Terça, 16 de Janeiro de 2018
   
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Salmo 145 - O Modo de Deus Dirigir seu Reino

 

Faxineiros do prédio da Assembleia Legislativa do Estado norte-americano do Nebraska estavam deixando o trabalho por volta de 1 hora da madrugada quando um dos faxineiros percebeu uma cara nova no grupo. “Que escritórios você limpa?”, perguntou o zelador veterano ao recém-chegado. Eu tento manter todos os departamentos tão limpos quanto eu puder” — respondeu Victor E. Anderson — “sou o governador”. Essa história é interessante, pois nos faz imaginar qualidades do governador do Nebraska que devem estar presentes em todos os líderes. Em primeiro lugar, ele era, segundo quis transmitir, um homem competente o suficiente  para comandar todos os departamentos da gestão estadual. Em segundo lugar, alguém próximo do povo, já que dificilmente vemos homens em altos cargos próximo das pessoas comuns a ponto de travarem uma conversa como essa e até serem confundidos com alguém subalterno. É claro que essa é uma visão simplista do governador baseada em uma breve história, mas as qualidades a que nos remete são bastante nobres para um líder.

“Qualidades de um líder” é o assunto tratado pelo Salmo 145. Mas não de qualquer líder, mas sim daquele a quem o salmista chama (v.1) “meu Deus, o rei” (’elôhay hammelek). É o último salmo davídico do livro e o único denominado “louvor de Davi” (tehillâ ledawid). Trata-se de uma iniciativa efusiva de louvar a Deus, motivo pelo qual ocupou lugar importante na adoração no Templo e na igreja cristã ao longo da história — os vv.15,16 foram usados durante séculos durante a ministração da ceia do Senhor e nas ações de graças pelo alimento. Trata-se de um salmo em acróstico, ou seja, cada versículo inicia com uma das 22 letras do alfabeto hebraico em sequência — o v.13 é referente a duas linhas do salmo, pois sua segunda parte foi perdida no texto hebraico por muito tempo, sendo conservada na Septuaginta e em manuscritos hebraicos encontrados recentemente. No salmo, Deus é visto pelo rei de Israel como seu próprio rei e rei do universo. Suas qualidades são vistas na condução do seu reino, seja em uma esfera maior que engloba toda a humanidade, seja em uma esfera menor e mais próxima que abrange seus servos amados. Ao comandar tudo que existe, Deus exibe, conforme é proclamado no salmo, pelo menos cinco qualidades pelas quais deve ser louvado.

A primeira qualidade de Deus na administração real é seu poder (vv.1-6). O salmo inicia com a decisão de Davi de oferecer louvores ao Senhor. O alvo da exaltação, repetido nos dois primeiros versículos, é bem claro (vv.1,2): “O teu nome, para todo o sempre” (shimka le‘ôlam wa‘ed). O final do salmo traz uma variação da mesma ideia (v.21): “Teu santo nome, para todo o sempre” (shem qodshô le‘ôlam wa‘ed). A expressão “para todo o sempre”, ou, literalmente, “para sempre e sempre”, tem a dupla função de apontar para a duração do louvor a Deus e também para o merecimento de ser adorado. Esse se deve ao fato de que (v.3) “o Senhor é grandioso e muito digno de louvor e sua grandeza é inquestionável” (gadôl yhwh ûmehullal me’od weligdullatô ’ên heqer). “Grandioso” é um conceito que requer uma explicação e essa normalmente é ligada ao seu poder de criar e de comandar tudo que criou. Aqui não é diferente (v.6): “Eles falarão do poder dos teus feitos temíveis e eu anunciarei as tuas grandezas” (we‘ezûz nôre’oteyka yo’merû ûgedûlloteyka ’asafferennâ). Tais feitos seriam contados de geração em geração (v.4) e seriam objeto de meditação e louvor ao Deus majestoso (v.5).

A segunda qualidade é sua bondade (vv.7-10). Diferente de muitos reis terrenos que reinaram com crueldade e tirania, Deus reina com bondade e justiça (v.7). Por isso, Davi afirma (v.8): “O Senhor é benigno e compassivo, paciente e de grande misericórdia” (hannûn werahûm yhwh ’erek ’affayim ûgedol-hased). A Bíblia afirma muitas e muitas vezes a bondade e misericórdia de Deus para com seus servos. Entretanto, esse salmo traz uma declaração um pouco mais ampla ao dizer (v.9): “O Senhor é bom para todos e os seus atos compassivos estão sobre todas as suas criaturas” (tôv-yhwh lakkol werahamayw ‘al-kol-ma‘asayw). O autor parece se referir ao que chamamos de “graça comum”, que consiste em Deus sustentar a vida e ser paciente com todos: justos e injustos. Não quer dizer que salvará todos indiscriminadamente, crentes e incrédulos, mas que ambos têm as mesmas condições para poderem subsistir, como a chuva, ar, Sol e estações do ano, além de os ímpios não serem imediatamente abatidos por seu pecado. “Todos”, nesse texto, é uma referência geral aos (v.12) “filhos do homem” (benê ha’adam), o que inclui (v.20) “todos que o amam” (kol-’ohavayw) e também “todos os ímpios” (kol-haresha‘îm). Assim, a bondade de Deus é dispensada a todos, apesar de ser mais sentida, reconhecida e agradecida pelos seus servos (v.10). Esses são descritos no v.10 como “todas as tuas criaturas” (kol-ma‘aseyka), o que deve levar os exegetas a considerar se o versículo anterior tem em mente um grupo tão amplo ou somente os “teus fiéis” (hasîdeyka). Porém, deve-se levar em conta o pronome possessivo “tuas” ligado às “criaturas”, possivelmente apontando não para todos (cf. v.9), mas para os que são de Deus pela fé e amor (cf. v.10).

A terceira qualidade é sua majestade (vv.11-13a). Nessas três linhas do salmo surge a palavra “teu reino” (malkûteka), apontando para o caráter de Deus como um rei sobre a criação e, especialmente, sobre aqueles que o servem (cf. v.1). Três características desse reinado fornecem a qualidade de majestade ao governo divino. Em primeiro lugar (v.11), “a glória do teu reino” (kevôd malkûteka), ou (v.12) “a glória da majestade do teu reino” (kevôd hadar malkûteka). Em segundo (v.12), “o teu poder” (gevûrotka), suficiente para realizar “os teus feitos poderosos” (gevûrotkayw). Por último, a durabilidade e permanência do reino, pelo que diz (v.13a): “O teu reino é um reino que dura por todas as eras e o teu domínio se dá em todas a gerações, uma após a outra” (malkûteka malkût kol-‘olamîm ûmemshelteka bekol-dôr wadôr). Essas são as qualidades de um monarca de verdade, um rei investido de grande majestade.

A quarta qualidade é sua fidelidade (vv.13b-17). O salmista reconhece (v.13b): “O Senhor é fiel em todas as suas palavras e leal em todos os seus feitos” (ne’eman yhwh bekol-devayw wehasîd bekol-ma‘asayw). “Suas palavras” aponta aqui as promessas de Deus. Sob a tutela da aliança mosaica com suas promessas de bênçãos pela obediência (Lv 26.3-13; Dt 28.1-14), castigo pela desobediência (Lv 26.14-39; Dt 28.15-68) e perdão pelo arrependimento (Lv 26.40-46), a fidelidade se mostra no fato de Deus cumprir tudo que prometeu. Resumindo, significa que Deus age com veracidade e que suas palavras são duradouras e confiáveis. Por isso, as ações de Deus descritas nas Escrituras são de acordo com a revelação, de modo que ele se compadece e sustenta os desamparados (v.14) e trata com bondade suas criaturas (v.16). Assim, a fidelidade de Deus gera esperança e confiança nos homens que dependem dele, como servos que esperam o sustento das mãos dos seus senhores (v.15). Porém, se a fidelidade garante sua disposição benigna, garante também sua justiça para tratar e punir o mal. Na verdade, sua justiça age em paralelo com a fidelidade, pelo que o salmista repete a mesma fórmula do v.13 com uma única alteração (v.17): “O Senhor é justo em todas as suas palavras e leal em todos os seus feitos” (tsaddîq yhwh bekol-devayw wehasîd bekol-ma‘asayw). A fidelidade de Deus às suas palavras garante seu procedimento bondoso e justo.

A última qualidade divina exibida na administração real é seu amor (vv.18-22). Aqui não se diz que o Senhor ama os seus, entretanto seu amor transborda de cada linha escrita pelo salmista. Davi conhecia pessoalmente os efeitos do amor de Deus dirigido a (v.18) “todos que o invocam” (kol-qore’ayw), os quais são também descritos como (v.19) “seus tementes” (yere’ayw) e como (v.20) “todos que o amam” (kol-’ohavayw). O afeto e a dependência dos servos de Deus são produzidos e encorajados pelo amor do próprio Senhor por eles, o qual se mostra de três maneiras distintas e marcantes. A primeira é a presença divina em suas vidas (v.18): “O Senhor está perto de todos que o invocam” (qarôv yhwh lekol-qore’ayw). A segunda é a resposta às orações ligadas às necessidades dos seus (v.19): “Ele ouve o clamor deles” (we’et-shav‘atam yishma‘) — nesse texto, “ouvir o clamor” é o mesmo que “atender ao clamor”. A última é a salvação, já que ele guarda os seus do juízo que abaterá os ímpios (v.20): “O Senhor guarda todos que o amam, porém ele exterminará todos os ímpios” (shômer yhwh ’et-kol-’ohavayw we’et kol-haresha‘îm yashmîd) — a ideia aqui de “guardar” é ampla e pode ser aplicada tanto à experiência temporal de “libertação” como à experiência futura de “redenção”. Por causa disso, o escritor encerra o salmo com uma efusiva declaração de louvor (v.21).

Que razões mais nós precisamos para adorar o Senhor com toda nossa força e proclamar seus atos poderosos e benignos? Que mais é preciso para que nos curvemos diante de um rei tão majestoso sobre toda a criação e nosso rei pessoal por meio da fé em Jesus Cristo? Que mais deve ser dito para que confiemos em Deus e dependamos inteiramente dele ao passarmos pelas lutas dessa vida e ao nos depararmos com as difíceis decisões que temos de tomar? Que outros motivos nós precisaríamos para amar de todo o coração aquele que primeiro nos amou e enviou seu Filho para nos substituir na cruz a fim de morarmos para sempre com ele?

Pr. Thomas Tronco

 

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