Terça, 16 de Janeiro de 2018
   
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Salmo 131 - Igual a uma Criança de Colo

 

Em 1886, a New England Society realizou um jantar em Nova York. Entre os palestrantes estava Henry Woodfin Grady (1850-1889), da equipe do jornal Atlanta Constitution e testemunha ocular de uma das mais ferozes batalhas da guerra civil americana (1861-1965). Em seu discurso, Grady, descrevendo os soldados confederados ao retornarem aos seus lares arruinados, falou de seus uniformes cinzas desbotados em meio à desolação do Sul. Na manhã seguinte, o jornalista percebeu que se tornara uma celebridade nacional. Todos queriam conversar com ele e o bajular. Certo dia, deixou o escritório do Constitution e desapareceu por vários dias. Na verdade, ele se refugiou na fazenda onde vivia sua mãe, na Geórgia. Chegando lá, disse à mãe: “Vim passar algum tempo com você, pois tenho perdido meus ideais no mundo em que estou vivendo. Estou esquecendo das coisas que aprendi aqui na velha casa e Deus está ficando cada vez mais distante de mim. Eu voltei, mãe, para viver um pouco mais”. É como se Grady voltasse a ser um menino junto à mãe, os dois andando pelos campos, conversando, orando e cantando juntos. Deixou para trás toda a bajulação com seu imenso potencial de torná-lo soberbo. Quando retornou à cidade, Grady estava revigorado e fortalecido, pronto para enfrentar as tentações da vida.

 

O Salmo 131 tem uma dupla designação. Quanto ao tipo, ele é um “cântico de romagem” (shîr hamm‘alôt). Quanto à autoria, ele é “de Davi” (ledawid). Apesar de ter sido composto por alguém que ocupou o mais alto cargo político de Israel e que se notabilizou por feitos memoráveis, esse é um salmo que parece vir de alguém modesto, calmo e satisfeito com uma posição inferior e sem qualquer destaque. Por isso, alguns comentaristas atribuem a composição do salmo ao período em que Davi servia ao rei Saul e era por ele injustamente perseguido. Nesse sentido, o próprio caráter de Davi fica patente e serve de chave de interpretação para seus bons exemplos de atuação quando perseguido e como base para lidar com as pressões e tentações do encargo real assumido mais adiante. No final das contas, se Davi é avaliado como um bom servo de Deus, tanto na sua juventude — sendo fiel, corajoso, moderado, benevolente e não vingativo — como no seu reinado — sendo justo, dedicado, honrado, paciente e corrigível —, é porque tinha certos atributos que o acompanharam ao longo da vida e marcaram seu caráter. Ao deixar transparecer no salmo esses atributos, Davi não se mostra como um grande líder, mas como uma simples criança de colo, apresentando os benefícios de uma postura como essa conforme enaltecida pelo próprio Senhor Jesus: “E disse: em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus. Portanto, aquele que se humilhar como esta criança, esse é o maior no reino dos céus” (Mt 18.3,4). Sob esse ponto de vista, o salmo identifica três qualidades essenciais ao servo de Deus.

A primeira qualidade essencial àquele que serve ao Senhor é a humildade. Provavelmente dirigindo-se a Deus com a intenção de se antepor aos seus perseguidores e clamar pelo seu socorro, Davi afirma sobre si (v.1a): “Ó Senhor, o meu coração não é orgulhoso e o meu olhar não é altivo” (yhwh lo’-gavah livvî welo’-ramû). Ele cita dois órgãos associados à atitude soberba: o coração e o olho. Ao citar o coração, sua declaração é que ele não acolhe sentimentos de orgulho, como se achar melhor do que os outros ou mais capaz. Ao contrário, ele tem uma visão modesta de si e seu coração está bem acomodado a uma condição humilde. Ao citar seu olhar, ele aponta sua atitude externa diante das pessoas. Nesse caso, o autor não se comportava com uma pessoa arrogante que olha os outros com desdém e se apresenta de modo pomposo. Quem o via, não notava um olhar como de cima para baixo, nem uma postura que fazia com que as pessoas ao redor se sentissem intimidadas e desconfortáveis. Ao contrário, Davi mantinha a postura humilde de um servo de Deus e dos homens. Quanto às suas aspirações, ele não buscava grandeza, nem queria ser admirado pelos outros por atingir objetivos que ninguém mais podia (v.1b): “Eu não persigo grandezas, nem feitos maravilhosos da minha parte” (welo’-hillaktî bigdolôt ûvenifla’ôt mimennî). Apesar dessa intenção modesta, durante sua vida Davi de fato alcançou grandezas e fez coisas espetaculares que ficaram registradas para sempre. Contudo, quando isso ocorreu, a disposição humilde foi o pano de fundo de uma atitude grata a Deus pelas vitórias e não soberba diante dos homens como se ele sozinho tivesse feito grandes maravilhas. Esta, certamente, era uma das maiores características de Davi: a humildade.

A segunda qualidade é o domínio próprio. Antepondo a humildade ao impulso natural ao qual vinha sendo chamado pela carne, ele diz (v.2a): “Ao contrário, eu moderei e calei as paixões da minha alma” (’im-lo’ shiwwîtî wedômamtî nafshî). As paixões da alma, nesse contexto, estavam ligadas principalmente ao orgulho e à altivez citados no versículo anterior. Se Davi era humilde, não era sem esforço. Sua natureza carnal o chamava não apenas a ser arrogante, mas a agir como tal. Se isso ocorre em uma situação em que há uma perseguição injusta, a tentação é agir com vingança lançando mão dos mesmos expedientes traiçoeiros que lhe estavam sendo apontados. Mas Davi não sucumbiu a esse chamado, ao qual ele “moderou” para que não crescesse e “calou” para que não o convencesse. Essa é a descrição do “domínio próprio”, ou seja, não atender aos impulsos da carne, mas sim aos parâmetros da justiça e à Palavra de Deus. É claro que, para tanto, ele precisou desenvolver uma boa dose de contentamento, já que sua situação não era a mais confortável. Entretanto, (v.2b), ele se acalmou “como uma criança no colo da sua mãe” (kegamul ‘alê ’immô). A palavra aqui traduzida como criança tem o significado de “desmamado”, mostrando que o sentimento não era de desejo por suprimento, como ocorre a um lactente no colo da mãe, mas de conforto — basta uma mãe tomar nos braços o filho em prantos que ele se acalma e, às vezes, até dorme. O interessante, nesse caso, é que Davi mesmo, pensando na justiça de Deus e buscando conforto nisso, se achega ao contentamento por meio do domínio próprio, pois ele é descrito como a mãe (v.2c): “A minha alma é como a tal criança no meu colo” (kagamul ‘alay nafshî). Ele dominava seus impulsos e buscava viver satisfeito na situação em que Deus o colocou.

A terceira qualidade é a confiança. No último versículo do salmo, Davi conclama a nação de Israel a manter em Deus suas esperanças (v.3a): “Ó Israel, espera no Senhor” (yahel yisra’el ’el-yhwh) — essa frase é idêntica à primeira parte de Sl 130.7. A princípio, o chamado geral a Israel parece destoar da descrição íntima do salmista até o v.2. Contudo, esse chamado revela uma decisão que o próprio salmista já tinha tomado: confiar em Deus. Se sua situação era difícil e ele não tinha aceitado a proposta da carne de “pagar na mesma moeda”, era preciso recorrer ao Senhor para se proteger e consolar e apontar seu rumo futuro. Já desfrutando dos benefícios dessa confiança do Deus onipotente, o salmista, então, convida seus compatriotas a fazerem o mesmo e conhecerem melhor o Deus a quem serviam. Segundo Davi, os benefícios da confiança, baseados na atuação fiel e perene de Deus, tinham valor constante, pelo que a própria confiança devia ser perene e inabalável. Por isso, ao chamar o povo a fazer o que ele mesmo fez ao confiar em Deus, orienta-os (v.3b) a terem fé “agora e para sempre” (me‘attâ we‘ad-‘ôlam), mostrando que a confiança no Senhor não depende das circunstâncias e se torna ainda mais visível e valorosa quando a situação é difícil.

Tão importantes para o rei Davi e para todos os servos de Deus dos tempos bíblicos, essas mesmas qualidades são requisitos fundamentais para o desenvolvimento da vida cristã na atualidade. Em uma época de personalidades e de famosos, a humildade é quem impede que os cristãos busquem glória para si mesmos em vez de glorificarem o único que é digno de todo louvor. Em tempos em que somos ensinados por todos os meios de comunicação que devemos dar vazão aos impulsos e perseguir todos os desejos do coração, é o domínio próprio que aquieta os servos do Senhor e lhes faz buscar a Palavra de Deus e não a satisfação pessoal. Quando tudo é feito para que o homem tenha completa autonomia e capacidade de realizar o que quiser, seja em casa, no trabalho ou nos momentos de lazer, é a confiança em Deus quem traz a correta consciência da incapacidade humana e da dependência que os crentes têm do seu Senhor. Se Davi vivesse hoje e tivesse escrito o mesmo salmo no nosso contexto, este seria tão relevante e aplicável como foi no passado. Por isso mesmo, temos o que aprender da história contada no início do comentário. Na verdade, devemos nos voltar a Deus a fim de buscar nele o desenvolvimento dessas qualidades e lhe dizer: “Vim passar mais tempo com você, pois tenho perdido meus ideais no mundo em que estou vivendo. Estou esquecendo das coisas que aprendi na velha igreja e Deus está ficando cada vez mais distante de mim. Eu voltei, Pai, para viver um pouco mais”.

Pr. Thomas Tronco

 

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