Terça, 19 de Junho de 2018
   
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Salmo 89 - A Promessa do Reino Perpétuo

 

Os dias de hoje são marcados por um extremo antagonismo à Bíblia. Os homens querem desacreditá-la, diminuir sua influência na sociedade e até proibir o seu ensino e a obediência às suas diretrizes. Contudo, há nela certas coisas que fascinam as pessoas, de modo que tal fascínio se faz ver até nos filmes de Hollywood. Alguns exemplos disso são as previsões de um juízo apocalíptico nos filmes 2012 e O dia em que a Terra parou, a luta e oposição do diabo contra Deus em Constantine  e Fim dos dias, a admiração por artefatos do mundo bíblico em dois dos filmes de Indiana JonesCaçadores da arca perdida e A última cruzada – e a esperança na vinda do Messias libertador em Matrix e na saga Guerra nas estrelas. Nesse sentido, a trilogia O senhor dos anéis não foge à regra. Enquanto a Terra Média é dominada pelas crescentes trevas, há um rei que vive à margem da monarquia, mas sobre quem há promessas de restauração da sua casa real. O personagem Aragorn, descendente de uma linhagem gloriosa de reis, aguarda até o final da história para ser entronizado e cumprir as previsões de restabelecimento da sua dinastia no trono de Gondor.

Basta conhecer um pouco do Antigo Testamento para que se identifique essa parte da história de J. R. R. Tolkien com a aliança estabelecida por Deus para com seu servo Davi, conhecida como “aliança davídica” (2Sm 7.11-16 cf. Sl 89.3). Ela previa um reinado perpétuo da dinastia de Davi sem, contudo, ignorar o pecado dos seus descendentes. Entretanto, a certeza da perpetuidade do trono davídico superava qualquer incerteza baseada na disciplina temporal dos reis de Judá e até no hiato temporal que envolveu a queda desse trono. O Salmo 89 foi escrito em tempos da disciplina de um rei de Judá, descendente de Davi. O trono israelita sofreu um golpe (v.38) e os palácios e fortalezas reais foram derrubados (v.40). Tudo ao redor promove sofrimento e desesperança no que tange ao futuro da monarquia israelita. Mas é justamente nessa situação que os efeitos da promessa de Deus se fazem sentir no meio do seu povo. Assim, o salmista Etã olha para a aliança e vê nela alguns atributos de Deus ligados ao cumprimento daquilo que Deus garantiu realizar.

O primeiro atributo é a fidelidade no cumprimento da promessa (vv.1-4). Certamente, a palavra “fidelidade” (’emûnâ) recebe um destaque especial no salmo, sendo utilizada nada menos que sete vezes (vv.1,2,5,8,24,33,49). Se essa verdade é afirmada ao longo de todo o salmo, os primeiros versículos do texto a enfatizam sem parcimônia, não apenas pelo uso da palavra “fidelidade”, mas pela afirmação das consequências naturais de Deus ser fiel. Uma das consequências da fidelidade do Senhor é o tempo de duração do cumprimento da promessa – “para sempre” (v.2): “A lealdade é estabelecida para sempre” (‘ôlam hesed yivvaneh). A ênfase pretendida não deixa que o salmista fale disso apenas uma vez nesse trecho inicial (v.4): “Firmarei para sempre a tua descendência” (‘ad-‘ôlam ’akîm zar‘eka) – adiante daqui, a palavra traduzida como “para sempre” (‘ôlam) reaparece nos vv.28,36,37,52. Outro modo, ainda no v.4, de afirmar a perpetuidade do cumprimento da promessa é dizer que o trono seria estabelecido “de geração em geração” (ledôr-wadôr). Por essa causa, também o louvor a Deus duraria para sempre e por todas as gerações (v.1).

O segundo atributo divino é seu poder para garantir o prometido (vv.5-18). Assim como em outros lugares do Antigo Testamento – como, por exemplo, no Salmo 82 –, o escritor lança mão da figura de uma assembleia de deuses. Sua intenção não é ensinar a existência de outros deuses, mas afirmar a supremacia do Deus verdadeiro e único, ao qual nada, nem ninguém pode se igualar (v.5). Ele é superior aos anjos, pelo que eles o temem e louvam (vv.6,7). Seu poder controla tudo que existe (vv.8,9) e a grandeza da criação revela a ausência de limitações no Criador (vv.11,12). Esse poder se revela soberano também sobre a história das nações e dos exércitos (vv.10,13-18). Olhando sob esse prisma, o salmista vai interpretar as tragédias dos seus dias como “propósitos de Deus” e não como efeito de “incapacidade divina de dominar a história”. É baseado nessa mesma visão que o salmista – e todos nós – pode confiar na promessa de Deus a na fidelidade do seu cumprimento.

O terceiro atributo é a generosidade concedida aos eleitos (vv.19-29). Se o assunto é a aliança de Deus com Davi, o texto lembra que nem sempre Davi foi grande. Assim como Abraão foi escolhido dentre os que adoravam outros deuses (Js 24.2), Davi foi escolhido por Deus do meio do povo e elevado ao múnus real (v.19): “Exaltei aquele que foi escolhido dentre o povo” (harîmôtî bahûr me‘am). Ao dizer “dentre o povo”, a ideia é que Davi não era diferente dos demais, a não ser no fato de Deus o ter separado para realizar nele seus planos benéficos. Por isso, o que sobressai aqui não são as qualidades do rei, mas a bondade de Deus rendida a ele. A generosidade divina para com o menino que se tornou rei se revelou na nomeação real pelo Senhor (v.20), na capacitação para o cargo (v.21), no sucesso militar (vv.22,23), no crescimento como servo de Deus e como rei distinto na história (vv.24-27) e na aliança perpétua que Deus fez com ele (vv.28,29).

O quarto é a graça de caráter incondicional (vv.30-37). Antes que alguém queira admirar Davi e sua posteridade por haver neles algo que os tenha feito merecer essas inauditas bênçãos de Deus, o salmista vai assegurar que merecimento não é a causa das bênçãos, mas sim a promessa divina – Paulo usa esse mesmo conceito no tocante à promessa de justificação pela fé em Cristo somente independente de obras (Rm 4.1-14). Notamos isso quando o salmista relata a previsão da infidelidade dos descendentes de Davi que se assentariam em seu trono (vv.30,31). Quando isso ocorresse, haveria punição (v.32). Contudo, a promessa do trono perpétuo nunca perderia seu valor e Deus nunca desistiria de cumpri-la (v.33 cf. 2Sm 7.15): “Mas eu não retirarei dele a minha lealdade” (wehasdî lo’-’asîr me‘immô). Assim, o cumprimento da promessa de Deus não estava atrelado ao merecimento da descendência de Davi, mas ao caráter fiel do próprio Senhor (vv.34-37), demonstrando coerência entre o conceito da “graça”, favor imerecido de Deus, e a “incondicionalidade”, ou seja, ausência de condições favoráveis no homem que levem Deus a beneficiá-lo.

O quinto é a santidade no tratamento dos agraciados (vv.38-51). Nesse ponto, o salmo parece oferecer uma contradição. O salmista, que enfatizou o conceito da fidelidade de Deus, também baseou sua esperança de um reino perpétuo na ideia da “aliança” (berît) que o Senhor firmou com Davi (vv.3,28,34). Contudo, avaliando sua realidade presente, ele diz (v.39): “Tu repudiaste a aliança com teu servo. Profanaste sua coroa [derrubando-a] por terra” (ne’artâ berît ‘avdeka hillalta la’arets nizrô). Mas isso não quer dizer que Deus se tenha tornado infiel ou tenha desconsiderado a aliança que fez. Pelo contrário, continua sendo fiel ao que prometeu, já que previu punição aos pecados. Essa cláusula condicional dentro da promessa incondicional se deve à santidade do Senhor que não pode aceitar o pecado como se fosse algo normal, nem pode conviver com a iniquidade. Portanto, apesar da certeza do cumprimento da promessa de um trono davídico permanente, os dias do salmista foram marcados pela disciplina aos pecados do rei de Judá. Isso foi sentido na ira de Deus contra o rei dos dias do salmista (v.38), na queda e destruição das fortalezas reais (v.40), no seu escarnecimento pelos inimigos vitoriosos (vv.41-44) e no seu sofrimento e perda de alegria figurados por um envelhecimento precoce (v.45). Eis a razão do clamor do escritor pela mudança da sorte de Israel baseado na esperança de uma restauração futura (vv.46-51).

Por fim, o último atributo presente no cumprimento das alianças é a glória do Deus eterno (v.52): “Bendito é o Senhor para sempre! Amém e amém!” (barûk yehwâ le‘ôlam ’amen we’amen). A expressão “bendito é o Senhor” é utilizada para louvar a Deus diante da revelação do seu caráter e da aplicação do seu poder e graça, como se vê na exclamação adoradora de Jetro, sogro de Moisés: “E disse: Bendito seja o Senhor, que vos livrou da mão dos egípcios e da mão de Faraó; agora, sei que o Senhor é maior que todos os deuses, porque livrou este povo de debaixo da mão dos egípcios, quando agiram arrogantemente contra o povo (Ex 18.10,11). Não se trata de mera constatação histórica, mas da percepção da glória majestosa de Deus, a qual leva o homem a se curvar em louvor diante dele. Essa consciência no salmista é tão grande quanto seu impulso de adorar o Senhor, pelo que encerra o versículo bradando “amém e amém”, atestando a exatidão de toda a “verdade” a respeito da fidelidade gloriosa do soberano.

Nós, servos de Deus, não somos descendentes da linhagem real de Davi, mas não poderia haver maior relevância desse salmo para nossas vidas. Isso porque o cumprimento da promessa da perpetuidade da descendência real de Davi se cumpre na volta de Cristo, filho de Davi segundo a carne (Rm 1.3), para estabelecer o reino prometido (Lc 1.32), trazer julgamento sobre a impiedade e promover justiça e paz no mundo (Is 42.1-4; Mt 25.31,32; At 17.31; Ap 19.11). Além de trazer ao mundo a justiça que ansiamos e aguardamos, por sua graça tomaremos parte nessa tarefa real e na herança de Cristo (Rm 8.17; 1Co 6.3; 2Tm 2.12; Ap 5.10). Por isso, ainda que vivamos em dias nos quais a promessa, apesar da sua confiabilidade, ainda não se vê em pleno cumprimento, não desanimamos de esperar, nem de viver como quem aguarda a vida gloriosa. Antes, nos encorajamos mutuamente e renovamos, a cada dia, nossa fidelidade para com o Deus fiel. E, como quem vai reinar, seguimos o mesmo caminho do nosso rei, que seguiu primeiro para a cruz para, posteriormente, subir ao trono.

Pr. Thomas Tronco

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