Terça, 16 de Janeiro de 2018
   
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Salmo 144 - A Razão da Vitória do Servo de Deus

 

Gilbert Lothair Dodds (1918-1977) é o filho de um pastor que saiu do Nebraska para correr a milha mais rápida dos seus dias. Ao final de uma corrida, no Madison Square Garden, a multidão se maravilhou quando pegou o microfone a fim de agradecer os aplausos. Ele disse: “Eu agradeço a Deus por me guiar através da corrida e por me permitir vencer. Eu o agradeço por ser um guia sempre presente. Eu não venci essas corridas” — continuou —,Deus as venceu. Deus me deu tudo que tenho. Eu tenho uma grande deficiência: Não tenho uma qualidade sequer que os treinadores dizem que um corredor de longa distância deve ter. Eu não consigo dar o sprint no final da corrida. Mas Deus cuidou disso. No lugar do sprint, ele me deu força”. Essa avaliação foi correta, pois, para Dodds, toda a corrida era um sprint, ou seja, aquela arrancada típica apenas do final das corridas. Ele estabelecia um ritmo avassalador durante todo o percurso e rendia a Deus a capacidade de fazê-lo.

 

O Salmo 144 foi composto na fase monárquica da vida de Davi, justamente na ocasião de um embate militar. É difícil definir se o embate já havia sido travado de modo que o salmista estaria agradecendo ao Senhor ou se, esperançoso da vitória, ele ora a Deus antevendo o socorro e a capacitação divina. De qualquer modo, Davi revela que suas batalhas não eram vencidas por sua força e capacidade de comando, mas pela intervenção benéfica de Deus, assim como declarou Dodds a respeito dos seus triunfos atléticos. Por isso, esse salmo “de Davi” (ledawid) serve de agradecimento e louvor a Deus por cinco benefícios dirigidos aos seus servos.

O primeiro benefício é a capacitação (vv.1,2). O início do salmo é uma declaração enfática do caráter protetor do Senhor. Davi o chama de “minha rocha” (tsûrî), “meu benfeitor” (hasdî), “meu castelo” (metsûdatî), “minha cidade alta” (misgavvî), “meu libertador” (mefaltî lî) e diz “nele eu me refugio” (bô hasîtî). Ao chamá-lo “minha rocha”, Davi o compara a locais altos nas montanhas que fornecem proteção por seus esconderijos e pela posição elevada propícia para a defesa de inimigos que vêm de um nível inferior. Ao chamá-lo “meu benfeitor”, ele dá ênfase ao produto de uma ação amorosa e misericordiosa de Deus em benefício dos servos. Ao chamá-lo “meu castelo”, Davi compara Deus a uma cidade cercada com fortes e altos muros que visam a defender os moradores de inimigos invasores. Essa descrição é melhorada quando o salmista o chama “minha cidade alta”, ou seja, a cidadela de um castelo, um palácio fortificado dentro da fortaleza, cujas muralhas são ainda mais altas que as da cidade em si. Ao chamá-lo “meu libertador”, ele se refere a “alguém que promove libertação para mim” de uma maneira ativa e não passiva. Ao dizer “nele eu me refugio”, o salmista talvez se lembre daquilo que as cavernas eram para ele nos seus dias de fuga diante de Saul.

Todas essas descrições têm razões apontadas no próprio texto. Em primeiro lugar, Davi o descreve assim por ser (v.1) “aquele que treina as minhas mãos para a guerra [e] os meus dedos para a batalha” (hamlammed yaday laqrav ’etsbe‘ôtay lammilhamâ). Com isso, o salmista se abstém de clamar para si a responsabilidade e o louvor das vitórias, rendendo a Deus a ação de capacitá-lo para obter as vitórias. Em segundo lugar, ele explica que Deus é (v.2) “aquele que submete nações sob o meu comando” (harôded ‘ammîm tahtay). Em outras palavras, os grandes feitos do rei no campo militar, dando a Israel um caráter imperial, se deviam à capacitação divina.

O segundo benefício é a graça (vv.3,4). A ação capacitadora de Deus e o sucesso militar não advinham do merecimento de Davi ou dos israelitas. Na verdade, a fim de dar o tom correto da adoração ao Senhor, o salmista deixa claro que o homem nada é diante de Deus nem merece nada de suas mãos (v.3): “Ó Senhor, o que é o homem para que o notes e o filho do homem para que o tenhas em conta?” (yhwh mâ-’adam watteda‘ehû ben-’enôsh wattehashevehû). Essas perguntas retóricas devem obrigatoriamente ser respondidas com um sonoro “nada!”. Entretanto, Davi não diz isso porque Deus não note seus servos ou porque não os tenha em conta, mas justamente por notá-los e valorizá-los. Deus realmente se importa com os seus e cuida de cada um com atenção e amor — o Salmo 143 é um agradecimento por esse fato. Porém, o homem, ainda que sirva ao Senhor, está muitíssimo abaixo dele e do merecimento de receber seu afeto (v.4): “O homem é semelhante a um sopro. Os seus dias são como uma sombra que passa” (’adam lahevel damâ yamayw ketsel ‘ôver). Essa disparidade entre a existência daquele que cuida e daquele que é cuidado pinta o quadro em que é exposta a “graça” de Deus, ou seja, sua disposição de nos dar benefícios imerecidos.

O terceiro benefício é o cuidado (vv.5-8). Se o homem é como um sopro e uma sombra passageira, o Deus eterno é autoexistente e autossuficiente. Ainda assim, ele se importa com o seus servos a age, não segundo necessidades pessoais dele, mas de acordo com a necessidade dos seus servos (v.5a): “Ó Senhor, inclina os teus céus e desce” (yhwh hat-shameyka wetered). Essa é uma oração por socorro dirigida a quem está acima dos homens. A disparidade não é apenas de dignidade e existência, mas também de poder (v.5b): “Atinge os montes e eles fumegarão” (ga‘ beharîm weye‘eshanû). Dita em termos figurados, essa súplica tem seu sentido desvendado nos versículos seguintes. O salmista não está preocupado com os montes, mas sim com o poder bélico dos seus inimigos, homens maus (v.8), pelo que pede que Deus abata o exército inimigo na batalha (v.6): “Atira um relâmpago e os dispersa. Envia tuas flechas e faze-os fugir” (berôq baraq ûtefîtsem shelah hitseyka ûtehummem). Abater os inimigos não é um fim, mas o meio para que o cuidado de Deus pelo servo seja impetrado na forma da libertação e proteção da morte diante do exército estrangeiro (v.7): “Estende as tuas mãos do alto, livra-me e resgata-me das muitas águas, [ou seja], das mãos dos estrangeiros” (shelah yadeyka mimmarôm petsenî wehatsîlenî mimmayim ravvîm mîyad benê nekar).

O quarto benefício é o controle (vv.9-11). No meio do salmo, Davi se põe a adorar alegremente ao Senhor (v.9): “Ó Deus, eu entoarei a ti um cântico novo. Tocarei músicas a ti com uma harpa de dez cordas” (’elohîm shîr hadash ’ashîrâ lak benevel ‘asôr ’azammerâ-lak). Essa expressão musical de louvor tem como razão o fato de Deus ser não apenas onipotente, mas soberano, ou seja, controlar poderosamente as circunstâncias. Nesse caso, o controle soberano de Deus surge ao dar vitória ao rei Davi, assim como o faz aos outros reis conforme seu desejo soberano, pelo que o salmista assim o chama (v.10): “Aquele que concede livramento aos reis, aquele que livra o seu servo Davi da espada mortal” (hannôten teshû‘â lammelakîm haffôtseh ’et-dawid ‘avdô meherev ra‘â). Fica claro que Davi rende o resultado final das batalhas ao controle de Deus e não ao poder dos exércitos. Assim, a oração do rei não é um clamor desesperançado, mas o ato de recorrer confiantemente ao controle soberano de Deus sobre a história do seu povo (v.11): “Livra-me e resgata-me das mãos dos estrangeiros cujas bocas falam mentira e cujas destras são destras de falsidade” (petsenî wehatsîlenî mîyad benê-nekar ’asher pîhem divver-shawe’ wîmînam yemîn shaqer).

O último benefício é a provisão (vv.12-15). O controle do Deus soberano não se limita às guerras — a oração de Davi também não. Antevendo ou testemunhando a vitória sobre os estrangeiros, o salmista olha para frente coloca sua confiança e dependência em Deus para que os rumos, não apenas políticos, mas sociais da nação, sejam por ele dispostos. Ele, primeiro, olha para os jovens israelitas (v.12): “Desse modo, nossos filhos serão como plantas que crescem na sua juventude. Nossas filhas serão como colunas entalhadas da estrutura de um palácio” (’asher banênû kinti‘îm meguddalîm bin‘ûrêhem benôtênû kezawîyot mehuttavôt tavnît hêkal). Davi não tem em mente apenas a sobrevivência à guerra e o crescimento saudável dos jovens, mas também sua educação e formação de um caráter honesto e valoroso dentro de Israel e diante do seu Deus. Ele também considera sobre os suprimentos necessários para o sustendo do país (vv.13): “Os nossos celeiros estarão cheios, providos de vários tipos [de alimento]. Nossos rebanhos se multiplicarão aos milhares e serão incontáveis nos nossos campos” (mezawênû mele’îm mefîqîm mizzan ’el-zan tso’wnenû ma’alîfôt meruvvavôt behûtsôtênû). Ele vê nisso a condição de os israelitas terem um tempo de prosperidade e não de choro, desespero e clamor por causa da fome típica da derrota na guerra (v.14b): “Não haverá lamento em nossas praças” (we’ên tsewahâ birhovotênû). Por fim, ele se vê inteiramente dependente, junto com toda a nação, da ação provedora de Deus como fonte de todo bem e alegria (v.15): “Feliz é o povo a quem isso acontece. Feliz é o povo a quem o seu Deus é o Senhor” (’ashrê ha‘am shekkakâ lô ’ashrê ha‘am sheyhwh ’elohîm).

Há quem ache exagero render a Deus todo bem que ocorre a seus filhos, crendo que o Senhor não cuida de cada detalhe do que acontece a eles. Pois esse texto derruba por terra tal falácia e encurva-nos ao chão diante daquele que é o responsável por cada vitória que temos e que, por isso, deve ocupar o lugar mais alto no pódio da nossa consideração, amor e adoração.

Pr. Thomas Tronco

 

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