Terça, 16 de Janeiro de 2018
   
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Salmo 90 - O Homem Fraco Diante do Deus Forte

Certa ocasião, Dwight Lyman Moody (1837-1899), um dos maiores evangelistas americanos –  apesar do seu pouco estudo –, pregou em Londres a uma audiência de homens e mulheres bastante refinados. A plateia era formada pela nobreza britânica, incluindo membros da família real. O texto bíblico a ser compartilhado era Lucas 4.27: “Havia também muitos leprosos em Israel nos dias do profeta Eliseu [...]”. Ao lê-lo, Moody teve dificuldade de pronunciar o nome de Eliseu, tropeçando nas sílabas. Tentou lê-lo por mais duas vezes com um embaraçoso insucesso. Ele, então, fechou a Bíblia e, tomado de emoção, orou: “Ó Deus, use esta língua gaguejante para pregar o Cristo crucificado a essas pessoas”. Feita essa oração, ele pregou o Evangelho. Ouvintes disseram que Moody falou com uma eloquência que nunca teve antes e que toda a audiência foi quebrantada pelo poder de Deus. Essa história é um ótimo exemplo da coexistência de duas verdades afirmadas nas Escrituras: o homem é fraco e limitado, ao passo que Deus é supremo e soberano.

O Salmo 90, escrito por Moisés, concorda com tal ideia. Se houve um povo que conheceu o contraste entre o poder de Deus e todo tipo de limitação dos homens, foi o Israel dos dias de Moisés. Libertados do Egito por meio de prodígios que ecoam através dos séculos e sustentados no deserto por meio de provisão milagrosa e contínua, a incredulidade e a rebeldia daqueles israelitas são proverbiais. A dureza de coração daqueles homens – motivo pelo qual foram chamados insistentemente de “povo de dura cerviz” (Ex 32.9; 33.3,5; 34.9) – fez com que Moisés carregasse um fardo pesadíssimo, tendo de liderar um povo que resistia à liderança e tendo de promover santidade e devoção em quem era rebelde tanto por natureza como por decisão. Ainda que Moisés muitas vezes preferisse não ter de passar por isso, ele era o líder que Deus colocou sobre o povo e, como tal, zelava por sua santidade. Uma das suas tarefas certamente era ensinar arrependimento aos endurecidos. Para tanto, ele evidencia como a diferença entre Deus e os homens é marcante e enfática. Pelo menos três contrastes são expostos no salmo e servem de base para incentivar o povo a se arrepender diante de Deus.

O primeiro contraste tem relação com as naturezas divina e humana: Deus é eterno enquanto o homem tem uma vida passageira (vv.1-6). Moisés inicia o salmo falando da proteção divina (v.1): “Ó Senhor, tu tens sido um refúgio para nós” (’adonay ma‘ôn ’attâ hayîta lanû). Contudo, ao que parece, a intenção do escritor é enfatizar não apenas o efeito da ação de Deus, mas sua durabilidade “de geração em geração” (bedor wador). Assim, ele afirma que o poder criativo do Senhor aponta para sua existência atemporal (v.2): “Antes que as montanhas fossem geradas e que fosse criada a Terra, isto é, o mundo [todo], de eternidade a eternidade tu és Deus” (beterem harîm yulladû wattehôlel ’erets wetevel ûme‘ôlam ‘ad-‘ôlam ’attâ ’el). Vale notar que a expressão “de eternidade a eternidade” tende a enfatizar não apenas que Deus não teve começo, mas que também não tem fim, sendo alguém cuja existência não é dependente de nada, nem pode ser tolhida ou abalada.

O homem, por sua vez, subsiste em uma situação tremendamente oposta (v.3): “Tu fazes o homem voltar ao pó e dizes: Retornai, filhos de Adão!” (tashev ’enôsh ‘ad-dakka’ watto’mer shûvû benê-’adam). Essa é uma clara menção a algo escrito também por Moisés no livro de Gênesis: “No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela foste formado; porque tu és pó e ao pó tornarás” (Gn 3.19). Moisés faz aqui um trocadilho usando uma palavra hebraica para “pó” (heb. dakka’) diferente da que usou em Gênesis (heb. ‘afar). A intenção parece ter sido introduzir o conceito do arrependimento usando uma palavra que, além de significar “pó”, é também utilizada para produzir a ideia de quebrantamento (cf. Sl 34.18). Assim, o arrependimento deveria vir da constatação de que, enquanto Deus é eterno, a vida do homem é passageira. Para Deus, o tempo é nada (v.4): “Pois mil anos aos teus olhos são como dia de ontem que se passou e como a vigília da noite” (kî ’elef shanîm be‘êneyka keyôm ’etmôl kî ya‘avol we’ashmûrâ ballaylâ). Para o homem, o tempo é um carrasco (vv.5,6): “Tu derrama-os em um sono. Eles são como a erva que se brota ao amanhecer” (zeramtam shenâ yihyû bavvoqer kehatsîr yahalof). “Derramar em um sono” é um eufemismo para o fato de Deus fazer os homens morrerem dando lugar a outros, do mesmo modo que a relva que morre é reposta pela natureza. Assim, entende-se que, além de o homem ter uma vida passageira (v.6), ele é facilmente substituído por Deus quando se vai. É um modo sugestivo e enfático de dizer às pessoas que elas nada são diante de Deus e que, por isso, devem se dobrar diante dele!

O segundo contraste tem relação com o caráter tanto do Senhor como do ser humano: Deus é santo enquanto o homem é pecador passível de juízo (vv.7-12). Na primeira parte do salmo, Moisés não estava “filosofando” sobre conceitos alheios à vida cotidiana dos seus liderados, mas explicando a razão de eles estarem sofrendo a condenação da sua rebeldia, pelo que conclui (v.7): “Pois somos consumidos pela tua ira e aterrorizados pelo teu furor” (kî-kalînû be’affeka ûbahamateka nivhale). Está implícita a afirmação de que Deus não suporta o pecado e a maldade. Ele é tão contrário à iniquidade que não pode relevá-la. Antes, sua santidade se apresenta na forma de uma ira ardente diante da maldade e o resultado é a justa punição do pecador. A ira de Deus contra o pecado (v.8) associada à transitoriedade da vida humana produzia exatamente o que aquela geração estava sofrendo, fadada a morrer no deserto e a ser substituída por outra geração que iria herdar a terra da promessa (v.9): “Pois se passam todos os nossos dias ante a tua fúria e se acabam os nossos anos como um suspiro” (kî kol-yamênû panû be‘evrateka killînû shanênû kemû-hegeh).

Por sua vez, a contemplação da transitoriedade da vida humana (v.10) associada à imperfeição e corrupção passíveis da justa ira de Deus (v.11) constitui um motivo muito sério para a avaliação pessoal e a busca da solução sábia – o arrependimento de pecados – para a ruptura entre o homem e seu criador (v.12): “Ensina-nos a contar nossos dias corretamente para adquirirmos um coração sábio” (limnôt yamênû ken hôda‘ wenavi’ levav hokmâ). Nesse caso, o foco não é a capacidade de raciocinar com sabedoria, mas ter um coração quebrantado que, com sabedoria, se submete a Deus e cumpre sua vontade.

O terceiro contraste tem relação com o modo de Deus e dos homens se relacionarem um com o outro: Deus se relaciona por meio da graça enquanto o homem o faz por meio da contrição (vv.13-17). Esse contraste, além de concordar com a teologia bíblica, tem um caráter extremamente prático dentro do esforço do escritor de produzir contrição e busca verdadeira ao Deus santo por parte dos homens. Ele dá o exemplo de um servo que clama pela misericórdia de Deus (v.13): “Volta-te, Senhor! Até quando?” (shûvâ yhwh ‘ad-matay). Essa pergunta retórica tem o mesmo sentido que o pedido inicial: o de clamar que Deus voltasse a ser favorável ao povo. O meio para isso é bem definido na mente do salmista como sendo o perdão misericordioso de Deus: “Compadece-te dos teus servos” (wehinnahem ‘al-‘avadeyka).

Se, por um lado, o pedido clama por perdão a fim de que Deus não desse a devida paga que o pecado do povo merecia, Moisés também clama por benefícios imerecidos, algo que, na linguagem teológica, chamamos de “graça”. O salmista roga que Deus aja com Israel assim como se lhe estivesse servindo um banquete que lhe saciasse a fome (v.14): “Satisfaça nossa fome pela manhã com a tua lealdade” (savve‘enû bavvoqer hasdeka). Nesse sentido, a fidelidade de Deus às próprias promessas ao povo que escolheu e chamou encorajam o salmista a vislumbrar uma virada diametral na sorte do povo (v.15), além da esperança de ver a demonstração do poder glorioso do soberano Deus do universo (v.16). Assim, o salmo que mostrou o contraste entre a eternidade do Deus santo e a transitoriedade do homem pecador, solicita ao Senhor que atue “graciosamente” abençoando seus servos “arrependidos” e de corações compungidos (v.17): “Seja o favor do Senhor, nosso Deus, sobre nós” (wîhî no‘am ’adonay ’elohênû ‘alênû). Apesar de haver um contraste entre as disposições dos homens e de Deus, “arrependimento de pecados” e “graça bondosa”, respectivamente, o encontro dessas duas disposições faz com que haja comunhão entre o Senhor e seus servos com a produção da glória devida a Deus e com benefícios indizíveis aos que amam seu Senhor.

Algo que pode parecer contraditório é haver comunhão entre Deus e os homens por meio da existência de pontos de diferença em lugar de pontos de igualdade. Em nossa experiência cotidiana, temos amizade e proximidade com pessoas que são parecidas conosco e que nutrem os mesmos gostos. Contudo, no relacionamento entre Deus e os homens, as diferenças são essenciais. Nosso apego ao Senhor não se dá porque ele é como os homens, mas porque não é, sendo-lhes superior e alvo de busca e devoção. Nessa jornada, quanto mais notarmos as diferenças entre nossas falhas e a perfeição de Deus, mais nos acomodaremos em nossa devida posição de servos dependentes, reverentes e obedientes para recebermos das mãos de Deus aquilo que surge da sua graça. É da diferença que há entre o Senhor gracioso e seus servos arrependidos que surgem as bases do relacionamento que perdurará pelas eras sem fim.

Pr. Thomas Tronco

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