Domingo, 21 de Outubro de 2018
   
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Salmo 79 - Providências Necessárias Depois do Choro

alguns anos ouvi a gravação de uma fita cassete que me fez retornar ao passado. Ela foi gravada na casa do meu avô paterno enquanto eu e meu primo brincávamos com um jogo que possuía um tabuleiro com pequenas bolas. Além das conversas entre as pessoas que estavam na sala, a gravação registrou o choro crescente da minha irmã, que ainda era uma pequena criança, dizendo: “Eu quero a bolinha na mão!”. O que ela queria era pegar uma das bolinhas do jogo. Em certo ponto da gravação, vozes começaram a alertá-la sobre a iminente disciplina, caso continuasse com o choro mantido por motivos errados. Infelizmente, os alertas não resolveram. A certa altura, ouve-se uma mudança na intensidade do choro, demonstrando que ela foi mesmo disciplinada. Nesse momento, minha mãe disse à minha irmã – com um sotaque interiorano muito engraçado: “Agora você chora, porque agora você merece!”. O que ela quis dizer foi que as reclamações indevidas e a desobediência irredutível encontraram a devida e anunciada punição, de modo que o choro passou a ser razoável. Não sei se minha irmã se lembra dos fatos daquele dia, mas, até hoje, ela – e a família – se diverte com aquela gravação.

Uma disciplina que, quando recordada, não produz diversão e risos foi a punição de Judá pelo exército babilônico de Nabucodonosor (587 a.C.). Se o Salmo 78 foi uma tentativa de, por meio das lições do passado, levar o povo ao arrependimento e à verdadeira devoção ao Senhor “antes” que fosse disciplinado, o Salmo 79 foi escrito “depois” que a dura punição se abateu sobre Jerusalém e sobre o povo que se portou de modo irreverente e iníquo diante de Deus.  Porém, além do lamento natural em um momento como esse – nessa ocasião, Jeremias escreveu o livro de Lamentações –, agora era hora de aprender, ainda que tardiamente, a lição que Deus queria ensinar e trabalhar pela restauração. Só que esse “trabalhar” não era algo a ser feito pelos “braços” dos israelitas, mas pelos seus “joelhos” – modo figurado de dizer que eles deveriam se humilhar diante de Deus e buscá-lo com os corações arrependidos e desejosos de cumprir sua santa vontade. Nesse sentido é que o salmista indica três providências que Israel deveria tomar para ser restaurado pelo Senhor, tanto espiritual como politicamente.

A primeira providência é saber interpretar as consequências do pecado (vv.1-4). É muito comum, diante de circunstâncias difíceis, ver as pessoas assumindo atitudes diferentes. Em alguns casos, vemos gente que sofre agir como se nada estivesse acontecendo. Não me refiro à atitude de não se abater diante das dificuldades por confiar no Senhor, mas de, em um tipo infantil de otimismo, praticamente irresponsável, negar o sofrimento em termos mais ou menos assim: “Eu não aceito essa situação e, a partir de agora, já sou vencedor”. Em outros casos, não importa o tamanho do problema, para algumas pessoas a vida simplesmente acabou e, por ela, a morte pode levá-la. Ambas as posições ignoram a verdade falhando em analisar os fatos que, no caso do Salmo 79 – e de muita gente –, tratava-se de consequências do pecado contra o qual Deus se irou (v.5).

Assim, o salmista descreve sua verdadeira situação (v.1): “Ó Deus, as nações entraram na tua herança, profanaram o teu santo templo e transformaram Jerusalém em ruínas” (’elohîm ba’û gôyim benahalateka timme’û ’et-hêkal qodsheka samû ’et-yerûshalaim le‘îyîm). Além da invasão militar, houve crueldade de tal maneira que só era comum em casos de vingança contra um povo que foi rebelde ou que agiu como um inimigo odioso. Tal crueldade se manifestou na desonra dos corpos dos israelitas mortos – algo que, na visão da época, constituía um dos maiores temores dos guerreiros (v.2): “Eles deram os cadáveres dos teus servos como comida às aves do céu e a carne dos teus fiéis aos animais da terra” (notnû ’et-nivlat ‘avadeyka ma’akal le‘ôf hashamayim besar hasîdeyka lehaytô-’arets). Em outras palavras, eles não receberam sepultura (v.3) e tiveram seus corpos desonrados ao apodrecer no tempo e ao ser devorado por bichos, tornando-os motivo de escárnio para quem o ouvisse (v.4). A realidade era dura de encarar, mas somente por meio da verdade dos fatos e da correta relação com sua causa (v.5) é que viria a restauração futura para a desventura presente.

A segunda providência é buscar a Deus para o perdão e a restauração (vv.5-12). O reconhecimento da ira de Deus na forma da severa punição (v.5) leva o salmista a pedir perdão pelos pecados da nação (v.8): “Não evoque contra nós as iniquidades dos antepassados” (’al-tizkar-lanû ‘aônot ri’shonîm). O salmista não está culpando as gerações anteriores e isentando a geração presente. Ele provavelmente recorda a aliança do Senhor com Israel no Sinai – que previa esse tipo de punição pela quebra do pacto – e dos prolongados avisos do Senhor por meio dos profetas, aos quais tanto as gerações passadas como a presente haviam ignorado. Em lugar disso, o salmista busca a misericórdia de Deus: “Que nos alcance logo a tua compaixão, pois estamos muito abatidos” (maher yeqaddemûnû rahameyka kî dallônû me’od). Se até aqui não houve clareza quanto à contrição de coração, o salmista pede claramente (v.9): “Perdoa os nossos pecados por amor ao teu nome” (kaffer ‘al-hatto’tênû lema‘an shemeka).

Junto com o arrependimento que levou a um pedido de perdão, o salmista pede outras coisas (v.9): “Socorra-nos” (‘ozrenû) e “livra-nos” (hatsîlenû). Ao que tudo indica, o salmista vê bem a relação entre o arrependimento e perdão de pecados com a restauração do pecador e seu retorno à condição de servo abençoado pelo Senhor. Por isso, o salmista clama confiantemente pela punição dos inimigos que destruíram Jerusalém e desonraram o povo do Senhor (vv.6,7,11,12) e, também, pela vindicação do próprio nome de Deus, cujo povo servia de testemunho do seu amor e poder (v.10).

A última providência é voltar à constância da submissão e da adoração (v.13). Nenhum arrependimento é verdadeiro se não vislumbra o retorno à fidelidade. Nenhuma restauração é completa se não há restauração no âmbito espiritual. Por isso, o escritor do Salmo 79, antes de encerrar o texto, se refere ao povo de Israel (v.13) como “teu povo e rebanho do teu pasto” (‘ammeka wetso’n mar‘îteka). Ao dizer “teu povo”, a figura divina que é produzida na mente dos leitores é a de que Deus é o rei da nação, sendo assim seu Senhor e normatizador do modo de vida e de culto. Ao dizer “teu rebanho”, firma-se a ideia da dependência que os israelitas tinham diante do seu protetor e provedor. Não há espaço nesse quadro para a manutenção e continuidade da rebeldia que lhes trouxe punição. Isso quer dizer que, depois do arrependimento e da restauração, o salmista vislumbra o povo de Israel de volta ao lugar de onde nunca deveria ter saído: sob o comando pleno do Altíssimo.

Como consequência de tal retorno, ele também propõe a efetivação da função de Israel que, entre outras coisas, deveria adorar a Deus e ser razão, até entre outros povos, de revelação do caráter divino e da produção de temor ante o soberano: “Exaltaremos a ti para sempre, proclamaremos teu louvor de geração em geração” (nodeh leka le‘ôlam ledor wador nesaffer tehillateka). Adoração e proclamação são as duas atividades que o salmista atribui a Israel – em circunstâncias ideais, obviamente – a serem realizadas “para sempre”. Sendo assim, tal observação não age exatamente como profecia, mas como um chamado aos israelitas para que, arrependidos, adorem a Deus continuamente com devoção e temor.

A nação israelita, de fato, aprendeu com as lições do passado – pelo menos nunca mais adorou outros deuses – e buscou a misericórdia de Deus. Foi restaurada à sua terra no ano 538 a.C., um ano depois de a Babilônia cair diante do poderio medo-persa e do controle de Ciro. Porém, Israel voltou a abandonar Deus e deixou de obedecê-lo ao negligenciar, nos dias de Ageu e Zacarias, a reconstrução do templo do Senhor, ao se unir, nos dias de Esdras, às mulheres moabitas, ao promover, nos dias de Neemias, mais injustiça social e descaso com a lei da aliança e, nos dias de Malaquias, promover um culto odioso a Deus pelo desprezo que tinha para com as ofertas, com a pureza de coração e com a devoção verdadeira.

Isso significa que as providências tomadas pelo salmista, no Salmo 79, devem ser constantes. Afinal, o pecado ainda acomete todos os servos de Deus, os quais aguardam o tempo em que terão seus corpos glorificados e não mais conviverão com as consequências da queda. Até lá, saber reconhecer os fatores que apontam os erros, buscar a reconciliação e comunhão com o Senhor por meio do perdão que há na obra de Jesus Cristo e entrar em um sério processo de santificação, com a finalidade de ser constantes na adoração, pureza e testemunho cristão, são as obrigações diárias de todos os que foram redimidos pela graça divina. No final de tudo, na presença do nosso Senhor e mestre, minha mãe, com um grande sorriso no rosto, poderá dizer – talvez até com aquele sotaque engraçado: “Agora você ri, porque agora você não mais padece!”.

Pr. Thomas Tronco

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