Terça, 16 de Janeiro de 2018
   
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Salmo 140 - O Aprimoramento que Começa na Tribulação

 

Um renomado pintor ministrava uma aula a um grupo de aspirantes a artistas e lhes falava sobre composição artística. Entre as composições inapropriadas para uma obra de arte, ele tomou como exemplo a pintura de paisagens. Afirmou ser errado retratar locais como florestas sem pintar no meio da paisagem um caminho para fora das árvores: “Quando um artista pinta uma paisagem desse tipo, deve sempre inserir uma saída. Caso contrário, a densa mistura das árvores e a falta de espaços entre elas deprimem e causam ansiedade nos observadores”. Resumindo, para esse pintor toda obra de arte deve produzir um sentimento de esperança de maneira que o desamparo e o sofrimento sejam retratados.

Davi nunca visitou museus de arte, mas conhecia muito bem as paisagens da agonia e sabia o valor de um caminho para fora delas. Nesse sentido, sua vida poderia ser colocada em um quadro. Ele sofreu várias perseguições injustas, principalmente nos dias de Saul, nos quais os assessores reais faziam intrigas contra o salmista e acirravam o ódio do rei contra ele. Por isso, certa vez, Davi questionou Saul: “Por que dás tu ouvidos às palavras dos homens que dizem: ‘Davi procura fazer-te mal’?” (1Sm 24.9). Infelizmente, a perseguição prosseguiu até a morte do rei, mas, ainda assim, Davi seguiu em frente até que ele mesmo assumiu o trono de Israel. O fato de ele não ter entrado em desespero e desânimo diante de tamanha tirania e sofrimento, mantendo-se fiel a Deus, faz com que sua vida deva ser analisada e imitada por nós. Se ele tivesse buscado vingança ou, afobado, tomasse decisões erradas e impensadas, sua história seria uma dentre milhares que terminam mal. Porém, ao final de tudo, depois de ver o Senhor como o caminho para fora da tribulação, Davi saiu fortalecido, confirmado como rei e descrito como um homem segundo o coração de Deus. Isso ocorreu porque as provações que atravessou não o destruíram, mas serviram de instrumentos divinos para o seu aprimoramento. Nesse processo, três momentos sucessivos tornam o servo de Deus apto à vida de serviço e edificado para enfrentar outras batalhas, alcançando vitórias na causa do nosso Senhor.

O primeiro momento desse processo de aprimoramento é justamente a tribulação (vv.1-5). Ela é vista logo no início do salmo na oração de Davi (v.1): “Ó Senhor, protege-me do homem mau, defende-me do homem violento” (halletsenî yhwh me’adam ra‘ me’îsh hamasîm tintserenî). Esse pedido é muito revelador no que tange à situação do salmista, que, pela ação dos perseguidores, corria risco real de morrer. O risco vinha da determinação que seus inimigos tinham de fazer o que fosse preciso para destruí-lo. Seu empenho em causar o mal era tão grande que o escritor descreve partes do corpo dos seus perseguidores empenhadas na ação cruel. Em primeiro lugar, o “coração” (v.2a): “No coração eles tramam maldades” (’asher hoshvû ra‘ôt belev). Em seu íntimo, os inimigos de Davi acalentavam sentimentos negativos contra ele e maquinavam planos perversos a fim de abatê-lo. A cada dia renovavam não apenas sua inimizade, mas seus intentos de perseguição (v.2b) “Todos os dias eles declaram guerras” (kol-yôm yagûrû milhamôt).

Se o íntimo dos homens violentos abrigava ódio e planos maus, o restante do corpo trabalhava ativamente para cumprir os desejos do coração. Assim, a segunda parte do corpo comprometida com a caçada do salmista era a “boca” (v.3): “Eles aguçam sua língua como uma serpente. Sob seus lábios há veneno de víbora” (shananû leshônam kemô-nahash hamat ‘akshûv tahat sefatêmô). Usando a figura de uma cobra peçonhenta, Davi se refere às coisas que seus inimigos falavam a seu respeito a fim de torná-lo odioso aos outros e reunir um grande grupo contra ele. O fato de serem comparados a serpentes aclara suas ações traiçoeiras, perigosas e mantidas por meio de palavras mentirosas que incitavam outros homens a ter o mesmo ódio. Essa ação maligna se unia às ações de outra parte do corpo, a “mão” (v.4a): “Ó Senhor, guarda-me das mãos do ímpio, defende-me do homem violento, os quais pretendem me lançar tropeços” (shomrenî yhwh mîdê rasha‘ me’îsh hamasîm tintserenî ’asher hoshvû lidhôt pe‘amay). Se a boca promovia ações em outras pessoas, com as próprias mãos os inimigos de Davi se envolviam pessoalmente na busca do seu fim. Não havia preguiça, nem cansaço, mas determinação em armar ciladas injustas para o servo de Deus (v.5): “Os orgulhosos esconderam armadilhas para mim e estenderam as cordas de uma rede ao longo do caminho. Eles armaram ciladas para mim” (tomnû-ge’îm pah lî wahavalîm porsû reshet leyad-ma‘gal moqeshim shatû-lî).

O segundo momento é a oração (vv.6-11). Se no primeiro momento o servo de Deus é colocado sob enorme pressão, da qual não pode se livrar sozinho, a sequência é a derrocada ou a dependência de Deus. Davi escolheu a segunda opção e recorreu ao Senhor em oração. Essa tem dois enfoques. O primeiro deles é o “livramento pessoal” (v.6): “Eu disse ao Senhor: ‘Tu és o meu Deus. Ouve as minhas súplicas, ó Senhor’” (’amartî layhwh ’elî ’attâ ha’azînâ yhwh qôl tahanûnay). O relacionamento com Deus é o que leva o salmista a pedir que o Senhor não apenas ouça seus pedidos, mas os atenda. E Davi tem razões para buscar a Deus, já que, no passado, ele fora protegido pelo Senhor (v.7): “Ó Senhor, Senhor meu, força da minha salvação: tu cobriste a minha cabeça no dia da batalha” (yhwh ’adonay ‘oz yeshû‘atî sakkotâ lero’shî beyôm nasheq). A palavra aqui traduzida como “batalha” (nasheq) tem o significado de “armamentos” ou “equipamentos militares”. Desse modo, quando os exércitos se armaram para a batalha, Deus protegeu Davi como se fosse um capacete, preservando-lhe a vida. Por isso, teve ânimo de orar a respeito da presente situação que sofria (v.8): “Ó Senhor, não permita [que se cumpram] os desejos dos ímpios. Ao se levantarem, não deixe que o plano deles tenha êxito” (’al-titten yhwh ma’awayyê rasha‘ zemamû ’al-tafeq yarûmû). Apesar de a oração citar os ímpios, até aqui o beneficiado pela resposta à oração é o próprio salmista.

Na sequência, Davi fala sobre a ação perversa dos inimigos, de modo que o segundo enfoque da sua oração é a “punição da injustiça” (v.9): “Que a cabeça dos que me cercam seja coberta [pela] maldade dos lábios deles” (ro’sh mesivvay ‘amal sefatêmô yekassûmô). Em primeira instância, o desejo de Davi por justiça envolve uma ação reversa dos planos malignos dos perseguidores, de modo que eles mesmos caiam nas armadilhas que armaram, assim como aconteceu com os perseguidores de Daniel (Dn 6.24). Sua oração imprecatória demonstra o tamanho da maldade dos perseguidores e, consequentemente, o grau da devida punição (v.10): “Que chovam brasas sobre eles. Sejam eles lançados no fogo. Que eles não se levantem [de dentro] das armadilhas” (yamîtû ‘alêhem gehalîm ba’esh yaffilem bemahamorôt bal-yaqûmû). A segunda instância da oração por justiça envolve a condição futura de abatimento pleno dos ímpios (v.11): “O homem de língua [perversa] não permanecerá na Terra. O mal perseguirá o homem violento causando-lhe destruição repentina” (’îsh lashôn bal-yikkôn ba’arets ’îsh-hamas ra‘ yetsûdenû lemadhefot). Esse duro clamor revela que Davi não desejou tomar a justiça em suas próprias mãos, mas, assim como Jesus (1Pe 2.23), entregou sua causa a Deus para que ele julgue corretamente e no momento devido.

O terceiro momento é a confiança (vv.12,13). Apesar de muitos crentes orarem no meio das aflições, mais por hábito que pela esperança de serem atendidos, Davi espera, sim, ter sua oração respondida. Mais que isso: ele sabe que Deus promove justiça não apenas para ele, mas para aqueles que são injustiçados (v.12): “Eu sei que o Senhor defenderá a causa do aflito e fará justiça ao necessitado” (yada‘tî kî-ya‘aseh yhwh dîn ‘anî mishpat ‘evyonîm). É claro que ele não tem em mente cada pessoa que sofre perseguição, mas os que as sofrem enquanto são justos, ou seja, servos verdadeiros de Deus (v.13a): “Certamente, os justos renderão graças ao teu nome” (’ak tsaddîqîm yôdû lishmeka). Na verdade, Davi vislumbra o desenrolar dessa ação não apenas no tempo presente, mas na eternidade (v.13b): “Os retos habitarão na tua presença” (yeshvû yesharîm ’et-ganeyka). Assim, a confiança na bondade e na justiça de Deus fez o salmista sair do fundo de uma cova aberta para ele e se ver prostrado alegre e reverentemente diante do trono do Senhor. Aqui termina o processo de aprimoramento que foi iniciado nas chamas da agonia e do sofrimento.

Felizmente, a maioria de nós não tem de fugir de inimigos audazes, traiçoeiros, manipuladores, violentos e ferozes que querem nos tirar a vida. Entretanto, sofremos muitas perseguições brandas, mas destrutivas, que nascem em corações invejosos, despeitados e falazes. Sofremos com intrigas, com mentiras, com falsidades e com armações que nos tiram a paz e, muitas vezes, até a alegria de viver. É uma pena que muitos crentes se deixam abater nessas circunstâncias e até deixam de frequentar a igreja. Como Davi, cada um de nós, em situações assim, deve confiar no Senhor e buscá-lo em oração, abstendo-se de agir mal para com os outros e com descaso diante de Deus. Esse é, muitas vezes, o processo que inicia no fogo da tristeza e da desilusão e termina no nosso crescimento e edificação e na adoração àquele que sempre é para nós o caminho para fora da densa floresta da tribulação.

Pr. Thomas Tronco

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