Terça, 14 de Agosto de 2018
   
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Salmo 109 - Lições Aprendidas no Meio da Indignação

 

Um dos grandes heróis dos teólogos reformados é João Calvino (1509-1564). Dono de uma inteligência ímpar e de uma capacidade de sintetizar e relacionar a teologia de maneira brilhante, ele representou um grande avanço na definição do que é a Sã Doutrina para nós e no modo como a igreja deve tratar as Escrituras. A igreja de hoje deve muito a esse homem que se colocou como um instrumento nas mãos de Deus. Contudo, está ligado a ele um dos momentos mais constrangedores da Reforma Protestante: a morte de Serveto. Miguel Serveto Conesa (ca. 1511-1553), importante médico espanhol que rejeitou a doutrina da Trindade e defendeu uma visão não ortodoxa da encarnação de Cristo, foi condenado em Genebra à morte na fogueira por suas heresias. A situação em si é bem mais complexa do que uma simples citação ou discussão possam sugerir, mas, ainda assim, defender a Sã Doutrina à custa da vida humana não parece ser um exemplo elogiável a ser imitado por nós. Sempre que esse episódio é relembrado, uma névoa paira sobre a figura de João Calvino. Porém, o outro lado da moeda é que isso não invalida sua obra como teólogo e como reformador.

Assim como esse momento histórico constrangedor que marcou o período da Reforma, o Salmo 109 é um dos mais difíceis de se lidar de todo o saltério. Isso se dá porque o salmista, em meio a uma situação de extremo aperto, expressa seus mais profundos sentimentos de indignação contra a perseguição injusta e não provocada que sofria. Esse é, por excelência, um ótimo exemplo de “salmo imprecatório”. Os vv.6-20 possuem um conteúdo tão agressivo que muitos tradutores e exegetas se esforçam para colocá-lo na boca dos perseguidores em vez de na pena de Davi. Entretanto, essa solução causa dificuldades piores. O fato é que, como expressão dos sentimentos e clamores do salmista – a poesia hebraica é frequente veículo de exibição das mais profundas emoções –, o salmo contém imprecações que também cumprem uma função didática para nós, leitores das Escrituras (Rm 15.4). Na verdade, a Bíblia contém muitos exemplos ruins ou no mínimo questionáveis que também foram utilizados para nos instruir no sentido do que não fazer e por que não se fazer. Por isso, mesmo com sua forma rude, o Salmo 109 contém quatro importantes lições de Deus para nós.

A primeira lição é que os servos de Deus não devem agir do mesmo modo negativo como muitas vezes são tratados (vv.1-5). O salmo foi escrito em um momento de aflição e, consequentemente, de clamor a Deus (v.1): “Não fiques em silêncio, ó Deus do meu louvor” (’elohê tehillatî ’al-teherash). Ao pedir isso, Davi quer que o Senhor se manifeste nas circunstâncias que ele atravessa. A causa do pedido – e do sofrimento – é a perseguição injusta e cruel que ele vinha experimentando (v.2): “Pois eles abrem a boca perversa e mentirosa contra mim. Falam de mim com língua enganosa” (kî pî rasha‘ ûpî-mirmâ ‘alay patahû dibberû ’ittî leshôn shaqer). Toda essa falsidade agia como um adorno macabro de outra postura negativa, uma atitude irada e violenta (v.3): “Eles me cercam com palavras de ódio e sem motivo me hostilizam” (wedivrê sin’â sevavûnî wayyillahamûnî hinnam). Algo notável nessa frase é a explicação de que esse ódio todo não foi provocado, mas existia “sem motivo”.

Para que não se diga que Davi está arbitrando em causa própria ao avaliar desse modo a situação, ele apresenta seu procedimento para com seus perseguidores (v.4a): “Em troca do meu amor, eles me acusam” (tahat-’ahavatî yistenûnî). Note-se que Davi é perseguido por pessoas a quem ele beneficiava e demonstrava amor, motivo pelo qual o pecado daqueles homens era ainda mais repreensível – o v.5 enfatiza esse disparate. Assim, Davi tinha não apenas os meios, mas as razões e a motivação para descarregar toda sua indignação contra aqueles perversos. E ninguém poderia dizer que, se assim ele o fizesse, seria “sem motivo”. Entretanto, ainda em meio à dor causada injustamente, Davi suprime seus atos de vingança e recorre a Deus (v.4b): “Mas [em lugar disso], eu oro” (wa’anî tefillâ) – essa atitude nos lembra a do próprio Senhor Jesus Cristo: “Pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente” (1Pe 2.23).

A segunda lição é que a maldade dos ímpios não passa despercebida por Deus e receberá a devida punição (vv.6-20). Nesses versos, Davi roga a Deus que traga aos seus injustos perseguidores as mais severas punições. Ele pede que Deus levante contra eles o mesmo mal que eles produziam (v.6), que as orações deles não fossem atendidas (v.7), que eles morressem em breve (v.8), que suas famílias sofressem com sua morte (vv.9,10), que seus bens lhes fossem tomados (v.11), que não encontrassem misericórdia em parte alguma (v.12), que sua linhagem perecesse (vv.13,15), que Deus não lhes perdoasse os pecados (v.14-16) e que fossem amaldiçoados pelo Senhor (v.17-20). Que palavras duras!

É bem difícil olhar com naturalidade para esses pedidos do salmista, principalmente sabendo como Cristo nos orientou a amar os inimigos (Mt 5.44) e a pagar o mal com o bem (Lc 6.27). Entretanto, esses desejos extremamente indignados de Davi – aos quais não somos encorajados a imitar – estão dentro de uma esfera na qual ele clama a Deus por vingança, mas não busca promovê-la com suas próprias mãos (vv.4,5). Assim, suas imprecações não tiram de Deus a prerrogativa de ser o vingador do mal: “A mim me pertence a vingança, a retribuição, a seu tempo” (Dt 32.35a). O fato de não ser próprio dos servos de Deus desejar a ruína dos inimigos não quer dizer que o Senhor não trará a devida punição aos pecadores. Davi mesmo, sabendo do merecimento de punição de Joabe (1Rs 2.5,6) e de Simei (1Rs 2.8,9), tolheu-se de agir mal para com eles e lhes rendeu misericórdia. Entretanto, no momento devido, o Senhor fez recair sobre eles todo o mal que fizeram e, assim, foram abatidos (1Rs 2.28-46).

A terceira lição é que Deus não impede nessa vida que seus servos passem por algumas situações de sofrimento injusto (vv.21-25). Nesse parágrafo, fica clara a razão pela qual o salmista extrapola suas emoções. Ele clama mais uma vez ao Senhor por socorro (v.21), apresentando sua situação (v.22): “Pois [me sinto] pobre e desamparado e meu coração, no meu íntimo, está traspassado” (kî-’anî ‘anî we’evyôn ’anokî welivvî halal beqirbî). Palavras bem escolhidas para expressar uma dor aguda pela injustiça e ingratidão lançadas sobre ele. Ele continua expondo seus sentimentos e afirma estar sendo consumido pela dor, como se fosse uma sombra que some com o passar do tempo ou um gafanhoto que o vento carrega (v.23).

Essa situação afetou até mesmo sua alimentação e o fez a tal ponto que ele já havia emagrecido e enfrentava fraqueza física (v.24): “Meus joelhos fraquejam devido ao jejum e o meu corpo se esvaiu de gordura” (birkay koshlû mitsôm ûvesarî kahash mishamen) – não sabemos se a falta de alimentação se dava por perda extrema de apetite devido à tristeza ou se, por algum motivo ligado à perseguição, estava privado de alimentos. O versículo seguinte parece favorecer a primeira possibilidade, já que o desprezo e a zombaria têm efeitos tremendamente destruidores sobre os homens (v.25). Contudo, apesar da situação terrível que Davi atravessava, ele não via o Senhor ausente ou indiferente a ele, mas como alguém bondoso e fiel em todo tempo (v.21): “Pois boa é a tua lealdade” (kî-tôv hasdeka). O amor de Deus não depende de ele livrar seus servos de todas as aflições, mas de estar com eles em todas as situações — boas e ruins.

A última lição é que tais situações servem para Deus sujeitar a si os seus servos e promover a glória do seu nome (vv.26-31). O último parágrafo também começa com clamor por socorro (v.26). Porém, um fator novo é introduzido aqui, pois o salmista não vislumbra a partir da resposta à sua oração apenas seu alívio pessoal, mas também a manifestação pública da glória de Deus (v.27): “Assim eles saberão que a tua mão fez isso, que tu o fizeste, ó Senhor” (weyed‘û kî-yodka zo’t ’attâ yhwh ‘asîtah). A atuação divina que Davi tem em mente é semelhante ao que Deus fez no caso de Balaão, o qual, sendo contratado para amaldiçoar Israel, teve de abençoá-lo por mandado divino (Nm 23.8). É o que Davi parece ter em mente (v.28): “Eles amaldiçoam, mas tu abençoas” (yeqallû-hemmâ we’attâ tevarek). Assim, a exposição do poder de Deus, da bondade para com os seus e a justiça e santidade no tratamento do pecado (vv.28,29) demonstrariam a glória do Senhor.

Se esse é um benefício que Deus alça por meio do sofrimento dos seus servos, o segundo benefício está ligado ao íntimo dos que o buscam, tornando-os cada vez mais dependentes dele e gratos por sua misericórdia. Por isso, o salmista garante (v.30): “Eu agradecerei muito ao Senhor com minha boca” (’ôdeh yhwh me’od be). Além da óbvia gratidão, a menção de o fazer por meio da boca envolve a ideia de uma proclamação e um louvor público, pelo que completa dizendo “e o louvarei no meio da multidão” (ûbetôk ravvîm ’ahallennû), justamente por ser o ele protetor dos aflitos e o punidor dos injustos (v.31).

Diante das palavras duras e do sentimento de indignação do salmista, surgem, por meio do Salmo 109, lições importantes sobre o domínio próprio, a oração, a dependência de Deus e a difícil atitude de não revidar os ataques. E justamente porque tais lições nascem do meio de uma crise de indignação e sofrimento do salmista, nenhum de nós pode dizer que, devido a situações de especial aflição, ficamos isentos do dever de honrar o nosso Deus pela obediência às suas palavras, pela oração constante e até pelo amor aos inimigos. Afinal, qual de nós passou ou tem passado por uma situação pior que a de Davi? E qual de nós pode dizer que os grandes servos de Deus eram fiéis e obedientes somente nas horas boas?

Pr. Thomas Tronco

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