Quinta, 21 de Junho de 2018
   
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Salmo 143 - A Lealdade de Deus em Favor do Servo

 

Quando o famoso explorador anglo-irlandês Ernest Henry Shackleton (1874-1922) estava prestes a partir em uma expedição aos mares árticos, alguém lhe disse estar surpreso com a publicidade que ele vinha fazendo a respeito da viagem. Shackleton respondeu: “Estou fazendo isso de propósito. Quero que meu colega, o Sr. Wild, ouça a respeito. Ele se meteu no coração da África sem deixar o endereço. Eu acredito que, se a notícia da viagem chegar ao centro da África e Wild souber da minha partida, ele virá”. Ele dizia isso quando viu seu amigo, John Robert Francis Wild (1873-1939), em pé na porta do seu escritório. Os dois, em um momento marcante, apertaram as mãos calorosamente enquanto Wild dizia: “Ouvi falar que você está partindo. Assim que eu soube, deixei meu rifle de lado, fiz as malas e corri para casa. Aqui estou. Quais são suas ordens?”. Diz-se daquele cumprimento que foi o “aperto de mãos da lealdade”. Não é sem razão que, em 27 de novembro de 2011, as cinzas de Frank Wild foram enterradas ao lado direito da sepultura de Ernest Shackleton, na ilha chamada Geórgia do Sul.

 

A lealdade é um conceito muito nobre que envolve tanto a fidelidade no cumprimento da responsabilidade pessoal como o amor típico de um amigo verdadeiro. Essa é a qualidade divina enaltecida no Salmo 143, mais um “salmo de Davi” (mizmôr ledawid). Ela é manifesta na palavra hebraica hesed, a qual costuma ser associada, inclusive nesse salmo, às palavras fidelidade (’emûnâ) e justiça (tsedaqâ). O contexto do salmo parece encontrar Davi em sua vida pré-monárquica, justamente nos dias em que fugia de Saul e se escondia em cavernas, em rochedos e em locais desérticos. Ele menciona no salmo “lugares escuros” (v.3), possível menção a cavernas, e “terras exauridas” (v.6), provável referência a lugares áridos como o deserto. Seu desejo de andar por um “caminho plano” (v.10), além do óbvio significado de agir corretamente, pode também revelar seu anseio por não mais ter de se esconder em locais acidentados, próprios para esconderijos (v.9). Diante do quadro desfavorável que vivia, cujo risco de morte era sempre presente (v.7), o salmista recorre à lealdade de Deus, baseada na fidelidade para com suas promessas, no amor ao servo e ao seu próprio nome, na graça que justifica os crentes e no caráter justo que não suporta o mal. Com isso, quatro lições ficam registradas para amoldarem nossas próprias atitudes diante do sofrimento e do desalento.

A primeira lição é que a lealdade de Deus é a razão da oração do servo (vv.1-4). O quadro era de grande sofrimento por causa da ferocidade dos seus perseguidores (v.3): “Pois um inimigo me persegue [a fim de] macetar na terra a minha vida. Ele tem me obrigado a habitar em lugares escuros como [acontece] àqueles que há muito morreram” (kî radaf ’ôyev nafshî dikka’ la’arets hayyatî hôshîvanî bemahashakîm kemetê ‘ôlam). Ao dizer “um inimigo”, ele pode estar se referindo ao inimigo principal, o rei Saul, ou, figuradamente, a todos os inimigos (vv.9,12) como se fossem um, tamanha a união em torno do intento de persegui-lo. O resultado foi o abatimento de Davi, pois, por mais que fosse corajoso e crente no Senhor, o cansaço e o desânimo começou a tomar conta dele até ao ponto de dizer (v.4): “De modo que falta o fôlego dentro de mim [e] o meu coração está assolado” (wattit‘attef ‘alay rûhî betôkî yishtômem livvî).

Apesar do impulso natural de desistir de tudo em uma situação assim, Davi não abandona a fé e busca a Deus em oração com uma postura humilde e dependente (v.1): “Ó Senhor, ouve a minha oração e dá ouvidos às minhas súplicas. Responde-me por meio da tua fidelidade e da tua justiça” (yhwh shema‘ tefillatî ha’azînâ ’el-tahanûnay be’emunateka ‘anenî betsidqateka). Ao dizer “fidelidade” e “justiça”, Davi não quer dizer que Deus lhe devesse alguma coisa. Ao contrário, ele sabe que é pecador e merecedor de juízo, permanecendo diante de Deus simplesmente por seu perdão concedido aos seus servos (v.2): “E não entres em juízo com o teu servo, pois não há, entre todos os viventes, quem seja justo perante ti” (we’al-tavô’ bemishpat ’et-‘avdeka kî lo’-yitsdaq lefaneyka kol-hay). Sendo assim, a lealdade de Deus para com os servos vem da fidelidade das suas promessas — no caso de Davi, a promessa de que seria rei — e na justiça contra o mal — a rejeição de Saul como rei.

A segunda lição é que a lealdade de Deus é a razão da resistência do servo (vv.5-7). Não há como superestimar o sofrimento de Davi depois de observar sua oração e seu estado (v.6): “Estendo a ti as minhas mãos. Minha alma é como uma terra exaurida diante de ti” (perastî yaday ’eleyka nafshî ke’erets-‘ayefâ leka). A expressão “terra exaurida” serve, ao mesmo tempo, para evidenciar seu sentimento de cansaço extremo e revelar sua carência de Deus assim como a terra seca carece de água — por isso, muitas traduções optam por dizer algo como “minha alma anseia por ti como uma terra exaurida”. Se ele se sentia como uma terra sedenta por água — é também provável que ele tenha passado sede em sua fuga —, também se sentia como alguém sufocado, sem poder respirar (v.7a): “Apressa-te a responder [minha oração], ó Senhor, [pois] me falta o fôlego” (maher ‘anenî yhwh coltâ rûhî). Se o Senhor lhe virasse as costas e a situação piorasse, seria certamente seu fim (v.7b): “Não desvies de mim a tua face de modo que eu seja como os que descem à cova” (’al-taster paneyka mimmennî wenimshaltî ‘im-yoredê bôr). Colocando em outras palavras, Davi pede que o Senhor não o rejeite para que ele não venha a morrer nas mãos dos seus inimigos.

É em meio a essa circunstância tão difícil que a lealdade de Deus faz com que o servo cansado resista e continue em frente. Por isso, para seguir em frente, Davi olha para trás (v.5): “Eu recordo os dias passados, medito em todos os teus feitos [e] pondero a respeito da obra das tuas mãos” (zakartî yamîm miqqedem hagîtî bekol-pa‘oleka bema‘aseh yadeyka ’asôheah). Ele não se refere em que feitos de Deus ele meditava, mas duas obras recebem especial atenção dos escritores bíblicos: a criação e o êxodo. A julgar por sua condição contrária e sua necessidade de libertação e vindicação, talvez o êxodo — a libertação de Israel do Egito como evidência da lealdade de Deus à promessa feita ao patriarca (cf. Gn 15.13,14) —, fosse aquilo que ajudava o salmista a resistir à angústia e a prosseguir.

A terceira lição é que a lealdade de Deus é a razão da confiança do servo (vv.8-10). O fato de Deus cumprir seus compromissos e de amar seus servos era um ponto básico da fé de Davi (v.8a): “Pela manhã, faze-me ouvir a tua lealdade, pois eu confio em ti” (hashmî‘enî bavvoqer hasdeka kî-beka batahe). A expressão “pela manhã” talvez indique que tal oração fizesse parte das noites do salmista, além da afirmação da sua fé em Deus. Mas não se tratava de uma confiança qualquer, nem de uma declaração interesseira como se fosse uma barganha. Logo após dizer que confiava em Deus, Davi revela uma vida transformada típica não apenas de uma pessoa religiosa, mas de um servo verdadeiro do Senhor, o qual, pela fé, fez uma entrega pessoal e foi justificado por seu Senhor. Esse é o motivo pelo qual, mesmo em condições adversas, Davi se preocupa em agir segundo o ensino de Deus (v.8b): “Mostra-me o caminho pelo qual [devo] seguir, pois a ti elevo a minha alma” (hôdî‘enî derek-zô ’elek kî-’eleyka nasa’tî nafshî). Sua crença envolve aspectos práticos como confiar que Deus o levaria por caminhos seguros na fuga dos inimigos (v.9): “Livra-me dos meus inimigos, ó Senhor. Em ti eu me escondo” (hatsîlenî me’oyevay yhwh ’eleyka kissitî). Entretanto, o caminho principal que ele tem em mente é o da justiça, cujo guia é o próprio Espírito do Senhor (v.10): “Ensina-me a fazer a tua vontade, pois tu és o meu Deus. Que o teu Espírito bondoso me guie por um caminho plano” (lammedenî la‘asôt retsôneka kî-’attâ ’elôhay rûhaka tôvâ tanhenî be’erets mîshôr).

A última lição é que a lealdade de Deus é a razão da esperança do servo (vv.11,12). Esse salmo não é a oração resignada de quem espera morrer. Na verdade, bem longe disso, Davi mantinha plena esperança de sobreviver porque sabia que o santo nome de Deus era o avalista perfeito do cumprimento das promessas que fez (v.11): “Ó Senhor, conserva-me a vida por amor do teu nome. Tira-me do perigo mediante a tua justiça” (lema‘an-shimka yhwh tehayyenî betsidqotka tôtsî’ mitsarâ nafshî). Dizer “por amor do teu nome” constitui um apelo à fidelidade do Senhor que nunca falta com sua palavra, nem com a honra que seu nome possui. Por sua vez, a justiça divina trata duramente os pecados dos ímpios a tal ponto que Davi sabia que seus inimigos não sairiam incólumes de todo mal que se empenhavam para lançar sobre o servo de Deus (v.12): “Destrói os meus inimigos por tua lealdade e aniquila todos os meus inimigos, pois sou teu servo” (ûvehasdeka tatsmît ’oyevay weha’avadka kol-tsorarê nafshî kî ’anî ‘avdeka). Se Davi não conhecesse o caráter fiel, justo e leal de Deus talvez não conhecesse também a esperança que de fato tinha do cuidado do seu Senhor.

A boa notícia é que a lealdade de Deus não ficou restrita aos dias do Antigo Testamento. Apesar de a igreja não estar debaixo de todas as promessas e exigências feitas a Israel, ela desfruta da certeza das palavras divinas quanto à salvação pela fé (Jo 3.16,36; At 2.21; Rm 1.16,17), ao perdão de pecados (1Jo 1.9), ao consolo no sofrimento (Jo 14.16; 16.33), à presença constante de Cristo (Mt 28.20), ao direcionamento espiritual (Jo 14.26) e ao futuro glorioso na vida eterna (1Jo 2.25; 5.13). Glórias ao Deus cuja lealdade dura para sempre!

Pr. Thomas Tronco

 

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