Terça, 16 de Janeiro de 2018
   
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Salmo 86 - As Identidades de Deus e dos seus Servos

Dizem que quando o famoso político e orador americano Daniel Webster se deparava com alguém de quem não se lembrava totalmente, mas queria dar a impressão que o conhecia perfeitamente, ele costumava perguntar: “Bem, como está aquela velha queixa?”. Em nove de dez vezes isso funcionava. A pessoa começava a falar do descontentamento que relatou a Webster em outra ocasião e eram quase inevitavelmente identificada por ele. Nada como as lutas e as dificuldades para mostrar quem somos realmente!

O Salmo 86 apresenta certa semelhança com essa ideia. Trata-se de um salmo de Davi escrito em tempos de dificuldades e perseguições. O salmista clama a Deus por alívio e livramento, sabendo quem exatamente é o Senhor a quem se dirige. Ainda que Davi rogue a Deus por socorro, o salmo termina sem um sinal claro de que sua oração já foi respondida, permanecendo o fardo pesado da angústia. É diante desse quadro que o salmo define bem as identidades de duas pessoas: o servo de Deus e o próprio Senhor. Por isso mesmo, trata-se de um texto útil para que, em meio a uma crise, sirva como um mapa para fazer o servo do Senhor manter sua identidade, conhecendo firmemente quem é o seu Deus.

Desse modo, Davi apresenta a identidade do servo na forma de três características. A primeira delas é que o servo de Deus é alguém dependente do Senhor. O salmo inicia com a declaração de que (v.1) seu escritor é “pobre e desamparado” (‘anî we’evyôn). A julgar pelo clamor presente no texto, Davi não está se queixando da sua condição social, mas da sua incapacidade de resolver seus próprios conflitos e se livrar da perseguição de seus opressores (v.14). Desistindo de tentar com insucesso tomar em suas mãos as rédeas da sua sorte, ele se lança a uma oração que expressa sua dependência do soberano (v.3): “Tem misericórdia de mim, ó Senhor, pois clamo a ti todos os dias” (hannenî ’adonay kî ’eleyka ’eqra’ kol-hayyôm). A continuidade da oração de Davi evidencia sua total necessidade da provisão e da libertação que vem de Deus de modo permanente.

O servo de Deus também é alguém consagrado ao Senhor. O pedido do salmista o aponta como alguém obediente à aliança de Deus com Israel (v.2a): “Preserva a minha alma pois sou fiel” (shomrâ nafshî kî-hasîd ’anî). A fidelidade à aliança é descrita pelo uso de uma palavra cuja raiz – “amor leal” (hesed) –, dentro do contexto da aliança, expressa tanto a lealdade de Deus em cumprir suas promessas (Is 55.3) como o tipo de lealdade, constância e apego que ele espera do seu povo (Os 6.6). Isso não quer dizer que Davi fosse perfeito ou que não tivesse pecado, mas que seu coração estava continuamente ligado a Deus para servi-lo, glorificá-lo e amá-lo, disposição essa que transpira de uma declaração forte e cheia de significado e implicações (v.4): “A ti, ó Senhor, elevo a minha alma” (’eleyka ’adonay nafshî ’essa’).

Finalmente, o servo de Deus é alguém confiante no Senhor. A despeito da conclusão natural de se observar a desvantagem do impotente Davi diante dos seus ferozes perseguidores, ele ora com a certeza de que Deus não apenas ouviria sua oração, mas responderia com todo poder, bondade e amor pelo servo (v.2b): “Salva o teu servo, ó meu Deus, pois ele confia em ti” (hôsha‘ ‘avdeka ’attâ ’elohay havvôteah ’eleyka). Essa disposição de confiar em Deus e levar a ele os problemas (vv.6,7,16) é a razão pela qual, mesmo em meio a uma crise severa, Davi não se encontra em desespero e tem interesses de um verdadeiro servo de Deus como o desejo de aprender para melhor servir (v.11), a disposição de louvar o Senhor (v.12) e o anseio por ver o nome de Deus glorificado entre as nações (vv.9,17).

Tendo descrito o servo de Deus, Davi ora a alguém que ele parece conhecer bem, de modo que o próprio Senhor é descrito na oração davídica na forma de três qualidades. A primeira delas é sua bondade para com os seus. Deus não trata aqueles que lhe pertencem com nenhum tipo de frieza, insensibilidade ou impessoalidade, como se fosse um patrão que não conhece ou não se importa com os empregados. Ao contrário, há um tratamento bondoso bem próprio de um pai para com seus filhos (v.5). “Pois tu és, ó Senhor, bom e clemente, rico em misericórdia para com todos o que clamam a ti” (kî-’attâ ’adonay tov wesallâ werav-hesed lekol-qor’eyka). Deve-se notar que a bondade de Deus é colocada em perspectiva pela adição da sua clemência ou sua prontidão em perdoar – por isso, a palavra hesed, nesse versículo, não deve ser traduzida como “amor leal”, mas como “misericórdia” ou “graça”. Assim, tal qualidade se mostra na disposição de beneficiar o servo mesmo que ele não mereça e não tenha dignidade suficiente para se achegar a Deus por si mesmo. O próprio amor e perdão de Deus é que torna tais servos beneficiários da sua bondade. O salmo não termina sem que o salmista volte a afirmar essa maravilhosa qualidade divina (v.15): “Mas tu és, ó Senhor, compassivo e gracioso, paciente e rico em misericórdia e fidelidade” (we’attâ ’adonay ’el-rahûm wehannûn ’erek ’affayim werav-hesed we’emet).

A segunda qualidade de Deus é sua soberania entre os seus. A diferença entre onipotência e soberania é que onipotência é a capacidade de Deus fazer, com grande poder, tudo que desejar, enquanto soberania é o fato de ele não apenas ter tal poder, mas de efetivamente usá-lo para guiar os rumos da história. Podemos dizer que soberania é o “poder de Deus em ação” na história humana. É exatamente esse conceito que Davi aborda no salmo (v.8) ao dizer “não há entre os deuses quem seja como tu, ó Senhor, nem há obras como as tuas” (’ên-kamôka ba’elohîm ’adonay we’ên kema‘aseyka). A soberania do Senhor o torna singular em meio a tudo que existe. O fato de as nações estarem no rumo de se dobrarem diante dele (v.9) se deve aos seus maravilhosos e incomparáveis feitos (v.10): “Pois grande és tu e seus feitos são extraordinários. Tu és o único Deus” (kî-gadôl ’attâ we‘oseh nifla’ôt ’attâ ’elohîm levaddeka). Assim, ao clamar ao Senhor, Davi não age como quem tenta saltar uma montanha – algo utópico e impossível a ele –, mas busca um benefício perfeitamente tangível segundo a plena capacidade de Deus de interferir na história e socorrer efetivamente o seu povo.

A terceira qualidade de Deus apresentada pelo salmo é sua presença junto aos seus. Davi clama por uma atuação de Deus que seja vista entre os homens, algo que marque o tipo de relacionamento favorável para com aqueles que servem o Senhor e põem nele sua confiança (v.17): “Envia a mim um sinal favorável de modo que os que me odeiam sejam envergonhados” (‘aseh-‘immî ’ôt letôvâ weyir’û sone’ay weyevoshû). Essa não foi a primeira vez que Davi pediu por uma demonstração visível que expressasse o fato de Deus se importar com ele. No Salmo 41, Davi interpreta o insucesso dos inimigos como uma prova da presença de Deus atuando em sua vida: “Com isto conheço que tu te agradas de mim: em não triunfar contra mim o meu inimigo” (Sl 41.11). Esse tipo de certeza vem do conhecimento de que Deus não está longe dos seus. Antes, participa das suas vidas e se importa com o que lhes acontece a ponto de interferir no rumo dos acontecimentos. Deus não é omisso para com seus servos. O resultado experimentado pelo salmista era inevitável e perceptível: “Pois tu, ó Senhor, tens me socorrido e consolado” (kî-’attâ yhwh ‘azartanî wenihamtanî).

Junto com o “conhecimento do que são as Escrituras” – a Palavra de Deus inspirada, inerrante e infalível –, dois outros conhecimentos formam o tripé que sustenta a ortodoxia: o “conhecimento de quem Deus é” e o “conhecimento de quem nós somos”. Conhecer tais verdades não apenas nos coloca no caminho da verdade e do acerto, mas mantém nossa escala de valores e prioridades no lugar correto, fazendo-nos respeitar Deus como o supremo, santo e soberano Senhor do universo e assumir o lugar de servos dependentes, reverentes e operosos desse mesmo Deus. Munido desses “óculos teológicos”, todo crente pode ser capacitado a cumprir sua função de verdadeiro adorador (Jo 4.23) e arauto da verdade e do evangelho (1Pe 2.9). No final das contas, é em meio às lutas e dificuldades que o crente é moldado à imagem do seu Senhor e deve glorificá-lo como um servo que sabe seu lugar e que conhece a dignidade de Deus: “Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes” (Tg 1.2-4).

Pr. Thomas Tronco

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