Quarta, 15 de Agosto de 2018
   
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Salmo 120 - Vivendo em um Mundo Hostil

 

Em 1894, Alfred Dreyfus (1859-1935), um oficial judeu da artilharia do Exército Francês, foi julgado injustamente, com base em documentos falsos, sob a acusação de ser um espião a serviço dos alemães. A real razão para sua perseguição, o antissemitismo — preconceito e hostilidade contra judeus —, ficou clara durante uma série de fraudes impetradas por autoridades francesas para condenar Dreyfus. Na verdade, o antissemitismo se fez sentir ao longo de toda a história da era cristã, como na perseguição feroz na época da inquisição espanhola e no holocausto promovido pela Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Em vista do antissemitismo patente no caso Dreyfus, Theodor Herzl (1860-1904) passou a preconizar a reconstrução de uma soberania nacional judaica, dando origem ao movimento sionista que resultou, décadas depois, na fundação do Estado de Israel.

A situação dos israelitas nos dias da composição do Salmo 120 não era muito diferente. O título do salmo significa, literalmente, “cântico dos degraus” (shîr hamma‘alôt) — esse título, com pequena variação no Salmo 121, inicia quinze salmos dispostos em sequência no saltério (120—134). Por degraus entende-se uma “subida”, a qual é identificada com a jornada morro acima até a cidade de Jerusalém. Por isso, essa expressão também pode ser traduzida como “cântico de romagem”, tendo em mente a viagem que israelitas de toda parte faziam para ir ao Templo adorar a Deus nas festas obrigatórias. Quando se nota o contexto de cada salmo, percebe-se que eles citam localidades distantes — Meseque e Quedar (Sl 120) — e vão se aproximando na sequência dos salmos até chegar à casa do Senhor (Sl 134). Por essa razão, supõe-se que esses salmos eram cantados pelos peregrinos desde a saída de seus lares até a sua chegada ao Templo. Sendo assim, é dos lugares mais longínquos que esse salmo vê os israelitas iniciando sua peregrinação anual. Ao fazê-lo, ele não aponta somente a situação dos judeus exilados, mas também dos cristãos, evidenciando três características da vida dos servos de Deus que habitam o mundo perdido.

A primeira característica da vida daqueles que pertencem a Deus e habitam entre quem não teme ao Senhor é que eles são odiados e perseguidos (vv.5-7). A situação dos judeus que vinham de fora da Palestina para adorar em Jerusalém era muito difícil (v.5): “Ai de mim, pois vivo exilado em Meseque e habito junto às tendas de Quedar” (’ôyâ-lî kî-gartî meshek shakantî ‘im-’aholê qedar). Essa não é a realidade de uma só pessoa, mas dos exilados em geral, já que dois lugares muito distantes são citados. A terra de Meseque era localizada em uma região montanhosa a sudeste do mar Negro, ao norte da Síria, muito distante de Israel, e era habitada por gente marcada por agressividade e paganismo. Quedar ficava bem ao sul da Palestina e era habitada por pastores nômades que viviam em tendas, cujos guerreiros, principalmente seus arqueiros, eram famosos e temíveis. Assim, o quadro pintado pelo salmo vislumbra israelitas exilados desde o Norte até o Sul, possivelmente depois da destruição de Samaria pela Assíria, em 722 a.C., como punição prevista na lei por causa do afastamento e da infidelidade diante do Senhor.

Essa situação, que já datava de um bom tempo, colocava esses israelitas em uma condição bem delicada (v.6): “Há muito [tempo] a minha alma ali habita com os que odeiam a paz” (rabbat shoknâ-lah nafshî ‘im sône’ shalôm). Dizer que aqueles homens odiavam a paz, além de apontar a índole guerreira daqueles povos, revela o fato de que eles tratavam os israelitas exilados entre eles com furor. A exemplo do que aconteceu na França, Espanha e Alemanha, os israelitas eram odiados e perseguidos por um ânimo xenofóbico que tendia a ser irracional. Na verdade, a aliança mosaica previa isso: “O Senhor vos espalhará entre todos os povos, de uma até à outra extremidade da terra. [...] Nem ainda entre estas nações descansarás, nem a planta de teu pé terá repouso” (Dt 28.64a,65a). Por isso, não havia acordo, nem ecumenismo. Quando os israelitas tentavam buscar a paz, eram ainda mais odiados e perseguidos (v.7): “Eu [amo] a paz, mas quando eu digo [isso], eles [se inclinam] para a guerra” (’anî-shalôm wekî ’adavver hemmâ lammilhamâ).

A segunda característica da vida dos servos de Deus que habitam entre os mundanos é que eles são protegidos pelo Senhor. O salmo inicia com um tom de gratidão, apesar do rumo sombrio para o qual ele segue posteriormente (v.1): “Na minha angústia, eu clamei ao Senhor e ele me atendeu” (’el-yhwh batsaratâ lî qara’tî wayya‘anenî). A circunstância angustiosa levava os israelitas a clamarem a Deus a fim de serem protegidos e preservados. O que é maravilhoso notar é que, apesar de estarem no exílio por causa do pecado e da infidelidade, o Senhor não os abandonou à própria sorte. Se isso tivesse ocorrido, eles todos teriam perecido, como aconteceu a outros povos do passado, e não haveria nenhuma descendência de Israel atualmente. Mas, em vez disso, Deus lhes ouviu as preces e lhes atendeu as súplicas. E a súplica era a seguinte (v.2): “Ó Senhor, protege a minha alma dos lábios mentirosos, da língua traiçoeira” (yhwh hatsîlâ nafshî missefat-sheqer millashôn remîyâ). Esse texto parece mostrar que, apesar de serem recebidos pelas nações em que seu exílio transcorria, as tramas contra eles estavam sempre presentes. Uma palavra agradável podia esconder planos terríveis de destruição. Atitudes traiçoeiras como essa são mais perigosas que guerras declaradas. Mesmo assim, Deus se mostrava presente na preservação desses israelitas que, nas ocasiões de festas, peregrinavam para Jerusalém com sincera gratidão e com motivos muito claros e justos de adorarem o soberano Deus.

A última característica da vida dos servos de Deus nesse contexto desfavorável diante do mundo é que eles têm esperança de vindicação e restauração. O aperto passado pelos peregrinos rumo a Jerusalém nas suas terras de exílio não existia sem que eles meditassem a respeito da retribuição divina aos maus tratos que vinham recebendo. Por isso, dirigindo-se aos perseguidores estrangeiros, o salmista pergunta (v.3): “O que será dado a ti e como [isso] te será retribuído, ó língua traiçoeira?” (mah-yitten leka ûmah-yosîf lak lashôn remîyâ). O escritor do salmo não está buscando uma resposta, pois ele demonstra conhecê-la. A pergunta apenas cria ocasião para a réplica que é imediatamente declarada (v.4): “Flechas afiadas de soldado com brasas de zimbro” (hitsê givvôr shenûnîm ‘im gahalê retamîm). Essa é uma figura muito sugestiva de destruição militar. A preposição “com” (‘im) pode agir aqui de modo duplo: ou ela é usada para fazer referência a um ataque com flechas por um lado e fogo por outro, ou a uma só ação de se atirar flechas inflamadas. Independente de qual seja a opção correta, a ideia de uma destruição militar é vívida e amedrontadora.

Sendo assim, o salmista nutre a esperança de ver o Senhor vindicar seu remanescente fiel abatendo seus inimigos. Esse, contudo, não é um quadro isolado. A esperança israelita de punição dos maus vinha no mesmo pacote que a esperança de restauração futura do povo de Israel que foi espalhado pelo mundo. O primeiro profeta escritor a expor esse ensino, associando o juízo das nações à restauração de Israel na terra da promessa, foi Obadias: “Porque o Dia do Senhor está prestes a vir sobre todas as nações; como tu fizeste, assim se fará contigo; o teu malfeito tornará sobre a tua cabeça. [...] Mas, no monte Sião, haverá livramento; o monte será santo; e os da casa de Jacó possuirão as suas herdades” (Ob 15,17). Portanto, ainda que as condições fossem contrárias, o povo de Deus exilado por seus pecados mantinha a esperança de que o Senhor, por sua graça e soberania, inverteria a situação e lhes daria a paz e o cumprimento das promessas.

Com os cristãos não é diferente. Eles foram feitos cidadãos celestiais pela fé (Fp 3.20), mas ainda vivem em um mundo em que o diabo é chamado “deus desse século” (2Co 4.4). Por esse motivo, vivem em terra alheia onde são odiados, segundo o que disse Jesus: “Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como também eu não sou” (Jo 17.14). Eles também experimentam, em diversas medidas, a hostilidade do mundo ao povo de Deus. Mas é certo que o Senhor também se rende a protegê-los, segundo a oração do próprio Jesus por sua igreja: “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal” (Jo 17.15). Finalmente, os cristãos também têm uma esperança futura. Eles sabem que o mal será punido e que aqueles que foram salvos gratuitamente pela fé no Senhor Jesus serão reunidos de todas as partes e recebidos por Deus por toda eternidade: “Então, dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo. [...] Então, o Rei dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mt 25.34,41).

Como esse conhecimento pode afetar nossa vida hoje? É simples! Em primeiro lugar, assim como o salmista, continuemos a abrir nossa boca para anunciar a mensagem da paz, a paz de Cristo produzida por seu sacrifício na cruz, ainda que o mundo responda com ódio. Mantenhamos a esperança futura de restauração e de habitação eterna com nosso Senhor. E insistamos fielmente em peregrinar às nossas igrejas para apresentar, junto aos nossos irmãos, louvor verdadeiro a Deus em um mundo que se afastou dele.

Pr. Thomas Tronco

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