Segunda, 27 de Fevereiro de 2017
   
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A Era da Falta de Equilíbrio

VERDADE 'VERSUS' AMOR

Nesta semana, ouvi pela Internet a pregação de um pastor da minha própria denominação que, desejando defender a vida transformada pelo Espírito Santo na qual transborda o amor de Deus, acabou por atacar a única via de entrada para essa transformação que é a fé na verdade do evangelho. Ele disse: “O evangelho de Jesus não é de poder ou de verdade, mas de amor”. Ao fazer menção à “verdade”, seu intento, exposto no decorrer da mensagem, era se referir à fé ortodoxa defendida pela igrejas históricas. Ele comparou os portadores dessa fé aos judeus incrédulos que frequentavam a igreja de Roma, homens que criam que eram justos por causa das obras da lei e que, com hipocrisia, faziam as mesmas coisas que condenavam nos outros (Rm 2.17-24). Por meio dessa comparação ilegítima – crentes que defendem a fé revelada com incrédulos que creem na salvação por obras –, o pregador em questão abraçou a mensagem do amor e rejeitou a mensagem da Sã Doutrina (Tt 2.1) como se elas fossem antagônicas.

Isso revela uma característica perceptível na igreja dos nossos dias: a falta de equilíbrio. Não estou, de modo algum, condenando a existência de posições doutrinárias descritas por palavras que terminam com o sufixo “ismo” (ex.: calvinismo, dispensacionalismo, pré-milenismo, etc.) – aliás, estamos fartos de discursos vazios que atacam os “ismos” como se fossem doutrinas humanas contrárias às Escrituras, discursos esses feitos por pessoas de mente oca que sequer entenderam do que tratam tais doutrinas e que, ironicamente, também abrigam conjuntos de crenças que se enquadram em algum “ismo”. Em lugar disso, ao falar da falta de equilíbrio da igreja moderna, me refiro à dificuldade que as pessoas têm de, diante de tensões teológicas e de conceitos amplos, encontrar uma posição equilibrada que afirme e defenda “tudo” que as Escrituras ensinam sem jogar fora verdades reveladas que não se ajustam facilmente ao restante da revelação. Essa falta de equilíbrio surge quando, em lugar de se lidar com conceitos complementares “aparentemente” contraditórios, a decisão é afirmar uma realidade e negar outra. Foi exatamente o que fez o pregador batista ao afirmar o “amor” e negar a “verdade” como se fossem conceitos contraditórios e inconciliáveis.

Posições como essa, além de serem fruto de uma teologia preguiçosa, demonstram total falta de equilíbrio doutrinário no qual o teólogo não faz teologia “inventando” posições originais, mas caminhando no meio da revelação e da ortodoxia sem derrubar nenhum dos pilares ali assentados pelo Senhor – o teólogo não tem de ser um pensador original, mas um exegeta fiel. Ainda que tais posições pareçam advir de mentes abertas à frente do seu tempo, surgem de mentalidades obtusas que, não podendo conviver com as dificuldades da revelação do Deus inefável, criam uma “ditadura da liberdade”, já que não clamam por liberdade real, mas pela imposição de posições pessoais que não passam de simulacros do ensino de Cristo e de imitações mancas da doutrina do Mestre.

Nesse caso em questão, o pregador errou ao opor o “amor” à “verdade”. Vou explicar por quê. Em primeiro lugar, o amor cristão é fruto da verdade relevada. Não adianta clamar aos incrédulos que amem, nem apontar-lhes o amor como caminho para Deus. Jesus se apresentou como único meio de se chegar a Deus – algo que aquele pregador parece discordar –, tornando impossível o sucesso daqueles que buscam o Senhor por outros meios: “Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6) – não há como alguém se curvar diante de ídolos falsos e orar ao Deus verdadeiro. Jesus também atrelou a salvação exclusivamente à fé nele: “Por isso, quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, todavia, se mantém rebelde contra o Filho não verá a vida, mas sobre ele permanece a ira de Deus” (Jo 3.36 cf. Jo 20.30,31; Rm 1.16,17). Assim sendo, só tem o amor verdadeiro ensinado por Deus aquele que foi justificado pela fé em Cristo: “Tendo purificado a vossa alma, pela vossa obediência à verdade, tendo em vista o amor fraternal não fingido, amai-vos, de coração, uns aos outros ardentemente, pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente” (1Pe 1.22,23).

Em segundo lugar, o amor cristão faz parte da verdade relevada. A ingenuidade teológica dos defensores do antagonismo entre o amor e a Sã Doutrina fica nítida quando ignoram que a doutrina bíblica é justamente quem ensina a amar. É como se alguém antagonizasse as ações de “voar” e de “entrar em um avião” – só pode voar quem está dentro de um aparelho voador. Do mesmo modo, só pode amar aquele que, justificado e orientado pela Palavra de Deus, ama conforme o modelo revelado pelo Senhor. O texto bíblico ensina: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento; e: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Lc 10.27). Essas palavras foram registradas nas Escrituras e fazem parte da doutrina ortodoxa. Entretanto, esse não é todo o ensino bíblico. A Bíblia também ensina a ser santo, a disciplinar o pecado, a evangelizar o perdido, a resistir ao diabo e a glorificar a Deus. E nenhuma dessas coisas é contraditória, nem pode ser desprezada em função de se valorizar um ou outro ensino. Devemos abraçar “toda a doutrina” e servir a Deus “em tudo”.

Assim, ter o amor como fonte “única” do acesso a Deus é uma deturpação nociva e herética daquilo que nos foi confiado. Por isso, aqueles que desprezam a verdade devem se arrepender e se afastar do erro que hipocritamente condenam nos outros. Devem lembrar que o famoso discurso joanino sobre o amor (1Jo 4.7-21) é precedido pela identificação do ensino de Deus como “verdade”: “Nós somos de Deus; aquele que conhece a Deus nos ouve; aquele que não é da parte de Deus não nos ouve. Nisto reconhecemos o espírito da verdade e o espírito do erro” (1Jo 4.6).

SEGURANÇA 'VERSUS' PERDA DE SALVAÇÃO

Recentemente, um pastor amigo me contou que travou certo debate no campo da Soteriologia em que vários pastores defendiam a perda de salvação de crentes que caem em pecado. Naturalmente, havia entre esses pastores alguns de igrejas pentecostais – é muito frequente a teologia pentecostal defender a perda de salvação. O que me surpreendeu foi saber que, entre os críticos da segurança de salvação, havia vários pastores batistas e presbiterianos – por essa eu não esperava! Na verdade, essa tem sido uma tendência crescente nas denominações históricas. Para dizer a verdade, eu mesmo já travei esse debate várias vezes e, em todas elas, notei traços nítidos daquele problema da igreja moderna: a falta de equilíbrio teológico.

O desequilíbrio nessa questão se vê em afirmações que não se cansam de se repetir. Dizem: “Quer dizer que o crente que cai em pecado não perde a salvação? Isso não é justo!”. Essa afirmação ilegítima demonstra quão difícil é para o homem conviver com a ideia da graça de Deus. Muitos crentes querem falar da graça, mas viver por mérito – certo pastor me disse que o crente é salvo pela graça, mas tem de merecer continuar salvo. Mal sabia ele como esses conceitos são antagônicos desde a justificação gratuita do perdido: “Não foi por intermédio da lei que a Abraão ou a sua descendência coube a promessa de ser herdeiro do mundo, e sim mediante a justiça da fé. Pois, se os da lei é que são os herdeiros, anula-se a fé e cancela-se a promessa” (Rm 4.13,14). Fica claro que o homem não mereceu ser salvo (Rm 3.10-12) e que era totalmente justo que ele fosse condenado ao inferno (Rm 1.18-20). Apesar disso, Deus providenciou um substituto para receber a condenação pelo pecado dos homens, a saber, o próprio Filho de Deus. Alguém poderia dizer “isso não é justo”, já que se trata de punir o inocente e inocentar e abençoar o culpado. “Coitado de Jesus”, diriam eles. “Morreu injustamente”. Mas, apesar de a justiça de Deus ser cumprida nessa troca de réus, a punição não merecida por Jesus não tem a ver com justiça, mas com graça. Foi sem precisar que Jesus morreu. Foi por escolha amorosa que o Pai o enviou. Foi sem merecer que recebemos esse benefício eterno. O justo era sermos condenados. A graça nos deu a salvação. A justiça de Deus cumprida em Cristo foi a maior demonstração da graça amorosa ilimitada do Senhor. Do mesmo modo gracioso, o crente é mantido justificado – ainda sem merecer: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (Rm 8.1 cf. vv.35-39).

Dizem também: “Quer dizer que o crente que cai em pecado não perde a salvação? Então ele pode pecar à vontade!”. Eis uma prova de como o legalismo é atraente para o homem. As pessoas parecem gostar de serem forçadas a servir em lugar de o fazerem por amor àquele que nos salvou e que nos deu uma nova vida. Quem disse que a ausência de condenação leva o crente a uma vida desregrada? Paulo, depois de afirmar a salvação pela fé inteiramente de graça, responde a essa mesma questão fruto do desequilíbrio em se conciliar a graça de Deus a e responsabilidade do crente de se santificar: “Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos?” (Rm 6.1,2) – note como essa questão é antiga. Na verdade, Paulo ainda ensina que a obediência devida a Deus não é exercitada por meio da lei ou das ameaças contidas na lei. Em lugar disso, com a regeneração e com a habitação do Espírito Santo, o homem, pela graça e atuação divina, é levado à obediência que não poderia ter por si mesmo: “Porquanto o que fora impossível à lei, no que estava enferma pela carne, isso fez Deus enviando o seu próprio Filho em semelhança de carne pecaminosa e no tocante ao pecado; e, com efeito, condenou Deus, na carne, o pecado, a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rm 8.3,4). Ademais, Paulo afirma que o raciocínio de associar a segurança de salvação com a liberdade para pecar é algo típico não de crentes, mas de homens condenáveis que não conhecem a graça de Deus – motivo pelo qual é de estranhar que crentes façam tal afirmação: “E por que não dizemos, como alguns, caluniosamente, afirmam que o fazemos: Pratiquemos males para que venham bens? A condenação destes é justa” (Rm 3.8).

Completam, ainda: “Quer dizer que o crente que cai em pecado não perde a salvação? Quem crê nisso é orgulhoso!”. Que inversão grotesca de papeis! O orgulho não vem de confessar nossa incapacidade de ser bom pelo esforço pessoal. A arrogância não vem de reconhecer nossa inteira dependência da graça de Deus para ser salvo e para continuar justificado: “Se tenho de gloriar-me, gloriar-me-ei no que diz respeito à minha fraqueza” (2Co 11.30). O orgulho de verdade vem de se achar que as ações pessoais conseguem impressionar Deus e fazer com que ele ache o homem merecedor do céu. A arrogância nasce de se avaliar a própria vida como compatível com a justiça e a santidade do Altíssimo. A jactância vem de se dizer: “Eu sou melhor que meu irmão e mereço um prêmio que ele não merece!”. A mensagem da salvação pela graça, sem merecimentos, anula o orgulho do homem: “Onde, pois, a jactância? Foi de todo excluída. Por que lei? Das obras? Não; pelo contrário, pela lei da fé. Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” (Rm 3.27).

A falta de equilíbrio – até de pastores – em relação ao modo de conciliar a graça de Deus, o impulso humano de buscar em si valor e merecimento pessoal e a responsabilidade do crente de se santificar tem causado danos à Sã Doutrina e à ortodoxia, mesmo nas igrejas que têm a tradição de serem seus arautos. Que, se preciso for, nosso Senhor nos humilhe ainda mais para que reconheçamos nossa inaptidão para o reino de Deus e magnitude da graça que nos torna cidadãos desse mesmo reino!

SOBERANIA DE DEUS 'VERSUS' RESPONSABILIDADE HUMANA

Outra área em que a falta de equilíbrio teológico é sentida na igreja brasileira dos nossos dias é um ponto que, de fato, é delicado e de difícil lida – o que torna o equilíbrio ainda mais necessário. Trata-se da relação entre a “soberania de Deus” e a “responsabilidade humana”. Por exemplo, Deus ordena que o Faraó liberte os israelitas: “Foram Moisés e Arão e disseram a Faraó: Assim diz o Senhor, Deus de Israel: Deixa ir o meu povo, para que me celebre uma festa no deserto” (Ex 5.1). Contudo, antes que a ordem chegasse a Faraó, Deus, soberanamente, o impediu de atendê-la: “Mas eu lhe endurecerei o coração, para que não deixe ir o povo” (Ex 4.21). Apesar de o próprio Deus lhe endurecer o coração, o Faraó sofreria as consequências de desobedecer: “Digo-te, pois: deixa ir meu filho, para que me sirva; mas, se recusares deixá-lo ir, eis que eu matarei teu filho, teu primogênito” (Ex 4.23).

A pergunta que surge diante dessa aparente contradição é natural: “Se Deus decretou a desobediência do Faraó, como é que o mesmo Deus o condena por desobediência?”. Na verdade, essa questão é tão antiga que Paulo a tratou na carta aos Romanos. Depois de dizer que Deus tem “misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz” (Rm 9.18), ele supõe o questionamento dos ouvintes: “Tu, porém, me dirás: De que se queixa ele ainda? Pois quem jamais resistiu à sua vontade?” (Rm 9.19). A dificuldade é que, em lugar de esclarecer a dúvida de todos nós, Paulo simplesmente coloca seus leitores no devido lugar que lhes cabe, afirmando que Deus tem pleno direito de, na posição de Criador, fazer o que planejou sem dever explicações ao homem: “Quem és tu, ó homem, para discutires com Deus?! Porventura, pode o objeto perguntar a quem o fez: Por que me fizeste assim? Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra?” (Rm 9.20,21).

Essa ausência de resposta – mas não ausência de direção – tem feito teólogos, ao longo da história, proporem soluções que expliquem o dilema. Porém, sem equilíbrio, muitas dessas “soluções” têm causado danos nos pontos mais nobres e sensíveis da revelação. Isso porque algumas “soluções” são encontradas mais ou menos assim: “Se a soberania de Deus e responsabilidade do homem não combinam, descarte uma delas!”. Esse desequilíbrio tem gerado posições realmente prejudiciais à Sã Doutrina.

Em uma vertente há o hipercalvinismo. O hipercalvinista é alguém que afirma a soberania de Deus negando a responsabilidade humana. Afirma que a justificação do eleito se dá antes do seu nascimento, de modo que ele nem sequer nasce culpado, mas justo – apesar de nascer pecador. Logo, nem é preciso arrependimento ou conversão. Seu estado de justificação o precede e não exige dele nem a salvação pela fé, nem o processo de santificação comum à vida de quem é salvo. Na verdade, segundo a posição hipercalvinista, nem é necessária a pregação do Evangelho para a salvação do eleito, pois ele já nasce salvo. Essa doutrina absurda e destrutiva só não é pior porque não encontra muitos defensores na igreja atual.

Do outro lado estão o arminianismo e o teísmo aberto. Esses negam a soberania de Deus a fim de preservar a responsabilidade humana. O arminiano não o faz abertamente. Como um mágico com seus espelhos, ele faz jogos com palavras a fim de negar o controle divino dos acontecimentos, sem dizer com todas as letras que Deus não é soberano. Diz: “Deus faz sua vontade, mas o homem também tem de querer”; “Deus escolhe, mas somente àqueles a quem ele sabe que irá crer”; “Deus decreta, mas não obriga ninguém a fazer o que não quer” – afirmações tão incoerentes e infantis que só podem ser defendidas por alguém realmente decidido a negar a soberania. Seu irmão, o teísta aberto, também chamado neoteísta, é mais coerente, porém, mais perigoso. Ele nega abertamente a soberania de Deus, afirmando que “um Deus que controla não é um Deus que ama” e que “se Deus tem propósito no sofrimento, ele é, então, o diabo”. Para afirmar que Deus não tem nenhum controle sobre a história, nem qualquer prerrogativa que diminua a liberdade humana, chega a negar que o Senhor conhece o futuro – já que conhecer o futuro significa limitar a liberdade do homem de escolher aonde quer chegar. No final, Deus nem sequer seria Deus. É uma posição horrível e maligna (2Pe 2.1). O pior é que há muitos adeptos dessas heresias – mesmo nas igrejas históricas – e o número tem crescido à medida que a Bíblia tem sido deixada de lado.

Em contraposição a isso tudo, o calvinismo, apesar de frequentemente ser tachado de “orgulhoso”, mantém uma posição que exige humildade e fidelidade a Deus e à sua Palavra. Dizem os calvinistas: “Eu não sei como exatamente se relacionam a soberania de Deus e a responsabilidade humana – sou homem e sei que meu pensamento não é tão alto como o do meu Senhor (Is 55.8,9; Rm 11.33-36). Mas sei que Deus comanda tudo (Lc 12.32; Rm 9.11,16; Ef 1.4,5,11; Ef 2.8; 2Tm 1.9) ao mesmo tempo que valoriza a obediência e pune com justiça a rebeldia do homem (Jo 6.27-29; Rm 2.7; 1Co 9.24-27; 1Co 15.58; Gl 6.7-9), ainda que decretada por Deus (Ex 10.1; Js 11.20; 2Cr 36.13; Is 63.17; Jo 12.40; Rm 11.8-10; 2Ts 2.11,12; 1Pe 2.8). Creio nisso porque as Escrituras afirmam as duas verdades (Fp 2.12,13). Quando me perguntam como exatamente elas se relacionam, respondo com humildade: ‘Não sei’! Porém, ainda que isso me custe a imagem pessoal, defendo o que a Bíblia ensina e o que Deus revelou de si”. Aqui está o equilíbrio teológico nessa questão: defender o que as Escrituras defendem. Mesmo que balancemos um pouco diante das dificuldades, dos conflitos e das tensões, quem nos equilibra e sustenta é o próprio Deus que nos deu sua Palavra inerrante.

LEGALISMO 'VERSUS' ANTINOMISMO

Alguém já disse que “vida cristã é teologia posta em prática”. Assim, desequilíbrios e exageros teológicos influenciam também o dia a dia dos cristãos. Nesse campo, uma dificuldade é conciliar os conceitos da santificação e da liberdade cristã. Sem encontrar o equilíbrio doutrinário que acomoda os dois valores, pessoas têm, do mesmo modo que em outras áreas, valorizado um deles e desprezado o outro. Os resultados são afrontosos para a graça de Deus e vergonhosos para a igreja cristã.

De um lado, há os que valorizam a santificação ignorando a liberdade que temos em Cristo. O resultado é o que chamamos de legalismo. O legalista acredita que Deus só aceita pessoas que, com suas ações, se tornam dignas de estar com ele. Nesse sentido, duas vertentes surgem nas igrejas. A primeira é a judaizante. Trata-se de grupos que querem merecer o céu por meio da guarda da lei judaica. Guardam o sábado – ou o domingo –, evitam alimentos considerados imundos pelo código mosaico e acreditam que são o Israel dos dias modernos. A outra vertente guarda regras que são fruto da sua própria imaginação ou da interpretação superficial e equivocada das Escrituras. Esses costumam atrelar a salvação e a santificação a regras do tipo: “O homem não pode usar bermuda”, “a mulher não pode usar calça”, “o homem não pode ter barba”, “a mulher não pode cortar o cabelo”, “é proibido ter televisão em casa”, “é obrigatório usar véu na igreja”. É claro que nem um nem outro conseguem guardar tais leis, ignorando que essa falha é fatal para seu sistema doutrinário: “Pois qualquer que guarda toda a lei, mas tropeça em um só ponto, se torna culpado de todos” (Tg 2.10).

Apesar de isso tudo ser contrário ao ensino bíblico, é impressionante como as pessoas ficam fascinadas pelo legalismo (Gl 3.1-5) e como membros de igrejas históricas têm se encantado por programas de televisão do Adventismo do Sétimo Dia. Junto com informações bíblicas, históricas e arqueológicas, esses programas ensinam a busca de Deus por meio da obediência à lei de Moisés – como um veneno insípido e inodoro dentro de uma bebida aprazível. Conheço até pastores batistas que afirmam que o crente pode guardar a Lei se quiser.

De outro lado, há os que desprezam o legalismo, mas valorizam um tipo distorcido de liberdade cristã. Quem faz isso segue um sistema perverso chamado antinomismo. Segundo o significado da palavra, o antinomista é alguém que se opõe à lei. Na prática, é uma pessoa que despreza qualquer tipo de norma bíblica para viver o que ele “imagina” ser a liberdade cristã, caindo, contudo, em uma vida totalmente desregrada e dissoluta. Esses têm por característica se apresentar como pensadores à frente do seu tempo. Como em um tipo de gnosticismo, negam a interpretação normal da Bíblia, os séculos de história da igreja e da teologia cristã e quaisquer traços que os façam parecer com a igreja de outros tempos.

Normalmente assentados sobre a teologia liberal e filosofias de homens incrédulos e inimigos de Deus, defendem que o Senhor não se importa com o que o homem faz. Distorcem o caráter de Deus para lhe suprimir a justiça e lhe maquiar com um amor permissivo e perverso que, a exemplo do “falso deus” do livro A Cabana, considera até os piores incrédulos como “apenas alguns dos meus meninos se mostrando e fazendo beicinho” (W. P. Young, A Cabana, p.81). O ápice da demonstração desse desregramento se dá no campo do relacionamento sexual. Por isso, cada vez mais se veem com normalidade jovens que mantêm relacionamento sexual fora do casamento, pessoas não casadas que vivem juntas sem qualquer acanhamento e até casais que trocam de parceiros na sua intimidade, tudo isso diante da “vista grossa” de igrejas que se dizem “amorosas” e “sábias” – gostaria eu de dizer que essa é uma característica singular das igrejas emergentes e não de igrejas ligadas a denominações históricas.

Em lugar dessas mazelas, as Escrituras equilibram os dois conceitos em uma vida santa de verdadeira liberdade. Em primeiro lugar, o Novo Testamento informa que a lei condena o homem a fim de ele se sentir necessitado de Cristo (Rm 3.20; 5.20; 7.7; Gl 3.22,24), que ela aponta para realidades que seriam cumpridas em Cristo (Cl 2.16,17) e que ninguém pode ser salvo pela guarda de lei (Mc 7.9; Rm 3.28; Gl 2.16,21) – o Novo Testamento não apenas abole a lei como o modo de servir a Deus depois de Cristo (Rm 6.14; Hb 7.12; 8.13), como condena terminantemente a guarda dos estatutos da lei mosaica (Gl 3.10; 4.9-11; 5.2-4; Cl 2.20-23). Reprovando o legalismo instaurado por falsos mestres judaizantes nas igrejas da Galácia, Paulo diz: “Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão” (Gl 5.1).

A Palavra de Deus balanceia a abolição do legalismo com o ensino do que é a verdadeira liberdade cristã – não sendo “ausência” de senhor, mas “mudança” de senhor:Agora, porém, libertados do pecado, transformados em servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação e, por fim, a vida eterna” (Rm 6.22 – ver Rm 6.18; 1Co 7.22). Assim, não cabe, na vida de liberdade do pecado, viver novamente sob seu domínio: “Que diremos, pois? Permaneceremos no pecado, para que seja a graça mais abundante? De modo nenhum! Como viveremos ainda no pecado, nós os que para ele morremos? (Rm 6.1,2 – ver 2Pe 2.18,19). Por isso, estão longe de servir a Deus aqueles que usam o conceito da liberdade para viver desregradamente: “Como livres que sois, não usando, todavia, a liberdade por pretexto da malícia, mas vivendo como servos de Deus” (1Pe 2.16). O mesmo Paulo, na carta em que disse “não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão” (Gl 5.1), demonstrou equilíbrio teológico e completou: “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne” (Gl 5.13).

RIGOR EXTREMADO 'VERSUS' PERMISSIVIDADE

O próximo ponto em que o desequilíbrio teológico se faz notar é muito parecido com o anterior, mas tem certas peculiaridades que o distinguem. Enquanto a falta de equilíbrio que produz o legalismo e o antinomismo leva a posições heréticas que desfiguram o cristianismo e a igreja – dando origem a seitas, inclusive –, a questão agora abordada se dá no seio da igreja verdadeira, a qual repele as heresias e mantém a ortodoxia. Assim sendo, esse problema não vejo exatamente em seitas e movimentos paraeclesiásticos, mas dentro da minha própria igreja – muitos pastores dirão o mesmo. Nesse caso, a questão do desequilíbrio teológico não está em interpretar hereticamente as Escrituras, mas em supervalorizar certos ensinos e suprimir outros, produzindo posições e condutas dentro da igreja cristã que certamente não foram pretendidas ou exemplificadas por nosso Senhor – normalmente, servindo de motivação ou de desculpa para que cada um dê vazão ao seu próprio caráter em lugar de submetê-lo a Cristo.

A balança pesa entre as orientações a respeito da disciplina e do amor. No primeiro caso, certo número de pessoas valoriza a disciplina bíblica, a santidade e o testemunho cristão – todas essas coisas são fundamentais para a igreja. O problema não é valorizar tais bens, mas valorizá-los anulando a paciência amorosa que se tem no processo de santificação alheio e em certas coisas que, apesar do desenvolvimento cristão, as pessoas não conseguirão resolver ou abandonar até que sejam glorificadas. O resultado de se anular a paciência (1Co 13.4), a esperança (1Co 13.7), o perdão (Lc 17.3,4) e a disposição de suportar os irmãos (Cl 3.13) produz um traço desse desequilíbrio: o rigor extremado. Nesse caso, tais irmãos vivem certo tipo de perfeccionismo – normalmente não aplicado a elas mesmas, mas somente aos outros – no qual ninguém obtém a aprovação de quem é rigoroso. A roupa nunca está boa, a pessoa nunca canta bem o suficiente, as outras famílias sempre têm defeitos, as crianças nunca são educadas e o jeito dos outros sempre incomoda – ninguém é digno ou bom suficiente para agradar os que são extremamente rigorosos, a não ser, talvez, parentes e amigos. Os líderes da igreja também são alvos desses carrascos: o pastor não prega bem, o diácono se veste mal e os dirigentes de departamentos não fazem bem o trabalho como elas fariam. Por causa disso, uma exortação vinda de qualquer um deles é considerada como uma ofensa de morte e nunca como um necessário remédio contra o pecado e contra a rebeldia diante de Deus. É muito difícil conviver com gente assim – a igreja toda sofre. Estão sempre de cara feia, sempre em uma postura de quem está julgando e reprovando tudo.

Por outro lado, há os que, repudiando essa postura insuportável e destrutível de rigor extremo, assumem a postura de valorizam o amor, a paciência e a compreensão, mas ignoram a santidade da igreja e a disciplina bíblica. O resultado é outro extremo do desequilíbrio: a permissividade. Para tais pessoas, disciplinar o pecado obstinado de alguém é sinal de falta de amor, pois, para elas, é melhor o pecador que não se arrepende estar dentro da igreja que fora – ignoram o fato de que isso afeta toda a igreja e promove mais pecado e mau testemunho (1Co 5.6-8; 15.33; Gl 5.9; 2Tm 2.17). Os permissivos se esquecem de que ignorar o pecado não é sinal de amor, mas sim um ato de desobediência à ordem de Jesus de disciplinar o erro para que aja correção, no caso de arrependimento, e proteção da igreja, no caso de obstinação (Mt 18.15-17). Tratam a igreja como se fosse um clube no qual as pessoas vão para se divertir e que não importa o que fazem fora dali. São normalmente movidas a isso por uma ingenuidade teológica e um desconhecimento assustador das Escrituras ou por medo de terem seus próprios pecados tratados pelos outros caso apontem os erros de um irmão. De qualquer modo, essa postura é tão danosa quanto a primeira. Enquanto a primeira posição, o rigor extremado, é pecado e cria um ambiente destrutivo, a segunda, a permissividade, abre as portas para o pecado e para a atuação do inimigo no meio dos crentes.

O curioso é que, em certos casos, alguns irmãos mantêm um tipo de esquizofrenia em que são, por um lado, rigorosas para com aqueles de quem não gostam muito e, por outro, permissivas para com os amigos. Ou, pior – e mais comum –, rigorosas com os outros e indulgentes consigo mesmas. Naquilo em que querem que os irmãos sejam pacientes para com elas, demonstram extrema impaciência e falta de empatia no caso dos outros. Tais pessoas têm muita dificuldade em notar suas próprias fraquezas. Ao lerem esse texto, provavelmente dirão “exatamente... aquele outro irmão é desse jeito”, ou, ao compreendê-lo, manterão a autoindulgência e serão rigorosas com o pastor – isso é uma certeza quase matemática. De qualquer modo, esses também são traços de um desequilíbrio pecaminoso.

O equilíbrio é encontrado nas Escrituras quando associamos todos os seus ensinos e decidimos não ignorar nenhum deles – releia os textos bíblicos, um por um, apontados acima. Apesar de ser uma tarefa árdua lidar com tensões desse tipo, Paulo nos ajuda muito nessa questão ao dizer aos cristãos da Galácia: “Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós, que sois espirituais, corrigi-o com espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado” (Gl 6.1). Aqui, Paulo enfatiza a necessidade da disciplina bíblica, mas feita de certo modo a conter o amor cristão, o tratamento benigno e o objetivo de corrigir e restabelecer o pecador, ao mesmo tempo que se está atento à sua própria condição. As soluções extremas ficam reservadas para condições extremas. Para as situações mais frequentes do dia a dia, o indicado é o equilíbrio bíblico entre o amor cristão e a santidade daqueles que foram chamados para ser santos. Essa será, certamente, uma guerra de batalhas diárias. Porém, o benefício não será somente o equilíbrio teológico, mas uma vida equilibrada pelos ensinos e exemplos do Mestre.

VERDADE SEM VIDA 'VERSUS' VIDA SEM VERDADE

Posições extremas são comuns em todas as esferas da vida humana. Não que não haja situações extremas em que posições radicais sejam exigidas. A dificuldade é ter sabedoria para reconhecer essas situações, assim como aquelas que exigem reações e posições mescladas de mais de um tipo de valor. A tensão entre a fé e as obras no âmbito da vida cristã é uma dessas situações que exigem equilíbrio e valorização de tudo que a Bíblia encarece, mas que, infelizmente, testemunha extremismos perniciosos dos dois lados.

Por um lado, há um grupo formado por pessoas que se lançam à busca de um aprendizado teológico em níveis cada vez mais avançados. Eles tentam fazer jus ao legado dos teólogos do passado, os quais abriram clareiras enormes na floresta teológica que há nas Escrituras. Nesse grupo se encontram teólogos, tradutores, exegetas, professores, apologistas, escritores e pessoas apaixonadas pelo estudo da Bíblia, da hermenêutica, da história de Israel e da história da igreja cristã. Mas, apesar de isso ser bom e necessário à igreja, há aqueles que fazem disso uma finalidade em si mesma. Assim, eles subvalorizam totalmente a prática da vida cristã, esquecendo-se que do conhecimento da verdade deve obrigatoriamente brotar uma vida exemplar – vale lembrar que a Bíblia associa a integridade doutrinária à frutificação de boas obras (Tt 2.7,8).

Podemos nomear tal posição como verdade sem vida, ou seja, uma busca pela verdade revelada sem permitir que ela produza uma vida nova e operosa no amor de Cristo e no testemunho do evangelho. São plantas bem regadas que só produzem galhos secos. Normalmente, tais pessoas desenvolvem um orgulho muito grande, têm um conceito altíssimo de si mesmos e tendem a desprezar todos os que são diferentes deles e os que não chegaram ao seu nível de aprendizado – se é que realmente o atingiram. Essa não é uma situação nova, já que as gerações posteriores à Reforma Protestante acabaram por desenvolver uma atitude semelhante. Esta, aliás, teve de ser corrigida em movimentos como o puritanismo e o pietismo, que enfatizaram a santidade e transformação de vida e a comunhão com Deus.

Por sua vez, o segundo grupo valoriza a atuação cristã em detrimento do estudo teológico, cuja posição podemos classificar de vida sem verdade. Esses, normalmente desqualificados como teólogos e exegetas, tendem a desprezar o conhecimento que não têm – como na fábula da raposa que despreza as uvas inalcançáveis. Por isso, desprezam a teologia, os seminários, as línguas originais e até o hábito da leitura. O evangelho, para eles, não passa de atividades religiosas e de assistencialismo cristão. “Basta amar”, pensam. Quanto aos integrantes dessa posição, trata-se de um grupo bastante heterogêneo. Parte desse grupo se apresenta como “intelectual”, buscando sabedoria não na Bíblia, mas em meios puramente seculares. Outra parte é formada por pessoas que ignoram qualquer tipo ou veículo de conhecimento e suas práticas religiosas se baseiam inteiramente na intuição e no desejo de interagir com o sobrenatural.

Os integrantes desse grupo de “vida sem verdade” costumam citar erroneamente e fora de contexto os dizeres de Paulo: “A letra mata, mas o espírito vivifica” (2Co 3.6). Citam esse texto como se o assunto não fosse a reprovação do legalismo, mas a reprovação do estudo bíblico – quem fala uma bobagem desse tipo, realmente precisa estudar a Bíblia. Eles têm muita garra, mas pouco ou nenhum entendimento – para eles, pode-se aplicar a avaliação de Paulo sobre os judeus dos seus dias: “Eles têm zelo por Deus, porém não com entendimento” (Rm 10.2). O fato é que não é verdade que Deus está interessado apenas nas intenções e no esforço das pessoas. Ele quer que suas orientações, registradas em sua Palavra, sejam obedecidas. Por isso, apesar da operosidade, a ignorância bíblica faz com que o esforço desses se perca em ações maldirecionadas e, às vezes, prejudiciais à causa do Mestre.

As Escrituras dão o tom do equilíbrio sobre que pilares devem sustentar a vida da igreja de Cristo. A Sã Doutrina é um desses pilares (Tt 2.1) e desprezá-la significa abrir a porta ao erro e ao pecado (1Tm 1.9,10; 2Tm 4.3) – o fato de Paulo encarecer a Sã Doutrina nas cartas a Timóteo e Tito, nas quais fala sobre a prática da igreja, deveria bastar. Assim, esforçando-se para conhecer a verdade revelada (At 17.11; 2Co 4.2; 1Tm 4.13; 2Tm 2.15 – cf. Hb 5.11-14), o crente deve se dedicar à tarefa de manter uma vida operosa (2Co 9.8; Ef 2.10; 2Ts 2.17, Tt 2.14), proclamando as boas novas de Cristo (1Pe 2.9,12) e amando de verdade os irmãos (Hb 10.24; 1Jo 1.7; 2.6). Deve-se lembrar que sem a verdade e sem a correção que a verdade requer e produz, nenhuma “boa obra” é realmente boa (2Tm 2.21; 3.16,17). Resumindo, a maneira correta de encarar a tensão entre fé e obras no dia a dia dos crentes é verdade com vida, ou uma vida dirigida integralmente pela verdade. Portanto, que haja nos crentes verdadeiro equilíbrio “a fim de viverdes de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra e crescendo no pleno conhecimento de Deus” (Cl 1.10).

Pr. Thomas Tronco

 

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