Quinta, 21 de Junho de 2018
   
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Salmo 81 - A Falsa Gratidão a Deus

 

Todas as guerras têm em si a capacidade de mostrar as melhores qualidades dos homens e também as piores. A Segunda Guerra Mundial não foi diferente. No intuito de fazer o que fosse necessário para vencer a guerra do Pacífico, os Estados Unidos e o Japão lançaram mão de artifícios pelos quais, no futuro, vieram a pedir perdão mútuo. Entre essas táticas – “não muito honradas” –, o Japão tentou estabelecer sua hegemonia no Pacífico destruindo a frota americana ancorada em Pearl Harbour, o que aconteceu em 7 de dezembro de 1941. A fim de garantir a surpresa do ataque, o embaixador japonês nos Estados Unidos, o almirante Kichisaburo Nomura, negociou a paz até pouco tempo antes do ataque, tranquilizando os americanos quanto à possibilidade de uma guerra iminente. A falsidade dessa demonstração fez com que o ataque não provocado à frota americana no Havaí, sem que houvesse uma declaração formal de guerra, fosse considerado um ato traiçoeiro tremendamente repreensível – vale lembrar que o final dessa guerra não foi mais nobre que seu início. Como resposta ao ataque a Pearl Harbour, uma ação militar retaliatória foi ordenada pelo presidente Roosevelt. Nas horas que a antecederam, o tenente-coronel James Harold Doolittle amarrou a cinco bombas as “medalhas de amizade” oferecidas dissimuladamente pelo Japão aos Estados Unidos. Elas foram lançadas sobre instalações japonesas na famosa operação conhecida como Ataque Doolittle (Doolittle Raid).

O Salmo 81 guarda certa semelhança com essa história, no sentido de que a amizade demonstrada pelos israelitas a Deus era tão falsa quanto a da trama que serviu de prelúdio à guerra no Pacífico. O contexto do salmo parece ser uma das festas da Lua Nova – realizadas pelos israelitas no início de cada mês (Nm 10.10; 28.11). Contudo, o chamado ao toque de trombeta nessa Lua Nova em questão (v.3) parece associar o salmo à Festa das Trombetas – ano novo judaico –,celebração prevista na lei mosaica (cf. vv.4,5), registrada pela primeira vez em Levítico: “Fala aos filhos de Israel, dizendo: No mês sétimo, ao primeiro do mês, tereis descanso solene, memorial, com sonidos de trombetas, santa convocação. Nenhuma obra servil fareis, mas trareis oferta queimada ao Senhor” (Lv 23.24,25). Nesse sentido, os vv.1-5 estão ambientados em um ritual de gratidão a Deus. Trata-se de uma ocasião de culto e louvor a Deus.

Muitos estudiosos do Antigo Testamento fazem sugestões acerca da ocasião específica do Salmo 81. Entre as propostas estão a Festa dos Tabernáculos em dias anteriores ao reinado de Davi, o traslado da arca de Quiriate-Jearim até Jerusalém (2Sm 6) e a dedicação do segundo templo no período pós-exílico (Ed 6.16-18). Contudo, apesar do chamado solene ao festejo – comum a todas essas ocasiões –, a tônica do salmo não é a festa em si (vv.1-5), mas uma repreensão divina pelo pecado do povo (vv.6-16). Uma repreensão dessas em um dia solene de adoração contém uma mensagem clara, da parte do Senhor, da rejeição do culto por ele. A causa era a  falsidade do coração dos adoradores e sua “falta de gratidão”. A julgar pelo contexto de todos os salmos de Asafe, os quais dão indicações de que o autor viveu em Judá nos dias próximos à queda de Jerusalém, a reprovação divina toma um colorido especial à luz da arrogância de um povo rebelde que cultua a Deus somente de aparência. Na verdade, esse mesmo pecado precedeu a queda do reino vizinho, ao Norte, em 722 a.C. (Os 5.7; Am 8.5).

Desse modo, o Senhor denuncia, por meio desse salmo, três pecados resultantes da falta de gratidão do povo a Deus e da rebeldia que nunca deveria encontrar morada entre aqueles que nutrem algum relacionamento com o Senhor. O primeiro desses pecados foi a desconsideração das bênçãos passadas (vv.6,7). A primeira acusação do Senhor aos israelitas – o que obriga o leitor a reinterpretar o chamado inicial do salmo (vv.1-5), agora com um tom irônico que denuncia a falsidade do culto – vem na forma de uma recordação (v.6): “Eu tirei a carga dos seus ombros e suas mãos deixaram o cesto” (hasîrôttî missevel shikmô kaffayw middûr ta‘avore). Essa é uma referência clara ao trabalho escravo que os israelitas sofreram no Egito, do qual Deus os livrou. Algo a ser notado é que o Senhor não deixou passar despercebido que sua atuação libertadora não foi fruto de uma intromissão indesejada, mas resposta aos anseios do povo sofredor (v.7): “Na aflição tu clamaste e eu te livrei” (batsarâ qara’ta wa’ahalletseka). Por isso, a ingratidão que eles demonstravam no conforto da terra que o Senhor lhes deu era algo tão terrível e repreensível.

O segundo pecado foi a infidelidade na adoração (vv.8-10). Diante da reprovação pela ingratidão acerca dos feitos passados, o Senhor se dirige aos israelitas em um tom sério de orientação e de incentivo à obediência e à prática do bem (v.8): “Ouve, ó meu povo, pois eu os advertirei” (shema‘ ‘ammî we’a‘îdâ bak). Apesar do chamado solene – e carinhoso, notado na expressão “meu povo” –, o Senhor parece dizer tais palavras com a intenção de promover um contexto de reprovação, pois ele não vislumbra no povo a disposição de obedecê-lo – a julgar pela pergunta praticamente retórica: “Ó Israel, acaso tu me ouvirás?” (yisra’el ’im-tishma‘-lî). Feita essa introdução, Deus dá uma ordem objetiva, não passível de interpretações diferentes do seu sentido simples e claro (v.9): “Não haja contigo deus estranho, nem te prostres diante de um deus estrangeiro” (lo’-yihyeh beka ’el zar welo’ tishtahaweh le’el nekar). A pergunta quase obrigatória é: “Por que alguém iria querer se prostrar diante de outro deus, tendo diante de si o Deus verdadeiro?”. A resposta é que, além do fascínio muitas vezes demonstrado da parte de Israel pelas nações ao redor, havia o desejo de garantir o sustento por meio dos deuses cananitas da chuva e da fertilidade. Contudo, Deus garante (v.10): “Alarga a tua boca e eu a saciarei” (harhev-pîka wa’amal’ehû). Que bom seria se essa ordem fosse obedecida! A realidade era justamente o contrário disso – razão pela qual esse salmo foi escrito. O fato é que a maior parte da estadia de Israel em Canaã no período pré-exílico foi marcado pela adoração infiel, ou seja, uma adoração não exclusiva a Deus, mas dividida com todo tipo de “divindade abominável” dos povos vizinhos.

O terceiro pecado repreendido por Deus foi a desobediência obstinada (vv.11,12). Na sequência da ordem solene de adorar verdadeira e exclusivamente ao Deus verdadeiro e único, o Senhor observa (v.11): “Mas o meu povo não dá ouvidos à minha voz e Israel não se submete a mim” (welo’-shama‘ ‘ammî leqôlî weyisra’el lo’-’avâ lî). Mais uma vez surge uma questão fundamental: “Por que o povo escolhido por Deus para lhe pertencer exclusivamente, para ser um reino de sacerdotes e para viver como uma nação santa (Ex 19.5,6) iria rejeitar a Deus e ignorar conscientemente as suas ordens?”. A resposta, por mais chocante – e reveladora – que seja, residia, conforme disse o Senhor (v.12), “na obstinação dos seus corações” (bishrîrût livvam). Para aqueles homens não havia razão, obediência ou devoção. As únicas coisas que lhes importavam eram a manutenção do seu orgulho, a obtenção dos seus desejos e a rejeição de qualquer coisa que os submetesse, os fizesse humildes e os corrigisse.

A parte triste e dolorida dessa história é que tais pecados trouxeram consequências declaradas no próprio salmo: o Senhor os entregaria nas mãos dos inimigos em vez de protegê-los (vv.13,14), eles deixariam de ter a paz permanente prevista na aliança mosaica pela obediência (v.15 cf. Lv 26.6-9; Sl 18.44) e passariam uma carestia que os levaria, certamente, a lamentar seus atos (v.16). Veja-se que os verbos usados no modo subjuntivo evidenciam que a realidade era diametralmente oposta ao que ocorreria em caso de obediência (vv.13-16). Assim, o modo correto de se entender a conclusão divina é algo mais ou menos assim: “Já que o meu povo não me escuta e Israel não anda nos meus caminhos, não abaterei seu inimigo, nem deitarei a mão contra os seus adversários. Na verdade, os povos que aborrecem ao Senhor prevalecerão durante algum tempo e eu não sustentarei Israel com o trigo mais fino, nem o saciarei com o mel que escorre da rocha”. Tudo isso realmente aconteceu e os israelitas viram, em 587 a.C., a queda da cidade que lhes servia, ao mesmo tempo, de capital política e religiosa – Jerusalém –, sendo posteriormente trasladados para a Babilônia.

Desse modo, nada mais propício que um salmo como esse em uma ocasião de festividade religiosa, quando a religião, o culto e a gratidão do povo não passavam de falsidade. Infelizmente, hoje em dia tais problemas podem se replicar na igreja. “Adoradores de Deus” dos nossos dias também podem se esquecer de tudo que Deus fez no passado e, em lugar de gratidão, assumir uma postura exigente diante dele ou uma atitude de irremediável murmuração. Eles também podem ser infiéis na adoração, dividindo sua admiração e louvor com outras “personalidades” como pastores, cantores ou líderes carismáticos, ou até mesmo desejando para si um pouco do louvor merecido somente por Deus. Infelizmente, esses mesmos “adoradores” podem, ainda, demonstrar um caráter terrivelmente obstinado, teimoso diante de qualquer orientação e revoltado com qualquer tipo de correção e exortação. Quando isso acontece, a reprovação divina é a mesma e, ainda que as consequências tomem contornos diferentes das que Israel experimentou, o resultado é dor, choro e tristeza. Por isso, a fim de exercitar a reflexão dos leitores, proponho uma nova pergunta que também não quer calar: “E por que qualquer crente em Cristo iria querer valorizar mais o seu orgulho e os seus desejos pessoais que a dignidade e as orientações do Deus altíssimo?”.

Pr. Thomas Tronco

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