Quarta, 15 de Agosto de 2018
   
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Salmo 94 - O Injusto Diante dos Homens e Diante de Deus

 

Quando eu era criança, me disseram que “é melhor ser a cabeça do rato que o rabo do leão”. A ideia pretendida pelo provérbio popular é que é mais vantajoso ser o melhor de um grupo inferior que, em um grupo de elite, ser o pior, o último deles. Eu nunca vi sentido nisso até que, quando adolescente, vivi algo que me fez pensar a respeito. Eu jogava voleibol em certa categoria em que eu me destacava. Isso me fez crer que eu merecia ser elevado à categoria superior, na qual, na minha mente, eu também me destacaria. Mas, quando aconteceu o que eu desejava, deixei de ser destaque para ser inferior a todos, motivo de piadas e alvo de broncas e mais broncas. Ainda que isso tenha sido bom para mim, fazendo-me crescer mais do que seria possível na categoria inferior, eu entendi o que aquele provérbio queria dizer.

O Salmo 94 não deixa de conter, sob certo aspecto, a mesma lição. O texto não nos informa nem sobre a identidade do escritor, nem sobre o contexto histórico em que foi composto. Contudo, ele guarda semelhanças profundas com o Salmo 10, outro salmo anônimo, em que os ímpios fazem o mal abertamente, ignorando o pleno conhecimento de Deus da situação e sua inevitável ação de julgar. Do modo como aqui é exposto, a dupla realidade do ímpio é posta sob aspectos diferentes. Por um lado, ele é descrito em sua ação diante dos outros homens, sobre os quais ele se eleva e age como se ninguém pudesse detê-lo ou julgá-lo – a “cabeça do rato”. Porém, por outro lado ele é pintado, diante do juiz eterno e Deus soberano, como alguém desfavorecido e fraco, incapaz de evitar sua punição final – o “rabo do leão”. Quem escreve o salmo é um homem sofrendo na mão de ímpios, motivo pelo qual o salmo é uma oração por libertação e por punição dos maus. Assim, quatro verdades sobre o ímpio são retratadas no texto.

A primeira verdade é que diante dos homens os ímpios se vangloriam da maldade (vv.1-4). O pecado dos ímpios transparece desde o clamor inicial do salmista (v.1): “Ó Senhor, Deus das vinganças. Manifesta-te, Deus das vinganças” (’el-neqamôt yhwh ’el-neqamôt hôfîa‘). Fica claro que essa maldade estava apontada na direção do próprio salmista. Ao se referir a Deus como “Deus das vinganças”, é mais ou menos como chamá-lo de “Deus da justiça”, ou seja, alguém que pune o mal e retribui a perversidade com juízo (v.2): “Levanta-te, ó juiz da Terra. Traga a merecida punição aos soberbos” (hinnase’ shofet ha’arets hashev gemûl ‘al-ge’îm). O que, a princípio, parece um sentimento vingativo e rancoroso do salmista, se explica na descrição da maldade dos ímpios. Em lugar de agirem perversamente de modo oculto e dissimulado, esses homens faziam o mal abertamente. Em primeiro lugar, sua maldade não era motivo de vergonha para eles, mas de engrandecimento (v.3): “Até quando os ímpios, ó Senhor? Até quando os ímpios exultarão?” (‘ad-matay resha‘îm yhwh ‘ad-matay resha‘îm ya‘alozû). Em segundo, ao agir com violência, eles se vangloriavam do seu mal, demonstrando um sentimento de aprovação total do seu sistema corrompido de vida e completo desprezo pelos outros homens (v.4): “Eles vomitam palavras arrogantes. Vangloriam-se todos aqueles que praticam a iniquidade” (yavvî‘û yedavverû ‘ataq yit’ammerû kol-po‘alê ’awen).

A segunda verdade é que diante dos homens os ímpios têm certeza da impunidade (vv.5-11). O salmista especifica, agora com ênfase, que tipo de maldades praticam os maus até mesmo contra as pessoas mais indefesas (vv.5,6): “Eles oprimem o teu povo, ó Senhor, e afligem a tua herança. Matam a viúva e o estrangeiro e assassinam os órfãos” (‘ammeka yhwh yedakke’û wenahalateka ye‘annû ’almanâ weger yaharogû wîtômîm yeratsehû). Apesar de, com isso, se tornarem merecedores do juízo de Deus, eles parecem não achar que Deus se manifeste nesse sentido. Talvez nem acreditassem na existência de Deus, pois, em lugar de terem temor, zombavam da ideia da punição divina (v.7): “Mas eles dizem: O Senhor não vê [nada disso] e o Deus de Jacó não toma conhecimento” (wayyo’merû lo’ yir’eh-yyah welo’-yavîn ’elohê ya‘aqov). Essa é a mesma irreverência tola exposta em outro salmo: “Alardeiam de boca; em seus lábios há espadas. Pois dizem eles: Quem há que nos escute?” (Sl 59.7). Desse modo, eles demonstram ter plena certeza da impunidade dos seus atos. É claro que a base dessa falsa esperança não encontra bases na realidade, fazendo com que sejam considerados plenamente tolos aqueles que acham que ficarão impunes. Por isso, o salmista faz questão de afirmar que Deus, como criador poderoso, ouve todas as coisas (v.9), que ele conhece sim e se importa com o que é feito, punindo a maldade (v.10) e que é tão onisciente que conhece até mesmo os pensamentos e os propósitos mais íntimos do homem (v.11).

A terceira é que diante de Deus os ímpios são frágeis e desamparados (vv.12-19). Se os injustos se exaltam diante dos homens, diante de Deus a realidade é outra. Não importa o que eles pensam a respeito de si, mas, sim, o que Deus pensa a respeito deles. Por isso, o salmista muda a figura – lembrando muito o Salmo 1 – mostrando que o homem que aprende a Palavra de Deus e é corrigido a fim de se tornar cada vez mais obediente e santo é aquele que realmente é feliz (v.12): “Feliz é o homem a quem tu advertes, ó Senhor, e ensinas a tua lei” (’asrê haggever ’asher-teyasserennû yyah ûmittôrateka telammedennû). Tal felicidade transparece na forma de consolo nos tempos de dificuldade (v.13) e de segurança na manutenção da união com Deus (v.14). Esse tratamento benéfico não é concedido aos ímpios. Enquanto os servos de Deus são amparados, instruídos e corrigidos, os maus aguardam o dia de serem abatidos de modo a se parecerem com cadáveres que são enterrados (v.13): “Até que seja aberta uma cova para o ímpio” (‘ad yikkareh larasha‘ shahat). Desse modo, há uma antítese entre o tratamento divino aos seus servos e aos injustos. Se os servos de Deus têm a quem recorrer quando são perseguidos (v.16), têm proteção nos momentos mais perigosos e desanimadores (v.17) e têm em Deus um sustentador (v.18) e um consolador (v.19), os ímpios não têm nada disso, ficando à mercê do desamparo, fracos diante da ira do Senhor.

A última verdade é que diante de Deus os ímpios serão condenados no futuro (vv.20-23). Se os ímpios são agora desamparados por Deus, é também certo que eles perceberão que suas ilusões de poder e de impunidade não passam de falsidades que não os protegerão de perecer no dia do juízo. Isso é verdade porque há um abismo entre o Deus santo e o homem perdido, pelo que o salmista propõe uma pergunta retórica cuja resposta é um sonoro “não” (v.20): “Acaso, se associa contigo [o que se assenta no] trono da injustiça, aquele que forja a maldade em nome da lei?” (hayhovreka kisse’ hawwôt yotser ‘amal ‘alê-hoq). Fazer o mal por meio de decretos oficiais é uma atividade típica de líderes corruptos, de modo que o salmista dá a entender que está sendo perseguido por pessoas de cargo público em Israel, talvez príncipes, juízes e, possivelmente, até o rei – motivo, talvez, de o salmista ter associado seus perseguidores à figura de um trono, o “trono da injustiça”. Esse homens, em lugar de proteger os inocentes, os acusavam e condenavam (v.21). Entretanto, mesmo diante de um quadro tão perturbador, o escritor tem confiança em Deus como juiz justo, libertador e protetor diante do perigo promovido pelos maus (v.22). A consequência desses fatos é que Deus protegeria seus servos e não seria indiferente à perversidade dos injustos, trazendo sobre eles, no momento certo, a devida e merecida condenação (v.23): “Mas ele os punirá por sua perversidade” (wayyashev ‘alêhem ’et-’ônam) – literalmente: “mas fará voltar sobre eles a sua perversidade”, apontando para a paga do mal, a vingança requerida no início do salmo. A ideia se completa com dizeres que apontam para uma destruição completa: “E ele os destruirá por sua maldade. O Senhor, nosso Deus, os destruirá” (ûbera‘atam yatsmîtem yatsmîtem yhwh ’elohênû).

Que lições atuais esse salmo contém! Por um lado, há o ensino de que, ainda que o mundo hoje ignore os avisos de Deus, haverá punição para o pecador impenitente. Todos comparecerão diante dele e terão seus pecados avaliados e condenados caso não tenham Cristo como salvador. Mesmo aquelas pessoas que imaginam que, ao ignorarem a existência e santidade de Deus – como criancinhas que querem se esconder pondo as mãos sobre o rosto –, a verdade é que Deus vê a todos e, também, aos seus pecados. Ele não ignorará nada que foi feito. Por outro lado, há um encorajamento sem tamanho para aqueles que já se tornaram, pela fé em Cristo, alvos da graça redentora do Senhor. Mesmo que sejam injustiçados agora, verão a justiça no futuro. Mesmo que sejam perseguidos, terão paz. Ainda que mintam sobre eles, o Deus da verdade os vindicará. Mesmo que sofram no presente, conhecerão o pleno alívio na vida futura. Apesar das tristezas que os cercam, são felizes por serem instruídos por Deus e o serão ainda mais, vivendo na presença do santo criador. E ainda, diante dos homens maus que promovem a injustiça, podem prosseguir esperando o sustento divino no presente até chegar o dia em que todos verão que o menor no reino dos céus é maior e mais feliz que os cabeças do mundo terreno.

Pr. Thomas Tronco

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