Terça, 16 de Outubro de 2018
   
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Salmo 142 - O Remédio para a Depressão

 

Ouvi contar a história de um pastor que passava por uma fase de grande desânimo. Certa noite, ele sonhou que estava em pé no topo de uma grande rocha de granito tentando quebrá-la com uma picareta. Ele trabalhou por horas a fio sem que obtivesse qualquer resultado. Por fim, disse: “É inútil, vou parar”. De repente, um homem parou junto a ele e perguntou: “Essa tarefa não foi dada a você? Por que, então, você vai abandoná-la?”. O pastor respondeu: “Estou trabalhando em vão. Não consigo nem arranhar o granito”.  O estranho replicou: “Seu dever é bater com a picareta, quebrando a rocha ou não. O trabalho é seu; os resultados estão em outras mãos. Trabalhe!”. O pastor, então, reanimou-se e voltou ao trabalho. Em seu primeiro golpe voaram centenas de pedaços da rocha.

Davi também passou por momentos de desalento, desencorajamento e até uma pontinha de depressão. Uma dessas ocasiões foi quando se escondeu de Saul em uma caverna, circunstância em que escreveu o Salmo 142: “Salmo didático de Davi quando ele estava na caverna. Uma oração” (maskîl ledawid bihyôtô bamme‘arâ tefillâ). Esse não foi o único salmo composto nessa ocasião. Entretanto, enquanto no Salmo 57 ele afirma a firmeza do seu coração (Sl 57.7), no Salmo 142 ele revela sua fraqueza (v.6), seu lamento (v.2) e seu desânimo típico de quem está cansado e abatido (v.3). Contudo, esse salmo não é uma declaração de derrota ou de desistência, mas um esperançoso clamor a Deus de um servo que quer se levantar e seguir seus altos objetivos. Por isso, o salmo age como um remédio ministrado em quatro porções que ajudaram o salmista a atravessar o duríssimo momento que viveu.

A primeira porção do seu remédio foi o acesso a Deus na oração (vv.1,2). Muita gente fica depressiva quando as pessoas ao redor não lhe dão a devida atenção, nem escutam suas queixas. Muitas vezes, a sensação de solidão é pior que a própria solidão. Davi teria todas as razões para se sentir assim, já que as pessoas que precisavam ouvir da sua boca sobre sua inocência não queriam ouvi-lo. Entretanto, ele recorre a alguém que certamente ouvia sua voz com clareza e atenção (v.1): “[Com] minha voz eu clamo ao Senhor. [Com] minha voz eu suplico ao Senhor” (qôlî ’el-yhwh ’ez‘aq qôlî ’el-yhwh ’ethannan). Davi roga a Deus por sua vida na situação complicada que atravessava, pois, se descoberto na caverna onde estava, seria um alvo fácil — era um ótimo esconderijo, mas um péssimo lugar para quem tivesse de fugir dali. É interessante notar que uma das vantagens de um lugar como aquele é que, além de os fugitivos não serem vistos, também não são ouvidos. Mesmo assim, ele podia dali clamar a Deus, pois tinha acesso a ele.

Esse acesso era baseado em um relacionamento pessoal, pelo que Davi podia, inclusive, lamentar-se com o Senhor como um filho preocupado e inseguro o faz com seu pai (v.2a): “Diante dele eu desabafo o meu lamento” (’eshpok lefanayw sîhî). E o Senhor está atento ao sofrimento dos seus servos. Por isso, Davi, em suas orações, abria seu coração diante de Deus e lhe narrava seus sofrimentos (v.2b): “Diante dele eu relato o meu momento crítico” (tsaratî lefanayw ’aggîd). Não que Deus não soubesse o que estava ocorrendo, mas, sim, porque é da sua vontade que o busquemos nas aflições, conforme explica o apóstolo: “Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças” (Fp 4.6). Fazer isso foi a primeira dose do remédio para a depressão do salmista.

A segunda porção foi a certeza do cuidado de Deus (vv.3,4). Não se engane: a situação era extremamente crítica. O risco que Davi corria com seus homens dentro daquela caverna era comparado ao risco de um animal desavisado que anda entre armadilhas invisíveis e mortais (v.3b): “No caminho por onde eu passo eles esconderam uma armadilha para mim” (be’orah-zû ’ahallek tomnû pah lî). Para piorar, ninguém se levantava contra Saul para acusar-lhe o crime e a injustiça para com seu bom servo Davi. Seus antigos amigos, temerosos de que o rei se voltasse contra eles também, se calavam e demonstravam um desinteresse egoísta em relação ao salmista (v.4): “Olha à minha direita e vê: Não há quem se importe comigo; não tenho para onde escapar; não há quem se interesse por mim” (habbêt yamîn ûre’eh we’ên-lî makkîr ’avad manôs mimmennî ’ên dôresh lenafshî). Olhando para isso, dá para perceber que Davi não se sentia acuado apenas pela falta de esconderijos geográficos, mas pela falta de amigos que lhe abrigassem. Não é sem razão que o início do v.3 expressa o grande desânimo que ele estava sentindo naquele momento. Como uma pessoa desanimada tende a tornar-se descuidada — muitos até desistem de tudo —, Davi mantinha seu ânimo baseado no fato de que Deus não apenas escuta seus servos, mas os protege quando estão nessas circunstâncias (v.3a): “Ao desanimar em mim o meu espírito, tu cuidas do meu caminho” (behit‘attef ‘alay rûhî we’attâ yada‘ta netîvatî). Saber disso foi uma dose fundamental para ele resistir ao desespero.

A terceira porção foi a noção do poder de Deus (vv.5,6). Vários pacientes ficam curados simplesmente por acreditar no efeito de um remédio, mesmo que ele apenas pareça uma medicação — os médicos chamam isso de “efeito placebo”. Se isso vale para um tratamento aparente, imagine como age a noção do poder que tem o Senhor soberano. É claro que isso só serve para quem conhece a Deus de fato, mas o salmista, sendo um servo de Deus de verdade, era uma dessas pessoas. Por isso, ainda que estivesse no melhor refúgio que pode encontrar, sua confiança última estava apontada para Deus e não para as entranhas de uma montanha (v.5a): “Ó Senhor, eu clamo a ti, dizendo: ‘Tu és o meu refúgio’” (za‘aqtî ’eleyka yhwh ’amartî ’attâ mahsî). Não importava qual fosse o tamanho do exército de Saul: Deus era forte o suficiente para proteger o servo. E não somente isso: era poderoso para devolver a Davi tudo que havia perdido, de modo que a garantia de que voltaria às suas posses estava no poder que há no soberano Deus, pelo que assim se refere ao Senhor (v.5b): “És a minha herança na terra dos viventes’” (helqî be’erets hahayyîm).

Muitos métodos de autoajuda buscam fazer com que seus pacientes olhem para dentro de si e busquem sua força interior. Fazem com que eles acreditem em si, recordando de coisas boas que fizeram no passado, levando-os a crer que podem atingir tudo que quiserem. Fazem com que repitam para si: “Sim, eu posso!”. Contudo, suas forças e habilidades continuam iguais, assim como as lutas e sofrimentos. Davi seguiu outro caminho. Em lugar de buscar forças em si e de acreditar que podia superar o inimigo, ele reconheceu sua fraqueza e, reconhecendo-a, foi em busca daquele a quem sabia ser onipotente e mais forte que qualquer circunstância (v.6): “Atende o meu clamor, pois estou muito desfalecido. Livra-me dos meus perseguidores, pois eles são mais fortes que eu” (haqshîvâ ’el-rinnatî kî-dallôtî me’od hatsîlenî merodefay kî ’omtsû mimmennî). A frase “estou muito desfalecido” também pode ser traduzida como “estou extremamente esgotado”. Esse reconhecimento fez com que ele se lançasse nos braços do Senhor, com plena confiança de que seu poder é ilimitado e que ele o usa no benefício dos seus. Apenas saber disso faz com que, pela fé, qualquer esgotamento comece a ceder.

A última porção do remédio que o ajudou a atravessar o momento duríssimo foi a intenção de servir a Deus (v.7). Davi não entregou os pontos, nem ficou culpando o Senhor por suas desventuras, usando isso por pretexto de se descomprometer de seguir o caminho de Deus e de lhe cumprir a vontade. Ao contrário, um fator que o ajudou foi manter acesa a chama do seu desejo de lutar na causa divina. Assim, seu desejo era sair dali vivo e anunciar as grandezas do Senhor, tornando a desventura em ocasião de testemunho (v.7a): “Faze com que eu saia da prisão para que eu [possa] proclamar o teu nome” (hôtsî’â mimmasger nafshî lehôdôt ’et-shemeka). Se seu primeiro objetivo é anunciar a Palavra de Deus, seu segundo intento é buscar santificação. Por isso, ele declara ao Senhor que, livre da caverna e da perseguição — ao que ele chamou de “prisão” —, ele faria todo o necessário para conviver com pessoas tementes a Deus, os “justos”, diferente de Saul que, assessorado por homens maus, agia plenamente conforme sua própria maldade (v.7b): “Os justos me rodearão quando tu me beneficiares” (bî yaktirû tsaddîqîm kî tigmor). Deve-se observar que Davi não fala disso como uma simples contingência na sua história, mas como um objetivo a ser perseguido e produzido em zelo perante o Senhor. Desse modo, a manutenção desses objetivos de vida agiram como a dose final para o desespero que sentiu na escuridão de uma caverna.

Muitos crentes hoje em dia vivem desesperados e depressivos. Muitas vezes, isso ocorre por razões egoístas, orgulhosas, mesquinhas e de incrível falta de contentamento e gratidão. Mas, em outras, tudo se deve à dureza dessa vida e aos ataques dos inimigos dos servos do Senhor. Infelizmente, enquanto consultórios se enchem de crentes sem esperança, poucos olhos se voltam para as verdades de Deus em sua Palavra e para o amor e comunhão que há por meio de Jesus. Quem dera os crentes confiassem e buscassem mais a Deus! Quem dera mantivessem vivos seus objetivos e responsabilidades no corpo de Cristo! Seu desânimo se esmigalharia em centenas de pedaços.

Pr. Thomas Tronco

 

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