordenou aos nossos pais que ensinassem aos seus filhos” (tsiwwâ ’et-’avôtênû lehôdî‘am livnêhem). O objetivo é produzir uma geração que conheça o temor e a comunhão do Senhor (v.7): “A fim de que coloquem em Deus a sua confiança e não se esqueçam dos feitos de Deus, mas guardem seus mandamentos” (weyasîmû be’lôhîm kislam welo’ yishkehû ma‘allê-’el ûmitsôtayw yintsorû).

A segunda fonte de aprendizado são os erros dos antepassados. A instrução divina deveria produzir obediência, mas não foi o que aconteceu. Em lugar disso, o salmista cita os tristes fatos da história da geração que deixou o Egito em meio aos grandes feitos de Deus (vv.10): “Eles não guardaram a aliança de Deus e se recusaram a andar em sua lei” (lo’ shomrû berît ’elohîm ûbetôratô me’anû laleket). A razão disso, apesar de parecer absurdo diante de tudo que viram, foi que (v.11) “eles se esqueceram dos seus feitos e dos seus prodígios os quais [Deus] lhes mostrou” (wayyishkehû ‘alîlôtayw wenifle’ôtayw ’asher her’am). Esse ato de “esquecer” não se refere a um tipo de amnésia, mas sim, desvalorizar o que aconteceu – que não foi pouco (vv.12-16) – quando tais lembranças deveriam mudar seu modo de viver e de se relacionar com Deus. Em outras palavras, eles escolheram ser rebeldes diante do Senhor. Por isso, ainda que Deus tenha feito coisas incomparáveis em favor dos israelitas (v.17), “eles continuaram pecando contra ele, desafiando o Altíssimo no deserto.” (wayyôsîfû ‘ôd lahato’-lô lamrôt ‘elyôn batsîyâ). Essa rebelião é descrita pelo salmista por meio de colocações irreverentes e perguntas desafiadoras dos israelitas (vv.18-20). O erro deles foi tão gritante, sem falar da consequência na forma da ira divina (v.21), que qualquer um que olhasse para esse momento triste da história poderia aprender como não agir e, também, ser incentivado a confiar em Deus, fazendo o oposto do que fez aquela geração perversa (v.22).

A terceira fonte é a provisão divina. Apesar da ira contra o pecado, o Senhor não abandonou o povo à sua própria sorte no deserto infértil. Sua resposta ao desafio desrespeitoso da parte dos israelitas (v.20), ao contrário do que se poderia esperar, foi supri-los com o alimento de que tanto necessitavam (vv.23,24): “Ele deu ordem às mais altas nuvens e abriu as portas dos céus. Assim, fez chover sobre eles o maná para que comessem e lhes deu um cereal celestial” (waytsan shehaquîm mimma‘al wedaltê shamayim patah wayyamter ‘alêhem man le’ekol ûdegan-shamayim natan lamô). Os cereais são produzidos na terra, mas o que Deus lhes deu no meio do deserto veio dos céus, miraculosamente colhido das nuvens. Incrivelmente, nem isso fez com que Israel voltasse seu coração para quem lhes supria de pão, de carne e de toda provisão, proteção e amor que jamais pudessem imaginar (vv.25-31). Apesar do mau exemplo desses israelitas, essa lição ainda testifica da prontidão divina em suprir seus servos.

A quarta é a disciplina do Senhor. Apesar de tudo que Deus fez, os israelitas (v.32) “pecaram novamente e não creram nos seus prodígios” (hate’û-‘ôd welo’-he’emînû benifle’ôtayw). Por causa do caráter de Deus, o pecado gerou punição (v.33). Contudo, essa punição não vinha sobre eles para extingui-los e extirpá-los da face da Terra. Vinha em tal medida e forma que é possível perceber o intuito divino de disciplinar o povo para que se voltasse a ele. O intento era alcançado e Israel, ao sofrer o castigo, demonstrava arrependimento (v.34): “Quando [o Senhor] os abateu, eles o buscaram, arrependeram-se e procuraram prontamente a Deus” (’im-haragam ûderashûhû weshavû weshiharû-’el). Se antes eles “se esqueceram” dos feitos benéficos do Senhor, depois da disciplina (v.35), “eles se lembraram que Deus é a sua rocha e que o Deus altíssimo é o seu resgatador” (wayyizkerû kî-’elohîm tsûram we’el ‘elyôn go’alam). Infelizmente, o salmista – e também a história de Israel no Antigo Testamento – mostra que esse arrependimento, quando surgia, era superficial e imperfeito (vv.36,37). Não obstante, o Senhor não os destruiu por ser um Deus misericordioso (v.38) “Ele é compassivo, perdoa a iniquidade e não destrói” (wehû’ rahûm yekaffer ‘aôn welo’-yashhît). Assim, é possível aprender a temer e a amar o Senhor ao olhar para sua disciplina e para o modo como ele dosa a justiça e a misericórdia no trato com os seus (vv.40-53).

A quinta fonte de aprendizado é a soberania de Deus. A dura jornada no deserto terminou quando Israel se viu às margens do Jordão (v.54) com a missão de invadir a terra da promessa e conquistá-la. Porém, as nações que deveriam ser desalojadas eram mais poderosas que Israel e possuíam cidades com fortes muralhas (Dt 9.1,2). Mesmo assim, o Senhor prometeu que lhes daria aquela terra pelo seu próprio poder (Dt 9.3). O salmista confirma o sucesso da ação divina de vencer os inimigos e dar a terra a Israel (v.55): “Ele expulsou os povos de diante deles, sorteou as porções da herança e fez as tribos de Israel habitarem nas suas casas” (waygaresh miffenêhem gôyim wayyaffîlem behevel nahalâ wayyashken be’aholêhem shivtê yisra’el). O mesmo poder se fez ver, já na terra, de diversas maneiras, seja trazendo inimigos contra os pecadores como punição (vv.60-64 cf. vv.56-59), seja livrando-os da completa ruína (vv.65,66). O fato é que se pode aprender que o Senhor Deus guia toda a história, todas as nações, todas as guerras e todos os poderes com sua palavra irresistível.

Por fim, a sexta fonte de aprendizado são os decretos divinos. O salmista ressalta que o Senhor tem planos que não se submetem às circunstâncias. Por isso, apesar de José ter sido destacado entre seus irmãos pela sua fidelidade e procedimento na terra do Egito, seus descendentes – entre eles, a tribo de Efraim – não foram escolhidos para abrigarem nem o local do templo do Senhor (vv.67-69 – Sião, ou Jerusalém, fica no território benjamita, anexado a Judá na divisão dos reinos em 931 a.C.), nem a casa real de Israel (vv.70-72). Em seu lugar, Deus decretou que Judá fosse a tribo detentora de tais privilégios, decreto este que fora feito muito tempo antes, quando Jacó abençoou seus filhos antes de morrer: “O cetro não se arredará de Judá, nem o bastão de entre seus pés” (Gn 49.10a). Nada pode mudar os projetos de Deus, nem impedi-lo de cumprir o que prometeu, nem mesmo a improbabilidade de um simples pastor de ovelhas como Davi vir a ser rei de uma nação. Essa é, de fato, uma grande lição vinda do estudo bíblico, não só sobre os planos e decretos do Senhor soberano, mas também sobre sua capacidade de realizá-los e sua fidelidade em cumpri-los.

Ao que tudo indica, o escritor escreveu esse salmo para produzir no povo arrependimento, temor, obediência e fidelidade a Deus. Talvez, a condição espiritual dos leitores dos seus dias não fosse a melhor e, por isso, mais do que nunca, era preciso voltar os olhos para as Escrituras e aprender lições que o passado conservou com a finalidade de produzir correção e sabedoria – valores fundamentais para os servos de Deus. Arrisco-me a dizer que a necessidade dos “nossos dias” não é diferente. Nós também precisamos olhar para a Palavra de Deus e aprender com seus tesouros. Afinal, “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (1Tm 3.16).

Pr. Thomas Tronco

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