Sexta, 15 de Dezembro de 2017
   
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Salmo 124 - O Cuidado Sempre Presente de Deus

 

Em certa ocasião, uma mãe e sua pequena filha de quatro anos preparavam-se para dormir. A criança tinha medo do escuro. Na verdade, sua mãe, que nesse dia estava sozinha com a filha, também se sentia amedrontada. Quando a luz foi apagada, a criança notou o brilho da Lua entrando pela janela. Imediatamente, perguntou: “Mãe, a Lua é a luz de Deus?”. A mãe respondeu que sim. A próxima pergunta foi: “Deus acende sua luz e vai dormir?”. A mãe, então, explicou: “Não, minha filha, Deus nunca vai dormir”. Tendo ouvido isso, apesar da simplicidade da sua fé infantil, a menina disse algo que trouxe conforto e coragem à temerosa mãe: “Então, já que Deus está acordado, não há sentido algum em nós também ficarmos”. E assim, dormiram em paz, confiantes na proteção do Senhor cuja luz brilhava lá fora e as recordava de que ele nunca se ausenta.

O rei Davi, autor do Salmo 124, conhecia bem os benefícios de Deus não dormir ou se ausentar. Afinal, ele havia testemunhado o cuidado presente do Senhor junto aos seus. Este salmo foi composto para louvar a Deus e lhe render graças por causa de uma libertação notável que se processou diante da presença do Senhor com seu povo. Pelo tom emocionado do texto, pelas figuras fortes e sugestivas da destruição iminente que foi evitada e pela gratidão rendida a Deus, é bem provável que o salmo tenha sido escrito logo após a libertação, quando o medo e a alegria que Israel sentiu ainda estavam na memória. Como conhecemos a autoria do cântico, podemos tentar identificar o contexto histórico. Davi, como rei, atravessou duas crises graves: o ataque dos filisteus, assim que ele assumiu o trono de Israel (2Sm 5.17-25), e o golpe de Estado de Absalão (2Sm 15—18). Como o segundo configurou mais uma crise pessoal de Davi, cujo risco de vida era dele e não da nação, é mais provável que o ataque filisteu tenha provido o pano de fundo do salmo, já que, por causa disso, Israel correu o risco de ser extinto. Os filisteus, que achavam que ao vencerem e matarem Saul haviam sacramentado seu domínio na Palestina, atacaram os israelitas com toda fúria ao saber que Davi tomara o lugar do antigo rei. O poderio filisteu e as baixas israelitas na guerra anterior faziam com que a sobrevivência do povo de Deus corresse risco em um novo conflito. Olhando para trás, para tudo que passaram e para o modo como o Senhor os protegeu, Davi chega a três conclusões do fato de Deus se colocar ao lado dos seus servos.

A primeira conclusão é o que aconteceria sem Deus estar ao lado (vv.1-5). O salmo começa exibindo emoção e ênfase na gratidão nacional. Essa emoção se vê em uma digressão que conclama o povo a confirmar a tese do salmista. Ele introduz a primeira parte da longa frase que irá desenvolver nos vv.2-5, exclamando (v.1a): “Se não fosse o Senhor, que esteve conosco!” (lûlê yhwh shehayâ lanû). Mas em vez de dar sequência à frase, o escritor a interrompe e chama todo Israel a confirmar seu dito e dar suas próprias versões e contribuições ao relato da libertação (v.1b): “Que Israel o diga!” (yo’mar-na’ yisra’el). Emoções florescem e o salmista não pode contê-las, deixando que transpareçam nessa interrupção da frase. A seguir, no acréscimo veloz de figurações da libertação, umas sobre as outras, produz uma frase maior e mais rica que o normal. Ele retoma e completa a ideia inicial lhe dando o contexto (v.2): “Se não fosse o Senhor, que esteve conosco, quando os homens se levantaram contra nós” (lûlê yhwh shehayâ lanû beqûm ‘alênû ’adam). Não há dificuldade em notar nessa frase a marcha de um exército estrangeiro para abater Israel. É sobre isso que o salmista diz: “Se não fosse o Senhor”. Trata-se de um inimigo poderoso que eles não podiam conter sem o auxílio divino.

Para dar a entender a questão, Davi expõe os prováveis resultados caso Deus não estivesse ao lado deles quando foram atacados. Ele o faz por meio de algumas figuras. A primeira delas é a de um animal ou um monstro devorador (v.3): “Eles já teriam nos devorado vivos por causa da sua ira ardente contra nós” (’azay hayyîm bela‘ûnû baharôt ’affam banû). Essa imagem de um devorador é exposta de modo mais dramático no v.6, ao citar seus dentes prontos para serem cravados na presa. Em resumo, se alguém pode imaginar a agonia de ser devorado por uma fera, pode então saber como os israelitas se sentiram diante do poderoso inimigo. Davi também compara a força letal dos opressores a uma forte correnteza que arrasta, afunda e afoga suas vítimas (v.4): “As águas já teriam nos afundado, a correnteza teria passado sobre a nossa alma” (’azay hammayim shetafûnû nahlâ ‘avar ‘al-nafshenû). Se a total impossibilidade de sobreviver a essa torrente ainda não ficou clara aos ouvintes, o salmista repete a ideia de modo mais dramático (v.5): “Águas revoltas já teriam passado sobre a nossa alma” (’azay ‘avar ‘al-nafshenû hammayim hazzêdônîm). A palavra traduzida aqui como “revolta” quer também dizer “espumejante”, descrevendo a aparência que tem a água que desce corredeiras íngremes em um leito pedregoso — águas mortais! Com isso, o que o salmista proclama a todos é que a morte do povo e a destruição de Israel eram certas se o Senhor não tivesse impedido o inimigo. É isso que aconteceria sem Deus estar ao lado do seu povo.

A segunda conclusão é o que aconteceu por Deus estar ao lado (vv.6,7). Davi, aqui, para de falar “e se” e passa a relatar os fatos: Israel foi poupado pela ação libertadora de Deus. Por isso, ele louva seu salvador (v.6): “Bendito é o Senhor que não nos entregou como presa para os seus dentes” (barûk yhwh shello’ netananû teref leshinnêhem). É interessante como, nesse texto, percebemos a noção da soberania de Deus acolhida por Davi. Ele olha para os inimigos e entende que o sucesso deles só viria se Deus assim o quisesse. Se Israel caísse era por que o Senhor os teria entregado aos opressores. Contudo, se nisso a soberania fica patente, tanto mais na libertação pela qual o salmista agradece a Deus e lhe chama “bendito”. O resultado final é descrito de uma maneira dramática por meio do quadro de uma preservação improvável aos olhos humanos (v.7a): “A nossa alma escapou com vida como um pássaro [escapa] da armadilha dos caçadores” (nafshenû ketsiffôr nimletâ miffah yôqesîm). A palavra hebraica traduzida como “alma” (nefesh) nem sempre tem um sentido espiritual e, frequentemente, é utilizada para se referir à pessoa como todo. Nesse versículo, isso ocorre, de modo que “nossa alma” deve ser interpretada como “nós”. O salmista está dizendo: “Nós escapamos com vida”. Para deixar vívida a figura da improvável fuga de um pássaro já capturado, ele completa (v.7b): “A armadilha se rompeu e nós escapamos com vida” (haffah nishbar wa’anahnû nimlatnû). Improvável aos olhos humanos ou não, foi exatamente o que o Senhor fez: protegeu seu povo de uma derrota iminente e inevitável. Foi isso que aconteceu por Deus estar ao lado de Israel em uma hora tão difícil.

A última conclusão é o que significa Deus estar ao lado (v.8). O rei Davi encerra o salmo com uma declaração de confiança que não se restringia à situação militar dos seus dias. Na verdade, ele pensa em Deus não somente como quem os preservou do ataque inimigo, mas como aquele que o faz sempre (v.8a): “A nossa proteção está no nome do Senhor” (‘azrenû beshem yhwh). Ao falar do “nome do Senhor”, sua intenção não é produzir uma ideia de que frases que contenham o nome de Deus conferem poder às pessoas, assim como imaginavam os pagãos. Na verdade, essa expressão aponta para a glória do Senhor e para sua fama por tudo que ele é e faz. O significado disso é que a proteção vem do próprio Deus e não do uso do seu nome pelos homens. E para mostrar isso, Davi descreve quem é o Senhor (v.8b): “O criador dos céus e da Terra” (‘oseh shamayim wa’arets). Ser criador do universo é o maior testemunho bíblico do poder e da majestade do Senhor. Quando Davi lhe chama protetor, ele pensa no portador do maior poder que existe. E não apenas isso, mas também do conhecimento ilimitado, da sabedoria para fazer tudo do melhor modo possível e do amor que dá ao homem uma condição que ele não merece. Portanto, a presença de Deus é o que determina o final de cada situação. Para o salmista, ter Deus ao lado significa que seus servos podem descansar em paz, sabendo que ninguém é mais poderoso que o nosso Senhor e que tudo que acontece vem das mãos do soberano e sábio criador.

Felizmente, tais conclusões não apenas valem para nós, igreja de Cristo, como podem até ser observadas a partir da nossa experiência com o Senhor. Quantas coisas Deus já fez por nós? De quantos males ele nos livrou? De quantos perigos nos protegeu? E quantas lições já tivemos sobre o que significa ter Deus ao nosso lado? A primeira conclusão é que não podemos de modo algum querer andar longe de Deus. O desenvolvimento da vida cristã, da fidelidade, da santidade, do amor e do testemunho deve ser inerente à existência de todo crente, em toda parte. A segunda conclusão é que, mesmo em tempos em que o mundo se arma contra nós, tentando, inclusive, nos calar e perseguir por meio das leis e dos tribunais, nosso protetor é “o criador dos céus e da Terra”. Ainda que pareça que o fim da igreja está próximo, é do nosso Senhor, o fundador da igreja, que ouvimos: “Edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18b). Durmamos em paz, sob o brilho da luz de Deus!

Pr. Thomas Tronco

 

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