Domingo, 21 de Outubro de 2018
   
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Salmo 141 - Como Agir Longe de Casa

Durante a época de Napoleão, quando a fronteira entre a França e a Suíça era constantemente mudada, um suíço astuto previu com precisão a fronteira final e construiu um hotel, agora conhecido como o Hotel Franco-Suisse. Ele está situado exatamente na fronteira, de modo que metade do hotel fica na França e a outra metade, na Suíça. Subindo as escadas para o seu quarto, o hóspede vai da Suíça para a França e vice-versa, podendo, até mesmo, ficar ao mesmo tempo com cada pé em um país diferente. O hotel dispõe de um duplo sistema de telefonia, um suíço e outro francês. O custo de uma chamada depende de qual telefone é utilizado. Se um cliente deixar o hotel sem pagar a conta, a polícia pode ser acionada, mas qual delas — suíça ou francesa —, depende se ele sair pela porta dianteira ou traseira.

Esse é um caso curioso que, quando imitado por frequentadores de igreja sem compromisso, os quais querem ter um pé dentro da igreja e outro fora, traz sérias consequências. O Salmo 141, um “salmo de Davi” (mizmor ledawid), é o oposto dessa atitude esquizofrênica de pessoas que atualmente se dizem crentes. Foi escrito em dias em que o salmista estava fugindo de inimigos poderosos com cargos de liderança nacional (v.6), cuja perseguição era ardilosa e determinada (v.9), razão pela qual Davi clamava e dependia inteiramente de Deus para sobreviver (v.1). Esse é justamente o quadro da fuga de Davi diante de Saul e dos seus assessores mentirosos e astutos. Durante todo o tempo de fuga, em que Davi ficou longe de casa, da família, do tabernáculo e do culto a Deus, ele conviveu com seiscentos soldados a seu serviço (1Sm 23.13; 30.9), homens renegados de Israel assim como ele, e com pessoas de outras nações, como os filisteus de Gate e seu rei, Aquis (1Sm 21.10; 27.2-6). Diante dessa realidade, havia um risco muito grande de Davi abandonar sua devoção a Deus, juntar-se a homens maus, seguir o conselho perverso de pessoas que ignoravam o Senhor, habituar-se aos costumes e à adoração de outros povos e se sentir desimpedido para fazer todas as coisas que nunca faria se estivesse em seu lugar de origem. Como Davi fez exatamente o oposto disso tudo, esse é um salmo que ensina pelo menos quatro cuidados que deve ter o servo que Deus que está próximo do mundo e longe de casa e do seu povo eclesiástico.

O primeiro cuidado do servo de Deus que está longe de casa e da sua igreja é manter as atividades cultuais (vv.1,2). Estar longe do seu lugar costumeiro de culto frequentemente faz com que as pessoas percam o ânimo de dar sequência aos seus hábitos de adoração. No caso de Davi era pior, pois sua situação adversa lhe fornecia uma desculpa bem convincente para cessar toda atividade cultual. Longe de agir assim, ele permanece em oração a Deus (v.1): “A ti eu clamo, ó Senhor: ‘Apressa-te [a vir] a mim. Dá ouvidos à minha voz quando clamo a ti” (yhwh qera’tîka hûshâ lî ha’azînâ qôlî beqor’î-lak). Em situações de crise, algumas pessoas dizem: “Não estou com cabeça para orar”. Davi fez o oposto e a situação de crise o levou a orar mais ainda, clamando pela intervenção de Deus em seu socorro.

Entretanto, outras atividades, como oferecer sacrifícios e queimar incenso no tabernáculo, ficaram impedidas pela distância. O incenso era oferecido diariamente a Deus: “Arão queimará sobre ele o incenso aromático; cada manhã, quando preparar as lâmpadas, o queimará. Quando, ao crepúsculo da tarde, acender as lâmpadas, o queimará; será incenso contínuo perante o Senhor, pelas vossas gerações (Êx 30.7,8). Para suprir essa ausência, Davi eleva a Deus sua oração em lugar do incenso, demonstrando sua preocupação de servir ao Senhor e cumprir seus deveres perante ele (v.2a): “Que a minha oração seja um incenso posto diante de ti” (tikkôn tefillatî qetoret lefaneyka). Quanto aos sacrifícios diários, uma das orientações bíblicas era sobre o sacrifício do entardecer: “O outro cordeiro oferecerás ao pôr-do-sol, como oferta de manjares, e a libação como de manhã, de aroma agradável, oferta queimada ao Senhor” (Êx 29.41). Na impossibilidade de executar tal ato, ele oferece sacrifícios de louvor (v.2b): “Que o levantar das minhas mãos seja uma oferta do entardecer” (mas’at kaffay minhat-‘arev). O interesse e busca por Deus não foi interrompido pela distância de casa.

O segundo cuidado é manter a santidade de vida (vv.3-5). Davi também não queria se desviar dos ensinos do Senhor para sua vida, pecando com palavras, atitudes ou ações. Sua primeira preocupação é com respeito à conversação, provavelmente sabendo que os maus hábitos nascem de conversas inapropriadas (1Co 15.33), pelo que pede a Deus (v.3): “Ó Senhor, ponha uma sentinela em minha boca. Guarda a porta dos meus lábios” (shîtâ yhwh shomrâ lefî nisterâ ‘al-dal sefatay). Essa foi uma decisão sábia, pois o primeiro sinal do desvio de quem se aproxima demais do mundo é seu modo de falar, o qual não apenas revela o afastamento, como também torna o coração do servo de Deus cada vez mais acostumado com a podridão mundana. Mas a boca não era a única preocupação de Davi.

Ele também se preocupava com os afetos do seu coração e com as ações que viriam do apego ao mal (v.4a): “Não deixa que meu coração se incline para as coisas más, para a prática de perversões [junto] com os ímpios, os homens que praticam a iniquidade” (’al-tat-livvî ledavar ra‘ lehit‘ôlel ‘alilôt beresha‘ ’et-’îshîm po‘alê-’awen). Essa é uma preocupação dupla, pois ele atenta para os atos de pecado e, também, para a companhia nociva dos pecadores. Na verdade, ele toma a decisão de não se unir aos homens maus nem nos momentos de descontração e alegria (v.4b): “Eu não comerei dos manjares deles” (ûbal-’elham beman‘ammêhem). Ele poderia dizer que os homens maus eram seus únicos amigos no momento, mas não o fez. Na verdade, ele preferia uma dura repreensão de homens justos a receber a adulação e a hospitalidade dos pecadores (v.5): “Que o justo me repreenda [com] amor e me admoeste, mas o azeite do ímpio não ungirá a minha cabeça, pois minha oração continuará sendo contra sua perversidade” (yehelmenî-tsaddîq hesed weyôkîhenî shemen rasha‘ ’al-yanî ro’shî kî-‘ôd ûtefillatî bera‘ôtêhem). Para Davi, não é verdade que “a ocasião faz o ladrão”. Sua separação do mundo era uma busca a ser impetrada em qualquer situação.

O terceiro cuidado é manter a pregação da justiça (vv.6,7). Samuel ungiu Davi rei de Israel e lhe informou que um dia ele seria elevado ao trono (1Sm 16.12,13). Entretanto, seus futuros súditos ainda seguiam um rei mau e se desviavam com ele. O salmista poderia pensar, dadas as circunstâncias, em assumir um discurso conciliador, “politicamente correto”, a fim de agradar quem agora reprovava seu estilo de vida. Mas ele não fez isso, pois sabia que quando Deus abatesse o rei Saul e seus assessores, a pregação da justiça seria ouvida pela nação (v.6): “Seus líderes serão lançados [abaixo] da beirada do precipício e, assim, eles ouvirão as minhas palavras que são formosas” (nishmetû bîdê-sela‘ shofetêhem weshom‘û ’amaray kî na‘emû) — o trecho “eles ouvirão” deve se referir ao povo e não aos líderes precipitados morro abaixo. Essa persistência em pregar a justiça de Deus e um modo de vida agradável a ele traria benefícios inúmeros a Israel. O contrário disso seria sentido pelos líderes maus quando fossem abatidos por Deus (v.7): “[Eles dirão:] ‘Assim como se abrem valas na terra, nossos ossos ficaram espalhados na boca da sepultura’” (kemô poleah ûboqea‘ ba’arets nifzerû ‘atsamênû lefî she’ôl).

O último cuidado do servo que está muito próximo do mundo é manter a dependência cautelosa (vv.8-10). Um ditado popular diz: “Quem brinca com fogo, sai queimado”. A proximidade do mundo produz o mesmo perigo, pelo que Davi, impossibilitado de se afastar geograficamente dos ímpios, mantém sua cautela e sua oração a Deus por proteção (v.8): “Pois em ti estão os meus olhos, ó Senhor, Senhor meu. Eu me refugio em ti. Não me deixe ficar desprotegido” (kî ’eleyka yhwh ’adonay ‘ênay bekâ hasîtî ’al-te‘ar nafshî). Houve até ocasiões em que o risco do mundo “aparentemente” se dissipou (1Sm 26.21), entretanto, mesmo nessas ocasiões, Davi identificou as armadilhas ardilosas e continuou sua fuga do mal (1Sm 26.25b) em dependência de Deus (v.9): “Protege-me do laço que armaram para mim e da armadilha dos que praticam a iniquidade” (shomrenî mîdê pah yoqshû lî ûmoqshût po‘alê ’awen). No final das contas, o cuidado do salmista sob a orientação das palavras do Senhor o pôs a salvo, enquanto seus inimigos pereceram conforme foi previsto por Davi em sua oração (v.10): “Que os ímpios sem exceção caiam nas suas [próprias] redes enquanto eu escapo” (yiffelû bemakmorayw resha‘îm yahad ’anokî ‘ad-’e‘evôr).

Poucos de nós têm de fugir de assassinos perversos. Porém, temos de conviver com pessoas que não temem a Deus no trabalho, na escola, na vizinhança, nos momentos de lazer e, muitas vezes, até na própria família. Em todas essas ocasiões temos nossa fé questionada e menosprezada enquanto convites à maldade nos são feitos como alternativa ao temor do Senhor. Bom seria se pudéssemos conviver com nossos irmãos em todo o tempo, pois, assim, seríamos edificados e exortados constantemente. Como isso não é sempre possível, devemos seguir o exemplo de Davi e manter nossa identidade cristã, a devoção ao nosso Deus, as atividades diárias de culto e adoração, a santidade e o testemunho de vida e a pregação da verdade. Isso será uma medida infalível para que mantenhamos nossos dois pés na igreja e na presença santa do Senhor.

Pr. Thomas Tronco 

 

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