Quinta, 18 de Janeiro de 2018
   
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Salmo 113 - Deus acima dos Céus e sobre a Terra

 

Li uma história muito interessante. Havia uma pequena instituição religiosa de ensino que estava atravessando problemas financeiros. Certo dia, um visitante veio até o campus e perguntou a um pintor, um senhor grisalho que estava atarefado com a pintura de uma parede, onde poderia encontrar o presidente da instituição. O pintor apontou uma casa e informou que o presidente estaria ali mais tarde. Quando o visitante bateu na porta da casa na hora indicada, foi atendido justamente por aquele senhor, o pintor, agora trajado adequadamente como presidente do estabelecimento de ensino. Então o visitante, certamente tocado pela humildade daquele homem que, não se importando com sua posição, não teve vergonha de vestir roupas de trabalho simples e fazer o que era preciso como um servo humilde, fez uma contribuição de 50 mil dólares à instituição.

Minha primeira lembrança ao ler a história acima relatada foi o texto de Paulo sobre a atitude de Jesus: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.5-8). Nesse mesmo sentido, o Salmo 113 apresenta um Deus que, mesmo que esteja acima de tudo que existe, demonstra os traços de “humildade e mansidão” vistos em Jesus (Mt 11.29) na busca de homens que, comparados a ele, nenhum valor possuem. É o Deus transcendente que se faz imanente por amor de criaturas indignas dele. Pensando nisso, o salmista apresenta os dois lados da moeda contrastando-os por um tipo de dobradiça (v.6) que evidencia, de modo maravilhoso, todos as formas das qualidades do nosso Deus. A primeira seção apresenta o Senhor como um Deus glorioso acima dos céus, enquanto a segunda, como um Deus humilde e amoroso sobre a Terra, no âmbito da existência humana.

A primeira marca do Deus acima dos céus é que ele é digno de todo louvor (vv.1-3). Esse salmo, como seus antecessores, inicia com o chamado público à exaltação do Senhor, porém, de modo mais enfático por meio do chamado específico aos “servos do Senhor” (v.1): “Exaltai ao Senhor! Exaltai, ó servos do Senhor! Exaltai o nome do Senhor!” (hallû yah hallû ‘avdê yhwh hallû ’et-shem yhwh). O “nome do Senhor” é uma figura de linguagem que serve para indicá-lo como todo, mas que também aponta para sua fama e para seus feitos, de modo que os três primeiros versículos do salmo fazem menção do seu nome (v.2): “Seja bendito o nome do Senhor, agora e para sempre!” (yehî shem yhwh mevorak me‘attâ we‘ad-‘ôlam). Se o louvor a Deus se estende pelos séculos, também se estende por toda a face da Terra (v.3): “Desde o levante do Sol até o seu poente, digno de louvor é o nome do Senhor” (mimmizrah-shemesh ‘ad-mevô’ô mehullal shem yhwh). “Levante do Sol até seu poente” é o mesmo que dizer “do Oriente ao Ocidente”, uma expressão que visa a apontar para o mundo inteiro.

A segunda marca do Deus acima dos céus é que ele é supremo sobre tudo (v.4): “O Senhor é exaltado acima de todas as nações e sua glória acima dos céus” (ram ‘al-kol-gôyim yhwh ‘al hashamayim kevôdô). Toda a criação, seja na Terra, seja nos céus, estão abaixo do Senhor. A ideia não é exatamente de localização, mas de valor, dignidade e poder. Ainda que Deus esteja em toda parte, ele não pode ser contido pela Terra e pelos céus e não pode ser detido por ninguém, sejam homens, animais, nações ou anjos. Ele está acima de todos eles.

A terceira marca do Deus acima dos céus é que ele é plenamente incomparável (v.5): “Quem é como o Senhor, nosso Deus, que está assentado nas alturas?” (mî kayhwh ’elohênû hammagbîhî lashavet). Essa é uma pergunta retórica. O autor não está pesquisando um candidato que compartilhe dos mesmos atributos e da mesma dignidade de Deus, que possa ser colocado lado a lado com o Senhor. Na verdade, essa é uma pergunta que torna completamente ridícula essa busca. Ela quer dizer: Ninguém é como o Senhor, nosso Deus, e ninguém, como ele, fez seu trono elevado, acima de tudo e de todos.

Não há dúvidas de que o salmista tem uma elevada visão de Deus e de que o Senhor faz jus a toda essa revelação e reverência. Contudo, diante do quadro supremo apresentado até aqui, o texto dá uma virada surpreendente ao pintar o Deus transcendente e glorioso se voltando com interesse para a criação. Como se fosse uma dobradiça no texto, que tira nossos olhos das alturas e os traz de volta à Terra, as palavras do salmista são (v.6): “Ele se abaixa para ver [o que acontece] nos céus e na Terra” (hammashpîlî lir’ôt bashamayim ûba’arets). Essa afirmação é a continuação do versículo anterior que vinha descrevendo a grandeza e supremacia de Deus. Ao continuar a descrição, o salmista produz a visão de que Deus, do seu alto trono, se volta para sua criação a fim de socorrer o necessitado (cf. vv.7-9). O verbo traduzido no v.6 por “se abaixar” também tem o sentido de “se humilhar” – o que nos lembra, novamente, a disposição de Cristo na busca do perdido (Fp 2.5-8). Ele mostra que Deus, mesmo sem precisar de nós, vem nos auxiliar em nossas necessidades, na inferioridade da nossa condição – a ação do Deus sobre a Terra –, demonstrando humildade e um amor incomparável.

Nesse sentido, a primeira ação do Deus sobre a Terra é se importar com os homens (v.7). Normalmente, os homens poderosos ignoram os mais fracos. A diferença entre eles cega os olhos dos grandes em relação aos fracos e aflitos. Mas com Deus isso é bem diferente. Ele não apenas olha para os pequenos dentre os homens como se importa com a condição em que eles vivem. Para demonstrar isso, o salmista toma como exemplo os homens mais sofridos, pobres no meio do povo e aflitos que se assentam em monturos de detritos (v.7): “Ele é quem levanta o pobre do pó e que retira o desamparado do monte de lixo” (meqîmî me‘afar dal me’ashpot yarîm ’evyôn). Pessoas assim são conhecidas em nossa sociedade como indigentes – chamá-los assim parece exercer um efeito que os diminui como seres humanos e reduz a responsabilidade dos grandes de socorrê-los. Porém, Deus não apenas se importa com eles como age em seu favor.

A segunda ação do Deus sobre a Terra é exaltar o humilde (v.8). Esse texto é a continuação e a consequência do anterior. Se primeiro Deus levanta os abatidos de sua condição desfavorável, ele também os exalta e os iguala aos principais dentre os homens (v.8): “A fim de fazê-lo sentar com os nobres, com os nobres do seu povo” (lehôshîvî ‘im-nedîvîm ‘im nedîvê ‘ammô). É claro que, ao lermos um texto assim, surge-nos a pergunta: “Então, por que ainda há desigualdade social?”. Ela existe porque os homens ainda são pecadores e ainda mantêm sua cobiça e ganância a todo custo. Entretanto, Deus age no sentido de exaltar o humilde tanto ensinando seus valores ao seu povo, por meio da sua Palavra, como fazendo promessas de um futuro de restauração para aqueles que creem, cuja realidade será de igualdade e de plena felicidade e abastança.

Finalmente, a terceira ação do Deus sobre a Terra é satisfazer o incapaz (v.9). Ainda que muito do que Deus tem preparado para o seu povo só será vivenciado no futuro, no presente ele dá demonstrações de amor ao produzir muitas coisas que para nós seriam improváveis e até impossíveis. Como exemplo disso, o salmista cita uma mulher estéril, cuja condição, no mundo antigo, era de humilhação e tristeza. Muitas dessas mulheres, conforme as Escrituras, tiveram sua condição alterada por Deus e passaram a se sentir valorizadas e plenamente realizadas (v.9): “Ele é quem faz com que a mulher estéril da casa se sente alegremente com os filhos. Exaltai ao Senhor!” (môshîvî ‘aqeret havvayit ’em-havvanîm semehâ hallû-yah).

É maravilhoso olhar para a glória do Senhor, sua capacidade criativa, o poder que tem para fazer tudo que quiser e a incapacidade que qualquer criatura tem de deter seus desígnios. Nenhum “falso deus” da antiguidade transmitia um quadro de glória e majestade como nosso Deus – o Senhor acima de todos os senhores, o Deus que é completo, o Rei de todo universo. Porém, o que parecia não poder melhorar assume uma coloração ainda mais vívida quando esse Deus supremo e poderoso olha com amor para nós, seres pecadores, fracos e indignos. E mais: além de olhar para nós, assume uma posição humilde na qual o Filho, o Senhor Jesus Cristo, deixando seu trono na glória, assume humildemente a forma humana na encarnação e se torna obediente, um servo, a fim de entregar sua própria vida por nós. É muito mais que a imagem de um rei descendo de uma carruagem de ouro para tomar no colo e lavar a feridas de um mendigo sujo e malcheiroso. É muito mais! É a visão do Deus eterno se curvando para nos elevar, visão essa que deve nos encurvar diante do seu trono e definitivamente elevar e exaltar seu nome acima de todo nome!

Pr. Thomas Tronco

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