Terça, 16 de Janeiro de 2018
   
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Salmo 99 - A Santidade do Grande Rei

 

Um dos livros de que gostei muito de ler foi o Ilíada, de Homero. Contudo, meu gosto pelo livro não se compara ao de Alexandre, o Grande. Contam que, sendo Ilíada sua obra favorita, ele disse dele: “É a mais perfeita produção humana e o melhor remédio de um guerreiro”. Os historiadores dão conta de que a grandeza e heroísmo das batalhas contadas por Homero inspiraram Alexandre e, entre outros fatores, fizeram dele o conquistador que foi. Por sua vez, Julio César foi inspirado pelo espírito conquistador de Alexandre e, querendo imitá-lo, iniciou uma história de imperadores romanos. Outros líderes, como Carlos XII, da Suécia, e o imperador Selymus, da Turquia, foram marcados pela história e pelos feitos de Alexandre e Julio César, tornando-se, eles mesmos, imitadores dos seus impulsos e guerreiros com o sonho de conquistar o máximo que pudessem. Estranho como a história tão bem escrita por Homero acabou por influenciar pessoas a agirem com dureza e com violência.

O Salmo 99 também fala de alguém cujos atributos influenciam e dão novos rumos à história da humanidade. Muito distante das fraquezas de Aquiles, Heitor, Ulisses e Agamenon, o Senhor Deus é apresentado no salmo como o ser perfeito e ilimitado que influencia todas as eras. Apesar de cada um dos atributos de Deus ter o poder de exercer essa ação transformadora e controladora sobre a história, a característica que sobressai nesse salmo é a sua santidade. Há três afirmações categóricas nesse sentido – duas vezes (vv.3,5) se diz “ele é santo” (qadôsh hû’) e uma vez (v.9) “pois o Senhor, nosso Deus, é santo” (kî-qadôsh yhwh ’elohênû). Ser santo significa existir separado de tudo que é mal. Desse modo, não é muito fácil para nós, pecadores em um mundo mau, observar a santidade do Senhor. Na verdade, o próprio caráter abstrato do conceito da santidade torna difícil para nós o seu vislumbre – se tivéssemos de representar graficamente o conceito, é provável que o melhor que poderíamos fazer fosse apresentar a imagem de uma luz radiante. Entretanto, a santidade de Deus influencia a história na forma de atuações visíveis e interpretáveis. Nesse sentido, o salmista é extremamente feliz ao nos trazer à vista três vislumbres da santidade de Deus durante a história por meio dos efeitos que ela produz.

O primeiro vislumbre da santidade de Deus no decorrer da história humana, presente no Salmo 99, é a vinda gloriosa e temível no futuro (vv.1-3). Assim como nos salmos 93 e 97, esse salmo inicia afirmando o caráter majestoso de Deus e seu efeito sobre a criação, especialmente sobre os homens (v.1): “O Senhor reina, as nações estremecerão. Ele se assenta entre querubins, a Terra tremerá” (yehwâ malak yirgezû ‘ammîm yoshev kerûvîm tanût ha’arets). A gloriosa vinda do Senhor para efetuar julgamento é assunto tratado de igual modo nos dois salmos precedentes. Aqui, também, o fato de o Senhor ser agora um rei poderoso produzirá na Terra temor e tremor. Seria diferente se não houvesse no mundo pecado, nem rebeldia. Contudo, a existência do mal entre os homens redundará em um julgamento futuro, na sua vinda, motivo pelo qual é dito que as nações estremecerão. Ninguém escapará desse juízo, já que o Senhor comanda a história e todos os povos – tanto Israel como as demais nações (v.2): “O Senhor é grande em Sião. Ele é elevado sobre todos os povos” (yhwh betsîyôn gadôl weram hû’ ‘al-kol-ha‘ammîm).

Falando do futuro, o salmista completa com o outro lado da moeda, ou seja, com a reação dos que não serão abalados diante da santidade de Deus, mas comemorarão e o receberão com alegria (v.3): “Eles celebrarão o teu nome grande e temível. Ele é santo” (yôdû shimka gadol wenôra’ qadôsh hû’). Ao dizer “ele é santo”, o escritor parece se referir ao nome de Deus – é ele que aparece na frase ligado a um pronome na terceira pessoa singular, combinando com a cláusula final. Entretanto, citar o nome de Deus é fazer menção a ele como um todo, de modo que não é apenas o nome do Senhor que é santo, mas o próprio Senhor. O que o salmista transmite é a ideia de que “Deus é grande e temível” – grande do ponto de vista de uns e temível do ponto de vista de outros.

O segundo vislumbre é a justiça do seu caráter no presente (vv.4,5). Algo que Israel conhecia muito bem era a descrição do caráter divino. Fosse pelo que aprenderam, fosse pelo que viam Deus fazer, eles sabiam quão cara para Deus era a justiça (v.4): “O rei é poderoso. Ele ama a decisão justa. Tu instituis a equidade. Tu promoves juízo e a justiça em Jacó” (we‘oz melek mishpat ’attâ kônanta mêsharîm mishpat ûtsedaqâ beya‘aqov ’attâ ‘asîta). Apesar de os verbos estarem no tempo hebraico chamado “perfeito” – que normalmente indica o tempo passado –, seu amor pela justiça, que não se limita ao passado, sugere uma realidade contínua que marca todo o versículo. Assim, equidade, juízo e justiça são interesses perenes de Deus em todo tempo, evidências vivas da santidade daquele que é separado de tudo que é mal e corrompido.

Não sabemos o contexto em que o salmo foi escrito, mas é possível que uma atuação no sentido de preservar a justiça no meio do seu povo, protegendo-os de inimigos internos ou externos, tenha sido o que inspirou o salmista a escrever. Essa seria a ação de um rei justo e poderoso que comanda tudo ao seu redor e faz valer sua lei e sua moral, como o próprio Deus é descrito a seguir (v.5): “Exaltai ao Senhor, nosso Deus, e prostrai-vos diante do estrado dos seus pés. Ele é santo” (rômemû yhwh ’elohênû wehishtahawû lahadom raglayw qadosh hû’). Esse “estrado” (ou “escabelo”) é um apoio para os pés que, nas Escrituras, é associado à figura do trono de Deus (Is 66.1), produzindo a ideia do domínio que ele exerce. A razão, mais uma vez, é o resultado de ele ser santo e repudiar o mal, a injustiça e o pecado.

O último vislumbre da santidade divina evidenciada na história é o tratamento do seu povo no passado (vv.6-8). A separação de Deus daquilo que é indigno dele se fez ver muitas vezes na história israelita. Ela se fez ver no uso de intermediários entre Deus e os homens (v.6): “Moisés e Arão, entre os seus sacerdotes, e Samuel, entre os que invocam o teu nome, clamaram ao Senhor e tu lhes respondeste” (mosheh we’aharon bekohanayw ûshemû’el beqor’ê shemô qari’ym ’el-yhwh wehû’ ya‘anem). Esses personagens bíblicos e outros foram veículos das palavras de Deus aos homens e também dos clamores dos israelitas ao Senhor. A clara imagem que se forma em nossa mente é que esse tipo de acesso era restrito a poucos homens, homens escolhidos por Deus, justamente porque a humanidade se viu afastada dele por ser pecadora, enquanto Deus é santo.

Além do mais, a santidade do Senhor ficou expressa ao povo por meio da lei mosaica que tanto evidenciava a perfeita moral divina como a pecaminosidade dos homens (v.7): “Em uma coluna de nuvem tu lhes falaste. Eles guardaram os teus preceitos e o estatuto que lhes deste” (be‘ammûd ‘anan yedavver ’alêhem shamrû ‘edotayw wehoq natan-lamô). Ou Israel se adequava à santidade de Deus ou não podia ter comunhão com ele. O tratamento rendido aos israelitas no decorrer da história bradava a mesma lição, já que era comum observar que quem se arrependia dos pecados era perdoado – a santidade não permite que o homem se concilie com Deus sem que haja perdão e os meios para a efetivação desse perdão – e quem permanecia rebelde era punido – a lei previa punição aos pecadores infiéis (v.8): “Ó Senhor, nosso Deus, tu lhes respondeste. Tu foste para eles um Deus perdoador e um vingador dos seus feitos” (yhwh elohênû ’attâ ‘anîtam ’el nose’ hayîta lahem wenoqem ‘al-‘alîlôtam).

Diante da visão da santidade de Deus e do modo como isso é revertido no relacionamento com o homem em todos os tempos, o chamado no final do salmo é inevitável (v.9): “Exaltai ao Senhor, nosso Deus, e prostrai-vos diante do seu monte santo, pois o Senhor, nosso Deus, é santo” (rômemû yhwh ’elohênû wehishtahawû lehar qodshô kî-qadôsh yhwh ’elohênû). O convite a se curvar diante do “monte santo” de Deus é um chamado duplo. Em primeiro lugar, para reverenciá-lo como Deus, na figura de adoradores se prostrando diante do Templo que marcava a habitação divina no meio de Israel. Em segundo lugar, para servi-lo, como fazem súditos que se prostram ante seu rei, sabendo que em Jerusalém reinaria o santo descendente de Davi prometido por Deus – a quem o Novo Testamento depois identificaria como o Senhor Jesus Cristo: “Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai; ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim” (Lc 1.31-33).

Esse mesmo chamado vale hoje tanto quanto valeu naqueles dias. O vislumbre da santidade do Senhor ainda deve produzir temor e tremor, clamor e reverência, obediência e louvor. Curve-se você também diante do trono do santo Deus e exalte o seu santo nome!

Pr. Thomas Tronco

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