Terça, 16 de Outubro de 2018
   
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Salmo 128 - Bênçãos de Dentro para Fora

 

O rio Amazonas, o segundo maior do mundo em extensão e o primeiro em fluxo hídrico, nasce na cordilheira dos Andes na forma de um modesto filete d’água. Ao vê-lo em seus primeiros metros, ninguém jamais poderia imaginar até onde ele chegaria, nem o volume de água que ele deslocaria. Contudo, à medida que ele avança, outros pequenos filetes d’água despejam nele suas porções líquidas. Por causa das chuvas e de outras nascentes, o Amazonas vai se tornando mais profundo e caudaloso e, ao adentrar pelo território brasileiro, já é um rio de um porte considerável. Mas não para por aí: ele recebe água de mais e mais afluentes a ponto de, chegando à capital amazonense, ter profundidade e largura suficiente para que grandes navios de cruzeiro naveguem e aportem ali. Quando o Amazonas deságua no mar, a força das suas águas é tão grande que o rio se nega a morrer e continua correndo, com sua água doce e turva, cerca de 150 km mar adentro. É impressionante como algo que começa tão pequeno possa se tornar tão grande e poderoso!

O Salmo 128, tradicionalmente utilizado como uma canção nupcial, tem uma aplicação bem mais ampla que um casamento e nos lembra o crescimento do próprio rio Amazonas. Trata-se de um “cântico de romagem” (shîr hamma‘alôt) que era entoado por adoradores peregrinos em Jerusalém que, depois de iniciarem sua jornada com canções que revelavam seus medos, necessidades e lamentos, passavam posteriormente a entoar salmos mais encorpados de esperança e das bênçãos divinas, seguidas de grato louvor. Nesse sentido, não há nenhuma dúvida de que o Salmo 128 está colocado no saltério exatamente onde deveria estar. Apesar de ter sido composto depois dos dias de Salomão — nos dias desse rei, Jerusalém não sofria com a falta da paz almejada no v.6 —, é muito grande a conexão entre esse salmo e o 127 em termos de “causa e efeito”. O Salmo 127, escrito por Salomão, aponta Deus como causador de todo bem que ocorre aos seus servos, enquanto o salmo seguinte aponta diretamente para os efeitos da sua ação bondosa e soberana. Se no primeiro há a orientação de confiar em Deus, no segundo há o resultado dessa confiança: bênçãos sobre bênçãos. O curioso é notar o sentido em que essas bênçãos são administradas pelo Senhor, fazendo-o do menor para o maior, de dentro para fora, em três esferas sucessivas.

A primeira delas é a esfera pessoal (vv.1,2). O início do salmo tem uma mensagem que, mesmo sendo dirigida à comunidade israelita, guarda características de um chamado pessoal e individual (v.1): “Feliz é todo aquele que teme a Deus, o que anda nos seus caminhos” (’ashrê kol-yere’ yhwh haholek bidrakayw). Algumas vezes, a ausência da conjunção “e” cumpre meramente uma questão de estilo literário, mas, nesse caso, ela parece ser bem sugestiva. O texto não trata de dois grupos, um que teme a Deus e outro que anda nos seus caminhos. A ausência da conjunção demonstra que as duas descrições tratam do mesmo indivíduo, de modo que temer a Deus significa andar nos seus caminhos. Não há temor sem obediência e vice-versa. Essa qualidade, o temor obediente, não é apenas o objeto do chamado pessoal, mas a razão da bênção pessoal de Deus: a felicidade. Por isso, o salmo proclama: “Feliz é todo aquele que teme a Deus”. Dito assim, percebe-se que o salmo não ignora a aliança entre Deus e Israel, na qual a bênção estava condicionada à obediência: “Se ouvires a voz do Senhor, teu Deus, virão sobre ti e te alcançarão todas estas bênçãos” (Dt 28.2).

As listas de bênçãos e castigos decorrentes do procedimento de Israel diante da lei de Deus (Lv 26; Dt 28) têm um caráter amplo dentro de tudo que envolve ser uma nação, como produção agropecuária, economia, saúde, política internacional, comércio exterior, defesa militar e soberania territorial. Ainda que essas sejam sempre as preocupações de uma nação, no âmbito pessoal as necessidades são mais específicas, especialmente nas condições dos israelitas dos dias desse salmo. A julgar pelo versículo seguinte, a felicidade do v.1 tinha relação com a condição econômica e com a produção de alimentos para a própria subsistência (v.2): “Tu comerás do trabalho das tuas mãos. Haverá para ti bênçãos e prosperidade” (yegîa‘ kaffeyka kî to’kel ’ashreyka wetôv lak). O quadro que se desenrola diante dos nossos olhos é a carestia decorrente de trabalho agrícola infrutífero. Entretanto, Deus teria bênçãos pessoais atreladas ao temor e à obediência na forma de sucesso no labor da terra. Mesmo que o quadro geral fosse complicado, Deus abençoaria os seus tementes.

A segunda é a esfera familiar (vv.3,4). A bênção de Deus, que começa pela transformação pessoal do servo que o busca, passa por uma expansão e atinge a esfera que circunda o fiel: sua própria família. Além de os familiares serem abençoados, agiriam como bênçãos na vida do homem que teme o Senhor. Por isso, a esposa do fiel receberia a ação benéfica de Deus (v.3a): “A tua esposa será como uma videira carregada de frutos no interior da tua casa” (’eshteka kegefen porîyâ beyarketê bêteka). Essa é a imagem de uma esposa que é fonte de prazer a alegria ao seu marido, sendo-lhe fiel e dedicada. É também uma esposa que dá filhos à família, ao que se faz uma menção especial na continuidade do versículo (v.3b): “Os teus filhos serão como galhos de oliveiras ao redor da tua mesa” (baneyka kishtilê zêtîm saviv leshulhaneka). Assim como no salmo anterior, a descendência é fruto da bênção de Deus e fonte de felicidade ao agraciado servo do Senhor. Ao tema da fertilidade, o texto acrescenta a ideia da comunhão pintando o quadro de uma mesa com toda a família unida ao redor dela. É claro que essa bênção depende diretamente da anterior — a de âmbito pessoal —, na qual Deus provê alimento não apenas para que o temente se sustente, mas para que possa nutrir toda sua família sem que perca seus filhos pela desnutrição dos dias de fome. A conclusão do salmista a respeito da condição desse homem é enfática (v.4): “Eis que, de fato, o homem que teme ao Senhor será abençoado” (hinneh kî-ken yevorak gaver yere’ yhwh).

A terceira é a esfera nacional (vv.5,6). Dizem que “a família é a base de um país”. Nenhuma outra frase caberia melhor nesse ponto do salmo, pois a transformação, que começou no chamado pessoal de servos tementes e que abarcou suas famílias, agora se expande nacionalmente. A fonte dessa bênção, então, recebe uma designação tanto geográfica como teológica. A partir da sua capital nacional, local da presença de Deus entre seu povo, a bênção se espalharia (v.5a): “Que, de Sião, o Senhor te abençoe” (yevarekka yhwh mitsîyôn). Em sentido geográfico, Sião — ou Jerusalém — representa a restauração nacional que beneficiaria todo o país. Em sentido teológico, Sião abrigava as esperanças não apenas de um rei libertador, mas de um Messias salvador e purificador do remanescente fiel israelita e das nações ao redor do mundo. Dita a fonte da bênção, sua descrição é a seguinte (v.5b): “E que tu vejas Jerusalém em meio à prosperidade [durante] todos os dias da tua vida” (ûre’eh betûv yerûshalaim kol yemê hayyeyka). Apesar de a palavra “durante” não estar no texto, ela é necessária para a compreensão de que a ideia não é estar presente dentro de Jerusalém, vendo-a todos os dias. A bênção aqui prevista é a elevação e a permanência de Jerusalém, como sede nacional e religiosa, ao longo da vida dos tementes e das suas descendências (v.6a): “E que vejas os filhos dos teus filhos” (ûre’eh-banîm levaneyka). Um modo mais simples de dizer o mesmo é (v.6b): “[Que haja] paz sobre Israel!” (shalôm ‘al-yisra’el).

Do menor para o maior, as bênçãos de Deus se espalharão e tomarão o mundo. Mas esse não é um processo que possa ser interrompido no meio ou que possa ser obtido em módulos. A mensagem oferecida pelo salmo, razão do chamado ao temor obediente, é que Deus realizará sua ampla obra redentora a partir de indivíduos. Na verdade, assim é a salvação do povo de Deus, a igreja de Cristo: um a um. Como o Amazonas, o Senhor chama uma pessoa dentro de uma família, depois outras; depois, um grupo de amigos, de vizinhos. E sua ação redentora se expande até formar igrejas por toda parte. O mesmo ele fará a Israel no futuro a fim de restaurar a descendência de Jacó. Ele mudará, pela fé, o coração de cada um (Ez 36.22), espalhará sua ação até que as pessoas ao redor também conheçam o Senhor (Jr 31.34) e reunirá todo o remanescente israelita espalhado pelo mundo para que, transformado, integre a nação segundo a promessa (Ez 36.24,28).

Portanto, se a partir de indivíduos Deus transformará o mundo, por que os crentes têm menosprezado sua importância dentro do corpo de Cristo e desprezado o chamado ao temor obediente? E se Deus usará as famílias como fonte de bênção para os tementes e para as pessoas de toda parte, que loucura é faltar com a educação bíblica dos familiares e não ensiná-los, pela fé em Cristo, a temer a Deus e dedicar suas vidas para seu louvor! Por fim, lembrando que a graça do nosso Senhor atingirá dimensões nacionais, tremenda falha é deixar de anunciar o evangelho da salvação em Cristo às pessoas que estão ao nosso redor e que fazem parte do nosso País. Muitos crentes deixam de cumprir sua responsabilidade diante de Deus por acharem que o que eles podem fazer é pequeno demais para causar alguma diferença. Eles se esquecem que o grande Amazonas começa em um modesto filete d’água. Esquecem-se que o poderoso Deus realiza sua obra de dentro para fora, salvando pessoas, para salvar famílias, para redimir as nações.

Pr. Thomas Tronco

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