Domingo, 21 de Outubro de 2018
   
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Salmo 104 - A Multiforme Obra de Deus

 

Quando cursei Odontologia, um dos meus primeiros espantos foi saber que cada dente possuía um nome e uma anatomia própria que o faz ser reconhecido mesmo fora da arcada dentária – antes de aprender isso, os dentes, para mim, se dividiam apenas em “dentes da frente”, “dentes do fundo” e “presas”. Mais impressionante foi descobrir que cada um tinha uma forma peculiar a fim de desenvolver uma ação bastante definida. A partir disso, imagine qual foi minha surpresa ao descobrir que o corpo todo tem formas e funções tão específicas e inteligentes que nem uma equipe de engenheiros muito bons poderia conceber. O fato foi que, quanto mais eu conhecia a anatomia, a fisiologia e a bioquímica do corpo humano, mais eu admirava o Senhor como um perfeito, sábio e poderoso criador.

O Salmo 104 narra uma observação parecida. Entretanto, em lugar de analisar o corpo humano, o salmista observa a natureza e, mesmo que tais informações fossem apenas superficiais comparadas ao nosso conhecimento no tempo presente, as conclusões são as mesmas. Isso não é de espantar já que as Escrituras afirmam que “os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas” (Rm 1.20). Dadas as semelhanças, principalmente de abertura e de encerramento, é possível que os Salmos 103 e 104 sejam companheiros e provindos da mesma pena. De qualquer modo, assim como Davi, esse salmista tem um olho observador no que tange àquilo que a natureza revela a respeito do Senhor, de modo que sua observação o leva a uma adoração nada acanhada (v.1,2a): “Que a minha alma bendiga ao Senhor. Ó Senhor, meu Deus, tu és grandessíssimo. Estás revestido de glória e majestade, coberto de luz como se fosse um manto” (barakî nafshî ’et-yhwh yhwh ’elohay gadalta me’od hôd wehadar lavashta). Assim, o salmista faz cinco observações reveladoras sobre a glória de Deus.

A primeira observação é com relação ao tamanho e à perfeição da criação (vv.2-5). A análise começa por uma das mais impressionantes provas do tamanho do poder glorioso de Deus: os céus – deve-se notar que essa é uma referência ao universo como um todo, já que se trata da observação das estrelas (v.2b): “Estendestes os céus como se fossem uma tenda” (noteh shamayim kayrî‘â). “Estendestes” pode também ser traduzido como “desenrolastes”, de modo que o salmista apela para a figura de um homem desenrolando os tecidos de uma tenda para armá-la e colocá-la como proteção sobre a cabeça dos seus – para Deus, criar o universo foi tão fácil como armar uma barraca. A análise lança, agora, os olhos sobre a atmosfera terrestre (v.3): “Construístes nas águas a tua morada, fizestes das núvens a tua carruagem, caminhastes sobre as asas do vento” (hamqareh bammayim ‘alîyôtayw hassam-‘avîm rekûvô hamhallek ‘al-kanfê-rûah). Apesar de a palavra “águas” parecer ser uma referência aos mares, por se tratar de um relato da criação quando havia “águas sobre o firmamento” (Gn 1.6,7 – isso parece ter existido somente até o dilúvio, cf. Gn 7.11) –, essas águas devem ser compreendidas como paralelas às nuvens, de modo que o Senhor está acima da terra, nos céus, olhando para nós como de uma “varanda” ou de um “mirante” – traduções alternativas para a palavra “morada”. Além do mais, ele controla os efeitos naturais poderosos dos céus: os “ventos” e os “raios” – esses últimos são descritos aqui como “fogo ardente” (v.4). Por fim, o salmista se refere ao mundo como uma estrutura firme (v.5): “Estabelecestes a Terra sobre seus fundamentos, [de modo que] ela nunca, em tempo algum, seja abalada” (yosed-’erets ‘al-mekôneyha bal-timmôt ‘ôlam wa’ed).

A segunda observação é quanto ao poder empregado no dilúvio (vv.6-9). Em primeiro lugar, Deus trouxe as águas sobre toda a porção seca, fazendo com que toda a Terra fosse coberta (v.6): “Tu a cobriste com o oceano como se fosse uma roupagem. As águas permaneceram sobre os montes” (tehôm kallevûsh kissôtô ‘al-harîm ya‘amdû-mayim). Em seguida, com o mesmo poder, ordenou o recuo das águas para haver novamente porção seca (v.7): “Elas fugiram diante da tua repreensão e se apressaram diante da tua voz trovejante” (min-ga‘arotka yenûsûn min-qôl ra‘amka yehafezûn). Muita gente se questiona como as águas se recolheram, ou para onde foi tanta água. Talvez, o versículo seguinte responda a essa questão (v.8): “As montanhas se elevaram [e] as planícies desceram até o lugar que tu determinaste para elas” (ya‘alû harîm yerdû beqa‘ôt ’el-meqôm zeh yasadta lahem). Essa pode ser uma referência à locomoção das placas tectônicas afastando algumas e colidindo outras entre si, criando, com isso, cadeias montanhosas que elevaram a terra e abriram espaço para a acomodação das águas – é bem provável que a Terra tivesse um relevo mais baixo antes do dilúvio, sem montanhas altas ou planaltos elevados. O resultado foi que a nova geografia fez as águas assumirem um lugar que garantiu a existência perene da terra seca em que habitamos (v.9).

A terceira é quanto ao cuidado da fauna e da flora (vv.10-18). Os rios, descendo pelos montes, também são obra de Deus (v.10). Dessas águas dependem os animais (vv.11,12). Entretanto, para manter os rios correndo, o Senhor constantemente os abastece por meio do controle que possui sobre as chuvas (v.13): “Da tua morada tu regas os montes, [de modo que] a terra se enche do fruto das tuas obras” (mashqeh harîm me‘alîyôtayw mifferî ma‘aseyka tisba‘ ha’arets). Essa é uma referência à irrigação pluvial e fluvial que faz crescer os vegetais que servem de alimento para os animais e para o homem (v.14): “Tu fazes brotar a erva para os animais e os vegetais para a lavoura do homem a fim de tirar [seu] pão da terra” (matsmîah hatsîr lavvehemâ we‘eseh la‘avodat ha’adam lehôtsî’ lehem min-ha’arets). Na verdade, o homem parece ser o alvo final e primordial desse suprimento (v.15). Além da fauna, a flora no geral também se estabelece por causa do controle de Deus sobre as chuvas (v.16), beneficiando outros animais não citados até então, a saber, as aves (v.17a). A citação de diversos animais que habitam lugares diferentes e quase inatingíveis ao homem serve para mostrar a variedade dos seres vivos e o amplo cuidado que o Senhor exerce sobre toda a criação (vv.17b,18).

A quarta observação é a utilidade do dia e da noite (vv.19-23). Assim como o corpo humano possui uma fisiologia inteligente, o mundo e a vida na Terra também são sustentados por ciclos que promovem seu perfeito funcionamento. Isso se dá pela sucessão interminável de dias e noites descrita pelos astros que marcam cada período (v.19): “Ele fez a Lua para as ocasiões [determinadas e] o Sol conhece sua hora de se pôr” (‘asâ yareah lemô‘adîm shemesh yada‘ mevô’ô). A palavra “ocasiões” também pode ser traduzida como “estações do ano”, mas, como o parágrafo todo trata do dia e da noite, deve ser compreendida como as ocasiões em que a Lua surge, ou seja, o período noturno. Tanto o dia como a noite são benéficos para a criação, já que a noite é o momento da caça e da alimentação de certos animais (v.21), enquanto durante o dia eles se protegem e o homem sai ao trabalho a fim de se sustentar (vv.22,23). É claro que essa breve descrição não expressa tudo que acontece durante os dias e as noites, mas serve para exemplificar o funcionamento diuturno da fauna e da flora ao redor do globo.

A última observação é sobre a manutenção da vida (vv.25-30). Nessa seção, o salmista trata do hábitat que faltou, o mar e as populações marinhas (v.25): “Eis o mar, enorme e extenso, no qual há incontáveis peixes, seres pequenos junto com os grandes (zeh hayyam gadôl ûrehav yadayim shom-remes we’ên mispar hayyôt qetannôt ‘im-gedolôt). Não importa o número incontável de peixes ou o tamanho imensurável do mar (v.26), todos os seres marinhos são alimentados pelo Senhor (v.27): “Todos eles esperam de ti que lhes dê de comer no tempo devido” (kullam ’eleyka yesavverûn latet ’oklam be‘ittô). O salmista escolheu bem os peixes para expressar o ato divino de alimentar cada criatura, já que o número excessivo de seres marinhos exalta ao infinito a capacidade de Deus de sustentar a vida no planeta. Não importa o quão ferozes ou hábeis sejam, se o Senhor lhes dá o que comer, eles se alimentam (v.28), mas se não dá, passam fome (v.29) – no v.29, ao citar a “respiração”, o salmista não se limita à vida marinha, mas à vida em todas as esferas. Por fim, a vida depende tanto de Deus que, quando morrem seres vivos (v.29), outros vêm à vida como se fosse uma nova criação (v.30): “Tu envias o teu sopro e eles são criados e, assim, tu renovas a face do solo” (teshallah rûhaka yivvare’ûn ûtehaddesh penê ’adamâ) – Deus cessou a criação ao final do sexto dia, mas a renovação da vida depende dele assim como a criação também dependeu (cf. Gn 2.7).

Olhando para a variedade e grandiosidade tanto das ações acabadas como das ações contínuas de Deus sobre o mundo, o salmista não podia chegar a outra conclusão (v.24): “Ó, quantas são as tuas obras, ó Senhor! Tu fizestes todas elas com sabedoria! A Terra está repleta das tuas criaturas” (mâ-ravvû yhwh kullam behokmâ ‘asîta mol’â ha’arets qinyaneka). Uma conclusão como essa não pode deixar o observador inerte. O salmista não fica inerte. Ele glorifica a Deus por tudo que fez e que faz (v.31), reconhece seu poder soberano (v.32), assume definitiva e permanentemente a posição de um servo do Senhor (v.33), prima por manter uma vida que lhe seja agradável (v.34) e reconhece que o pecado e a imperfeição não podem conviver com aquele que é perfeito. Devemos continuamente fazer o mesmo e bradar todos os dias (v.35): “Que a minha alma bendiga ao Senhor! Que o Senhor seja exaltado!” (barakî nafshî ’et-yhwh yhwh hallû-yah).

Pr. Thomas Tronco

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