Quinta, 21 de Junho de 2018
   
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Salmo 135 - A Íntima Relação entre a Memória e o Louvor

 

Conta-se que Louis Mountbatten (1900-1979), membro da nobreza e almirante da marinha britânica, esteve em visita a Toronto, no Canadá. Tão logo tenha lá chegado, pediu uma lista de nomes de todos os garçons, motoristas e outras pessoas que o serviriam durante sua estadia naquele país. A lista deveria especificar, também, os feitos de cada um deles na guerra e eventuais condecorações que tivessem recebido. Apesar de parecer algo exagerado e difícil de fazer em tão pouco tempo, um dos seus assistentes se empenhou em reunir toda a informação requerida, datilografou-a e entregou ao lorde Mountbatten. O almirante, então, pediu que o assistente lesse para ele tudo que havia anotado e passou a ouvir atentamente a leitura. Nos próximos dias até o final da sua estadia, Mountbatten chamou pelo nome todos que o serviam e conversou com eles, com grande facilidade, sobre suas experiências de vida. É muito interessante, a partir dessa história, perceber como a memória é importante para tratar alguém com o devido respeito e honra que seu caráter e seus feitos merecem.

 

O Salmo 135 compartilha da mesma lição, com a diferença de que não são os servos que recebem a devida honra, mas o Senhor. Trata-se de um salmo provavelmente composto para uma das grandes festas judaicas no Templo, já que conclama os adoradores que ocupam (v.2) a “casa do nosso Deus” (bêt ’elohênû). O salmo mostra sua utilidade ao trazer à memória do povo quem é Deus para que, de modo adequado, pudessem exaltá-lo e servi-lo. Isso confere ao texto uma característica exultante típica do louvor do Deus supremo de todo universo. Nesse contexto, cinco atributos louváveis do Senhor são oferecidos pelo salmista como razão para que todo o povo reunido em Jerusalém se curvasse em sincera adoração.

O primeiro atributo de Deus enfatizado no salmo é a bondade (vv.1-4). O chamado ao louvor triunfante a todos (v.1) os “servos do Senhor” (‘avdê yhwh) tem muitas razões ligadas ao caráter de Deus. Em primeiro lugar, é dito (v.3a): “Exaltai ao Senhor, pois o Senhor é bom!” (hallû-yah kî-tôv yhwh). Apesar de parecer uma declaração mais ou menos genérica, a coloração histórica do salmo associa a bondade de Deus a tudo que ele já havia feito em favor de Israel, de modo que vários atributos subsequentes nascem ou fluem para a bondade divina. Desse modo, a reação das pessoas era louvar (v.3b): “Cantai ao seu nome” (zammerû lishmô). Junto ao chamado, há um benefício (v.3c): “Pois é prazeroso”. A bondade de Deus é tão grande que faz com que seu louvor seja bom e agradável aos adoradores, em contradição com a adoração dos falsos deuses daqueles dias que envolvia degradação, imoralidade, sofrimento e até sacrifícios humanos. Se o louvor era bom, boa também era a razão para adorar a Deus (v.4): “Pois o Senhor escolheu Jacó para si e Israel para sua possessão” (kî-ya‘aqov bahar lô yah yisra’el lisgullatô). A eleição, as alianças e as promessas de Deus ao seu povo eram provas vivas da sua bondade e o tornavam mais que digno de todo louvor.

O segundo atributo de Deus é o poder (vv.5-7). O escritor diz (v.5): “Pois eu sei que o Senhor é grande e que o nosso Deus é maior que todos os deuses” (kî ’anî yada‘tî kî-gadôl yhwh wa’adonênû mikkol-’elohîm). Normalmente, o agente de uma ação é determinado na conjugação do verbo hebraico sem a necessidade de um pronome. Mas, nesse caso, o pronome pessoal “eu” (’anî) surge antes do verbo, dando peso não só ao conhecimento do salmista, mas à convicção que ele sustenta a respeito do Senhor. Longe de afirmar a existência de outros deuses, o que o texto exalta é que até mesmo os conceitos a respeito dos falsos deuses perdiam para o que Deus já havia provado poder fazer. O que salmista sabia de Deus, a exemplo do que Jó aprendeu em sua experiência marcante (Jó 42.2), era que sempre que o Senhor planejou e desejou fazer algo, em qualquer lugar que fosse, ele simplesmente o fez, sem qualquer dificuldade ou impedimento (v.6). Seu próprio controle sobre as forças da natureza (v.7) mostra que ele é poderoso para dirigir a vida e os destinos dos povos, principalmente dos seus servos, pelo que estes devem louvá-lo pela grandeza do seu poder.

O terceiro atributo é a justiça (vv.8-12). A ação divina destacada nesse trecho é a de “golpear” ou “ferir” (nakâ). O Senhor abateu os egípcios, seus primogênitos e seus rebanhos quando libertou os israelitas da escravidão (v.8), fazendo-o por meio das dez pragas e da destruição do poderio militar de Faraó no Mar Vermelho (v.9). Esse mesmo tratamento foi rendido a diversos povos, tanto no percurso dos israelitas até a terra da promessa como na tomada de Canaã diante de muitos reinos ali estabelecidos (vv.10,11), de modo que a terra fosse transferida aos seus herdeiros da promessa (v.12). Entretanto, essa não foi uma injusta ação de tirar a terra de inocentes para dar ao povo favorecido. Ao contrário, foi a justiça de Deus que entrou em ação para, enquanto abençoava os seus, punir o pecado das perversas nações cananitas. Isso foi predito muito tempo antes a Abraão, ao lhe falar sobre o cativeiro dos seus descendentes: “Na quarta geração, tornarão para aqui; porque não se encheu ainda a medida da iniquidade dos amorreus” (Gn 15.16). Por isso, a ação de “golpear” e “ferir” tais povos reflete a justiça punitiva do Deus justo e santo.

O quarto atributo divino é a misericórdia (vv.13,14). O salmista passa a falar da enorme fama de Deus ao longo das eras (v.13): “Ó Senhor, o teu nome permanece para sempre. Ó Senhor, a tua memória é transmitida de geração em geração” (yhwh shimka le‘ôlam yhwh tikreka ledôr-wadôr). A ideia produzida por essa frase é a de um povo que tem motivos para contar permanentemente os feitos de Deus. Os pais se assentavam com os filhos, à luz do fogo, e contavam as coisas que o Senhor havia feito por Israel. Mas não apenas isso: contavam também das falhas dos seus antepassados em se submeter às ordens divinas e como foram disciplinados por isso (v.14a): “Pois o Senhor julga o seu povo” (kî-yadîn yhwh ‘ammô). Mesmo assim, ainda estavam ali para contar tais histórias, simplesmente porque Deus, ao efetuar seu julgamento, não se esqueceu de render ao povo de Israel suas misericórdias (v.14b): “Entretanto, ele se compadece dos seus servos” (we‘al-‘avadayw yitneham). A indignidade dos servos não impede a bondade de Deus quando ele usa de misericórdia, conforme percebeu Jacó: “Sou indigno de todas as misericórdias e de toda a fidelidade que tens usado para com teu servo” (Gn 32.10a). Mesmo quando Israel cometeu loucuras e foi punido, o juízo não foi para destruição do povo por causa da misericórdia divina, pelo que, em meio aos lamentos, o profeta Jeremias afirmou: “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim” (Lm 3.22).

O último atributo do Senhor apontado no texto é a vida (vv.15-18). Hoje em dia, muita gente incrédula pensa que Deus não passa de um mero conceito ou de um mito criado para dar segurança e esperança no sofrimento. Contudo, Deus é existente e pessoal, um ser verdadeiramente vivo. Isso é dito pelo salmista por meio da contraposição que faz do Senhor com os falsos deuses dos seus dias (v.15). Apesar de mencionar os falsos deuses, eles não são o assunto do salmo. O assunto é o Senhor e o escritor apresenta sua existência e vida o antepondo à falsidade dos ídolos, os quais (vv.16,17) “têm boca, mas não falam; têm olhos mas não enxergam; têm ouvidos, mas não escutam, pois não há respiração em suas bocas” (peh-lahem welo’ yedavverû ‘ênayim lahem welo’ yir’û ’oznayim lahem welo’ ya’azînû ’af ’ên-yesh-rûah befîhem). Dizer que eles não respiram é equivalente a dizer que não têm vida. A insensatez de crer em objetos mortos como se fossem deuses invade a vida de tais incrédulos a ponto de torná-los insensatos como sua própria fé (v.18).

Olhar para todos esses maravilhosos atributos do nosso Deus não é uma atividade meramente contemplativa. Junto a isso, vem a aplicação prática que transborda do início ao fim do salmo: a adoração ao grandioso Senhor. Por isso (vv.19,20), são chamados ao louvor de Deus todo o povo da “casa de Israel” (bêt yisra’el), os sacerdotes, chamados aqui de “casa de Arão” (bêt ’aharon), todos aqueles que serviam no templo, nomeados como “casa dos levitas” (bêt hallewî), e todos “os que temem ao Senhor” (yir’ê yhwh), expressão essa que denota respeito, devoção, serviço, adoração e dependência de Deus. O salmo termina com uma aplicação bem tangível ao ajuntamento israelita no Templo para adorar a Deus (v.21): “De Sião seja bendito o Senhor, o qual habita em Jerusalém. Exaltai ao Senhor!” (barûk yhwh mitsîyôn shoken yerûshalaim hallû-yah).

Daqueles dias até hoje, em nada o Senhor mudou. Ele ainda é bondoso, soberano, justo, misericordioso e vivo. E seus servos, apesar de não terem mais um Templo, um código legal a seguir e sacrifícios de animais a prestar, ainda são chamados ao seu louvor em tremenda admiração e devoção. Que para nós, o templo seja o corpo de Cristo, a igreja do Senhor (1Co 12.27; Ef 4.12). Que o código legal seja a lei da liberdade que nos afasta do mundo e nos faz viver para Deus (Gl 5.1,13; Tg 1.25). E que o sacrifício seja nossa própria vida, transformada e oferecida para o louvor do nosso redentor (Rm 12.1-2; Hb 13.15,16). Desse modo, recordando quem Deus é, não apenas nossa boca, mas também toda a nossa vida bradem: “Exaltai ao Senhor!” (hallû-yah).

Pr. Thomas Tronco

 

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