Terça, 14 de Agosto de 2018
   
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Salmo 122 - O Ajuntamento que Unifica o Povo de Deus

 

Certa vez, Plínio, o Moço (61-144), governador da Bitínia, escreveu ao imperador Trajano (53-117) indagando as razões de os cristãos estarem sendo perseguidos e mortos. Para aclarar sua questão, ele informou o seguinte ao imperador romano: “Eu tenho buscado reunir toda informação que posso a respeito deles. Até contratei espiões para professarem ser cristãos e serem batizados com o objetivo de se infiltrarem nos seus cultos sem levantar suspeitas”. Depois de explicar os métodos da investigação, Plínio relatou suas descobertas: “Ao contrário do que eu havia suposto, descobri que os cristãos se reúnem tarde da noite ou de manhã bem cedo, que eles cantam um hino a Cristo como Deus, que leem seus próprios escritos sagrados e que partilham uma refeição muito simples que consiste de pão, vinho e água (a água é misturada ao vinho a fim de diluí-lo de modo que haja o suficiente para todos). Isso é tudo que eu descobri, com exceção de que eles se exortam mutuamente a se sujeitarem às autoridades e a orarem por todos os homens”. A verdade é que Plínio percebeu que os cristãos se reuniam sem que nada maculasse tais encontros. Em vez disso, a paz, o amor, a devoção e a fidelidade eram as marcas de um ajuntamento singelo, mas ao mesmo tempo, cheio de esplendor.

O rei Davi, escritor do Salmo 122, conhecia as características santas do ajuntamento do povo de Deus para prestar adoração. Davi é declaradamente o autor de quatro “cânticos de romagem” (122, 124, 131, 133), além de ser citado várias vezes no Salmo 132, não como escritor, mas como receptor de uma promessa cuja esperança era compartilhada com outros. O Salmo 122, escrito depois da unificação do reino por Davi (1104 a.C.), da tomada de Jerusalém para servir de sede do governo nacional (2Sm 5) e da construção de um tabernáculo para receber o arca trazida da casa de Abinadabe (2Sm 6), foi composto para encarecer os ajuntamentos oficiais, nas festas religiosas, em obediência e adoração a Deus. Pela posição em que o salmo foi disposto no saltério, os estudiosos supõem que ele fosse cantado quando os peregrinos, depois da sua jornada, chegavam a Jerusalém em meio à alegria não apenas de ter completado a viagem, mas de estar diante da casa do Senhor, local que marcava a presença de Deus no meio do povo de Israel. Esse ajuntamento é extremamente encarecido por Davi, não sem que ele apresente quatro fatores teológicos e práticos ligados à união cultual do povo de Deus.

O primeiro fator ligado ao ajuntamento do povo de Deus é o sentimento de se reunir na presença do Senhor (vv.1,2). O rei, ao promover o culto público em Jerusalém por meio da construção do tabernáculo no qual colocou a arca da aliança, se alegrou a ponto de liderar a comitiva que conduziu a arca portas adentro da cidade: “Davi dançava com todas as suas forças diante do Senhor; e estava cingido de uma estola sacerdotal de linho. Assim, Davi, com todo o Israel, fez subir a arca do Senhor, com júbilo e ao som de trombetas” (2Sm 6.14,15). Os peregrinos israelitas sentiam o mesmo e, ao que tudo indica, entravam em Jerusalém cantando (v.1): “Eu me alegrei quando me disseram: ‘Nós iremos à casa do Senhor’” (samahtî be’omerîm lî bêt yhwh nelek). As peregrinações santas eram momentos aguardados durante o ano todo. Mas o motivo de alegria não vinha apenas de saber que era chegado o tempo da jornada, mas de participar efetivamente dela junto com outros israelitas (Sl 55.14), cujo ânimo, mesmo na dura, cansativa e perigosa viagem, era de louvor e júbilo (Sl 42.4).

Entretanto, é indiscutível que o auge da viagem era a chegada a Jerusalém. Passar por seus portões, adentrar seus muros e ver o Templo do Senhor produzia um sentimento que eles almejavam durante toda a jornada, até que pudessem dizer (v.2): “Os meus pés estão postados nos seus portões, ó Jerusalém” (‘omedôt hayû raglênû bish‘arayik yerûshalaim). Essa menção à Jerusalém, dirigindo-lhe as palavras como se a cidade fosse uma pessoa que pudesse ouvir e responder, é uma demonstração de como esse local era importante para Israel. Além de ser a sede do reinado, ela significava muito mais. Era o local da habitação simbólica de Deus, lugar em que se faziam os sacrifícios contínuos ao Senhor. Além disso, a cidade retinha as esperanças de Israel no tocante ao futuro. Era uma grande alegria estar ali.

O segundo fator é o benefício de se reunir na presença do Senhor (vv.3-5). O próximo versículo é muito difícil de ser traduzido e interpretado (v.3): “Jerusalém está construída como uma cidade que vive estreitamente unida” (yerûshalaim havvenûyâ ke‘îr shehuvverâ-lah yahdaw). Inegavelmente, essa pode ser uma menção à arquitetura da cidade, aproveitando a segurança dos seus montes, mas, ao mesmo tempo, limitada geograficamente por eles mesmos. Quando isso acontece, o espaço tem de ser bem aproveitado e as casas são construídas muito próximas umas das outras. Contudo, Davi não parece se referir às edificações da cidade, mas à sua função de unir as tribos de Israel. As doze tribos israelitas, apesar de serem territorialmente independentes umas das outras, assim como os Estados de um país — razão pela qual não era difícil que houvesse divisões políticas —, uniam-se religiosamente como um povo apenas, o povo de Deus (v.4): “É para ali que as tribos sobem, as tribos do Senhor, [segundo] a norma de Israel a fim de se celebrar o nome do Senhor” (shesham ‘alû shevatîm shivtê-yah ‘edût leyisra’el lehodôt leshem yhwh). Desse modo, a reunião pública nas festas os beneficiava também com a estreita união política, social e fraternal. Além disso, tais ajuntamentos eram ocasiões perfeitas para o povo buscar a justiça que era promovida pelo regente e por seus ministros (v.5): “Pois ali se estabeleceram os tronos de juízo, os tronos da casa de Davi” (kî shommâ yoshvû kis’ôt lemishpat kis’ôt levêt dawîd).

O terceiro fator é o necessário para se reunir na presença do Senhor (vv.6,7). As festas israelitas que traziam tanta alegria ao povo e o culto a Deus na casa separada para esse fim podiam perder seu brilho e até cessar caso se estabelecesse uma situação desfavorável. O reinado de Davi viu esses desequilíbrios na ordem política e social mais de uma vez. Por isso, o rei se dirige aos israelitas e os conclama a orar pela cidade por algo que era realmente necessário (v.6a): “Orai pela paz de Jerusalém” (sha’alû shelôm yerûshalaim). É claro que a ideia de paz na cidade significa paz para os moradores da cidade e para aqueles que afluíam para ali a fim de adorar no Templo. Em outras palavras: paz para todo o Israel. Por isso, a própria oração do salmista, como exemplo a ser seguido por todo o povo, era pelas pessoas que tinham seu coração ligado a Jerusalém e a tudo que ela representava (v.6b): “Que tenham paz aqueles que te amam” (yishlayû ’ohavayik). Em outras palavras, a paz em Jerusalém representava e produzia paz para os israelitas. Que motivo melhor do que esse para fazer os beneficiários dessa paz dobrarem seus joelhos e clamarem a Deus? A oração do salmista vai além e focaliza, também, a estabilidade não apenas religiosa, mas política e social, como fonte de segurança e paz para o povo, pelo que clama (v.7): “Que haja paz na tua muralha e tranquilidade no teu palácio” (yehî-shalôm behêlek shalwâ be’menôtayik).

O último fator inerente ao ajuntamento do povo de Deus é o motivo de se reunir na presença do Senhor (vv.8,9). Se alguém perguntasse “por que eu deveria fazer isso tudo?”, Davi tinha a resposta: por amor (v.8): “Por amor dos meus irmãos e dos meus amigos eu clamarei: ‘Que haja paz em ti!’” (lema‘an ’ahay were‘ay ’adavverâ-na’ shalôm bak). O pronome “ti”, nesse texto, se refere a Jerusalém, de modo que o salmista mais uma vez vê a importância fundamental da paz na cidade e no ajuntamento santo para que seus irmãos e amigos fossem também abençoados. E mais (v.9): “Por amor da casa do Senhor, nosso Deus, eu buscarei o teu bem” (lema‘an bêt-yhwh ’elohênû ’avaqshâ tôv laq). O amor pelo Senhor era razão suficiente não apenas para que o povo de Deus orasse pela paz, tranquilidade e progresso do local de reunião, mas para que eles também buscassem ativamente os fatores que promovessem o benefício da cidade. Segundo tais palavras, parte da adoração a Deus estava ligada à manutenção da paz e das condições de desenvolvimento do culto e da unidade, por amor aos irmãos e ao Deus santo.

Tais lições são tão importantes e atuais que quase nos esquecemos de que o texto foi escrito por Davi para o culto em Israel e não por um compositor contemporâneo para se dirigir à igreja cristã. Porém, os preceitos da mensagem do salmo são encarecidos no Novo Testamento e se aplicam inexoravelmente a nós, igreja de Deus. Portanto, valorize você também esses ensinos e deixe de arrumar desculpas para não estar presente às reuniões regulares dos irmãos a fim de adorar a Deus, pretextos para valorizar mais seus desejos e sentimentos que a paz do corpo de Cristo e motivos para fazer acepção de pessoas dentro da igreja a fim de formar um grupo dentro do grupo. Una-se de todo coração àqueles que foram unidos definitivamente pelo sacrifício remidor de Jesus e dedique-se, junto a eles, a render graças ao nosso grande Deus!

Pr. Thomas Tronco

 

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