Domingo, 21 de Outubro de 2018
   
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Salmo 98 - O Reconhecimento da Atuação Divina

 

Um dos frequentes impulsos do ser humano que podem ser testemunhados por todos é a busca por reconhecimento e por admiração. Sempre que acontece alguma coisa boa, que um projeto termina com êxito ou que uma vitória seja obtida não faltam aqueles que irão clamar para si a responsabilidade pelo sucesso. Nesse sentido, assisti, certa vez, a um documentário sobre um jogador de futebol famoso no qual muita gente que fez parte da sua história foi entrevistada e deu depoimentos emocionados. Foi muito interessante, ao longo do programa, conhecer a origem simples do jogador, sua luta com todo tipo de dificuldade e privação e o vislumbre, ao final, do êxito de uma vida sofrida e dedicada. Mas o que me chamou mesmo a atenção foi o esforço de cada entrevistado de transmitir a ideia de ter sido fundamental no crescimento do atleta. Cada um dizia como o aconselhou, treinou, conduziu e amparou. Na maioria desses relatos ficava patente a intenção dessas pessoas de atrair a admiração do público para si. Eles queriam ser responsabilizados e reconhecidos como responsáveis pelo êxito, de modo que o País lhes devia gratidão. Em alguns casos, essa atitude chegou a nublar um pouco o talento e a garra do jogador, como se eles fossem meras consequências das ações de terceiros.

O Salmo 98 é um exemplo diametralmente oposto a essa atitude de busca por glória pessoal por conta do sucesso de um empreendimento. O salmista anônimo, em uma reação exultante, trabalha para levar o povo a louvar a Deus por seus feitos. Ao fazê-lo, ele centraliza o próprio Deus, colocando a si mesmo e aos seus leitores como espectadores da gloriosa atuação divina e como admiradores do soberano Senhor. Na verdade, esse salmo trata somente do louvor ao Deus digno de toda a adoração, como se dissesse sem palavras que, diante do louvor ao Rei eterno, todos os outros assuntos e preocupações perdem o valor e devem ser deixados em segundo plano. Assim, o salmista acaba por apresentar três abordagens teocêntricas advindas da observação do êxito das ações de Deus.

A primeira abordagem teocêntrica exemplificada pelo salmista é o reconhecimento da ação soberana de Deus (vv.1-3). O salmo inicia com um chamado geral ao louvor (v.1): “Cantai ao Senhor um cântico novo” (shîrû layhwâ shîr hadash). Ele quer que o povo renove sua adoração a Deus, demonstrando, com isso, ser essa uma ocasião especial. Tal iniciativa de oferecer a Deus algo novo, nada parecido com uma religiosidade repisada e pálida, tem um motivo bem específico declarado pelo texto: “Pois ele fez maravilhas. A sua destra e o seu santo braço conseguiram salvar” (kî-nifla’ôt ‘asâ hôshî‘â-lô yemînô ûzrôa‘ qodshô). Assim como no Salmo 96, o salmista deseja oferecer a Deus um cântico novo pela “salvação” que ele promoveu. Parece se tratar de uma libertação militar diante de uma nação estrangeira com seus exércitos. É possível até que os dois salmos – 96 e 98 – tenham o mesmo autor e o mesmo pano de fundo histórico.

Sendo assim, é notória a disposição do salmista de render a Deus a responsabilidade dos feitos maravilhosos de libertação em lugar de ficar se congratulando pela capacidade humana do exército israelita ou comemorando vitórias pessoais. Nesse caso, a vitória e libertação de Israel não abrem caminho para um tempo de homenagens a líderes e soldados, mas para o reconhecimento e o louvor do Senhor dos exércitos que, além de salvar seu povo, puniu com justiça o inimigo (v.2): “O Senhor deu a conhecer a sua salvação. Ele manifestou a sua justiça diante dos olhos das nações” (hôdîa‘ yhwh yeshû‘atô le‘ênê haggôyim gillâ tsidqatô). O escritor rende esse resultado à fidelidade de Deus às promessas que fez e ao amor leal que tem por seus servos, de modo que sua atuação se fez conhecer por toda parte (v.3): “Ele se lembrou da sua lealdade e da sua fidelidade para com a casa de Israel. Todos os confins da Terra viram a salvação do nosso Deus” (zakar hasdô we’emûnatô levêt yisra’el ra’û kol-’afsê-’arets ’et yeshû‘at ’elohênû).

A segunda abordagem é a dedicação ao louvor do Rei (vv.4-6). Sendo o Senhor o responsável pela vitória israelita e por sua preservação, o salmista se aplica a conduzir o povo a uma adoração totalmente focalizada em Deus com dedicação e comprometimento máximo por parte dos adoradores. O chamado é feito a toda a Terra (v.4): “Aclamai ao Senhor toda a Terra. Jubilai, exultai e cantai louvores” (harî‘û layhwh kol-ha’arets pitshû werannenû wezammerû). A repetição final desse texto com três ordens sinonímicas enfatiza a dedicação e a pureza com que o louvor deve ser oferecido, além da atitude alegre e vibrante condizente com a gratidão que deviam a ele por sua bondade.

Por essa razão, o louvor não previa limites. Todas as formas, interiores e exteriores seriam empregadas, tanto júbilo no íntimo do coração como um culto público exultante marcado pelo uso de todos os recursos que possuíam (v.5,6a): “Cantai louvores ao Senhor com harpa, com harpa e ao som de música, com cornetas e toque de trombeta” (zammerû layhwh bekinnôr bekinnôr weqôl zimrâ bahatsotserôt weqôl shôfar). Nenhum esforço ou recursos deveria ser poupado, nenhum músico ficaria desocupado, assim como nenhum israelita deveria ficar de fora dessa manifestação pública de louvor. Afinal, eles não ofereceriam essa festa a uma pessoa qualquer, mas a um rei – o Rei (v.6b): “Aclamai diante do rei, o Senhor” (harî‘û lifnê hammelek yhwh). Para um povo que tinha um rei humano e sabia o que era reverência diante do seu monarca, essa ordem final sela o comprometimento, a excelência e a exclusividade do louvor devido a Deus.

A terceira abordagem é o anúncio do julgamento futuro (vv.7-9). O salmista não eleva seus olhos a Deus em louvor somente pelo que ele fez, mas também pelo que irá fazer. Com isso, ele torna o anúncio da glória que será manifesta no futuro um modo de produzir agora louvor a Deus. Assim, ele associa a vitória e a libertação dos seus dias, quando o Senhor também executou juízo sobre os inimigos, como um pequeno exemplo de algo maior que fará no futuro. A salvação dos seus e a punição dos ímpios nos dias do salmista foram um “tipo” do que Deus fará no futuro de modo pleno. Assim, o escritor prevê a atuação poderosa de Deus em uma escala mundial (v.7): “O mar e tudo que nele há farão um barulho estrondoso, [também] o mundo e os que nele habitam” (yir‘am hayyam ûmelo’ô tevel weyoshevê bah). Se o louvor presente devia ser marcante, dedicado e exultante, no futuro não seria diferente.

O salmista prossegue personificando elementos da natureza, como se fossem pessoas em adoração, e anuncia, com isso, um reconhecimento mundial da glória de Deus e um louvor efusivo quando ele vier executar seu juízo (vv.8,9a): “Os rios aplaudirão a uma. Os montes exultarão diante do Senhor, pois ele vem para julgar a Terra” (neharôt yimha’û-kaf yahad harîm yerannenû lifnê-yhwh kî ba’ lishpot ha’arets). “Rios” e “montes” no plural, sem designação de possíveis localidades que o escritor pudesse ter em mente, produzem a ideia de submissão mundial a Deus. Ou seja, essa adoração não virá somente dos israelitas, os quais habitam próximos ao rio Jordão e ao monte Sião, mas de pessoas de toda parte, habitantes próximos a todos os rios e montes da Terra. O salmo termina afirmando não apenas o caráter mundial da atuação de Deus, mas o caráter justo e reto de tal intervenção. O Senhor trará justiça para seu povo e para os demais, em toda parte, fazendo com que seu caráter santo seja o modelo a ser impresso até os confins da Terra (v.9b): “Julgará o mundo com justiça e os povos com retidão” (yishpot-tevel betsedeq we‘ammîm bemêsharîm). Um Deus que tem por propósito executar isso no mundo, onde há pessoas rebeldes por toda parte, deve certamente receber de nós uma adoração grata, exclusiva, dedicada e amorosa. Só ele merece louvor, ninguém mais.

Arrisco-me a dizer que poucas épocas precisaram ouvir tanto essa mensagem como a nossa. A arrogância e a soberba humana são presenciadas em todos os lugares e integram a formação das pessoas desde o berço. Se isso é verdade no contexto do mundo perdido, infelizmente também o é no que tange à igreja. Apóstolos, astros, curandeiros e profetas de um cristianismo falso clamam para si o reconhecimento que cabe só a Deus. Mas, além dessas “aberrações eclesiásticas”, há, mesmo no seio da igreja verdadeira, aqueles que, com técnicas administrativas “infalíveis”, personalidades carismáticas, posturas dinâmicas e “receitas mágicas”, querem ser reconhecidos como crentes especiais, melhores que os demais, responsáveis pelo crescimento e desenvolvimento da igreja e pessoas de quem Deus depende para realizar sua obra. Para esses – e para os demais – deve ficar a lição do salmo escrito por mãos humildes e dependentes da graça de Deus que praticam de verdade o que foi exemplificado por João Batista: “Convém que ele cresça e que eu diminua” (Jo 3.30).

Pr. Thomas Tronco

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