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Devocionais em Ageu e Zacarias

Zacarias 11.15-17 – A Ação Tola dos Pastores Insensatos

23 de January, 2014

 

Os últimos três versículos de Zacarias 11 não são independentes do capítulo, mas consequência da rejeição divina em relação ao povo rebelde e sua decisão de não mais pastorear aquele rebanho obstinado (v.9). Entretanto, a representação do oposto a tudo que Deus é como pastor e a pontualidade da aplicação desse parágrafo favorecem um estudo desse trecho isoladamente, sem, contudo, desatrelá-lo do contexto e da mensagem geral do capítulo. Assim, no vácuo do pastoreio divino, o próprio Senhor prevê sua ação de levantar para o povo tolo um pastor insensato como eles, como se lhes aplicasse um pouco do próprio veneno.

Mais uma vez, Deus se dirige ao profeta e lhe dá a ordem de transmitir cenicamente, assim como no v.13, a mensagem dirigida a Israel (v.15): “O Senhor disse a mim novamente: ‘Toma para ti os utensílios de um pastor insensato’”. A maioria das traduções, em lugar de associar o advérbio “novamente” à fala divina, o faz em relação ao ato de Zacarias “tomar para si os utensílios”. Apesar de isso não criar um problema fundamental, o fato é que Zacarias, ao representar um pastor insensato, não estava repetindo nenhuma representação anterior desse tipo — a única representação, além dessa exigida do profeta nesse capítulo, é jogar trinta moedas de prata no templo (v.13), figuração que diverge bastante dessa. Assim, a única coisa que se repete é Deus se dirigir a ele a fim de orientá-lo em sua função profética.

Algo obscuro é o que é descrito como “os utensílios de um pastor insensato”. Os utensílios de um pastor incluíam ferramentas que lhe possibilitassem conduzir em segurança o rebanho. Cajado, vara, ervas medicinais e ataduras deviam ser itens padrão na bagagem de um pastor sábio e responsável. Como o pastor insensato é alguém que se preocupa consigo mesmo e não com o rebanho — segundo o versículo seguinte —, Zacarias deve ter tomado alguns itens que o identificavam como pastor, mas que eram incompatíveis com quem traria de volta o rebanho intacto, talvez levando consigo facas e instrumentos para tosquiar, dissecar e curtir a carne e o couro de ovelhas, dando a ideia de que consumiria o rebanho em lugar de lhe proteger e alimentar.

A razão do teatro que deveria ser protagonizado pelo profeta era o prenúncio de que Deus mesmo, em disciplina à nação rebelde, lhes daria um pastor como aquele representado por Zacarias (v.16a): “Pois eis que eu levantarei um pastor na terra”. Uma interpretação corrente desse texto é que, após a rejeição do Pastor messiânico, o anticristo cumpriria a função desse pastor insensato a quem Israel preferiria em lugar de Jesus.[1] Contudo, assim como no capítulo todo, as identificações são possibilidades inexatas. O Senhor bem pode estar se referindo aqui aos líderes, ou a algum deles em especial, que liderariam a nação até a morte de Jesus ou à destruição de Jerusalém no ano 70. Há também quem sugira se tratar dos romanos que dariam cabo de Jerusalém, mas essa associação não faria jus ao alerta do v.17, o qual parece se dirigir aos líderes dentre o próprio povo. [2] Se não é possível identificar esse pastor a quem o Senhor levantaria — um pastor insensato, segundo a sequência do texto —, o fato é que essa não seria a primeira vez que o Senhor dá ao povo de Israel o tipo de liderança que eles, em seu endurecimento, desejavam. O rei Saul foi levantado sobre o trono israelita em circunstâncias parecidas.

O rei Davi, sucessor de Saul, foi descrito por Deus como “homem segundo o meu coração” (At 13.22), o que quer dizer que Davi era o rei escolhido pelo Senhor segundo as indicações divinas cerca de oito séculos antes de sua entronização, as quais apontavam a tribo de Judá como fonte da casa real de Israel (Gn 49.9,10). Mas, em lugar de Israel esperar que se levantasse o rei segundo o coração de Deus, forçou Samuel a entronizar um rei segundo o coração do povo, um rei que fosse como os reis das outras nações (1Sm 8.5). Já naquela ocasião, o Senhor alertou que tal rei se aproveitaria do povo sem lhes dar a devida contrapartida de um bom rei (1Sm 8.10-18), razão pela qual o anúncio de Zacarias aqui faz parecer que Deus se refere aos maus reis que eles teriam de bom grado ao passo que rejeitariam o Bom Pastor.

A figura do pastor normalmente está associada ao bom pastoreio. Mas não nesse caso (v.16b): “Ele não cuidará das [ovelhas] extraviadas. Não procurará aquelas que fogem. Não tratará as feridas nem alimentará as saudáveis”. Ao contrário do que fazem os bons pastores que defendem com sua vida a segurança do rebanho — algo visualizado no pastoreio literal de Davi, enfrentando animais ferozes que queriam atacar suas ovelhas (1Sm 17.34-36) e em Jesus, o Bom Pastor que dá a vida por suas ovelhas (Jo 10.11,15) —, o pastor insensato não se importaria com aqueles sob sua guarda. Na verdade, esse falso pastor faltaria totalmente com suas responsabilidades, buscando apenas o cuidado de si mesmo e seus próprios interesses.

Como se isso não bastasse, passaria a explorar as ovelhas em lugar de protegê-las (v.16c): “Antes, comerá a carne das [ovelhas] gordas e despedaçará seus cascos”. A ideia é de consumi-las por completo, quebrando seus ossos para devorar sua carne, chegando até mesmo a lhes arrancar as unhas[3] a fim de aproveitar tudo que é possível. A insensatez desse pastor se mostra aqui em sua forma máxima, já que as ovelhas, diferentes de animais exclusivamente de corte, dão mais lucro vivas que mortas. A lã das ovelhas era basicamente a razão de sua criação. O pastor fazia a tosquia e continuava cuidando da ovelha para que desse outra porção de lã algum tempo depois. Esse pastor mostra sua insensatez aplacando sua fome com a fonte de seus lucros futuros.[4] Aplicando essa figura à vida política de Israel, isso significa que a exploração de trabalho, impostos e recursos dos judeus teria lugar em um tipo de ditadura opressiva, algo inaceitável a um bom líder, mas merecido por uma nação que rejeita o bem e escolhe o mal.

A punição da nação por meio dos próprios pastores que escolheu, rejeitando a direção proposta pelo Senhor, fica clara no v.16. Na sequência, Deus se dirige aos pastores maus e lhes dá um temeroso alerta (v.17a): “Ai do pastor inútil que descuida do rebanho”. A ameaça é forte e é expressa na interjeição “ai”. Assim como em Habacuque 2.6-20, o Senhor se vale dessa linguagem para anunciar um severo juízo a ser lavrado e executado por ele mesmo. Embora Habacuque liste vários tipos de pecador que serão julgados, aqui a ameaça se dirige aos líderes insensatos, irresponsáveis, egoístas e opressores do povo, ou seja, àquele pastor que “descuida do rebanho”. Apesar de o parágrafo falar de um pastor ou pastores possivelmente específicos, o alerta serve de modo generalizado não apenas a eles, mas a outras pessoas que exerçam funções similares. David Clark e Howard Hatton fazem uma associação de textos bem interessante que ilustra o crime desses pastores e a razão pela qual eles seriam punidos com severidade, comparando esse texto com Ezequiel 34.5,6 em contraste com João 10.10-15.[5] Com isso, o crime acusado e previsto para punição é a “negligência”. A punição em si é assim descrita (v.17b): “A espada virá sobre seu braço e sobre seu olho direito. Seu braço ficará totalmente seco e seu olho direito ficará completamente cego”. Mesmo sendo essa uma figura, é possível perceber, por sua gravidade, o tamanho do furor de Deus contra o pastor inútil e o nível do temor que deve acompanhar a função do líder.

O texto contém duas aplicações pastorais contemporâneas, uma direcionada às ovelhas e outra voltada aos pastores. Às ovelhas, fica a lição de que a busca por pastores relapsos que façam a vontade do rebanho e não do Senhor gera sofrimento para elas mesmas. Paulo alertou Timóteo de que isso aconteceria de modo crescente (2Tm 4.3). Por isso, as ovelhas que querem ser cuidadas e alimentadas como precisam devem urgentemente procurar pastores que usem os utensílios corretos e que pensem mais no rebanho que em si mesmos. Aos pastores, fica o alerta de que Deus leva muito a sério a função que eles realizam e que pedirá contas do que fizeram com o rebanho que lhe pertence (Hb 13.17). Nesse caso, Pedro previu uma lastimável desvirtuação do cargo na mão de falsos mestres que surgiriam no futuro (2Pe 2.1-3). Por isso, os pastores verdadeiros devem ser sábios, fiéis, temerosos e incansáveis até o dia em que pastores e ovelhas irão descansar eternamente no aprisco celestial.

Pr. Thomas Tronco

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[1] Walvoord, J. F.; Zuck, R. B. The Bible Knowledge Commentary: Old Testament. Colorado Springs: David C. Cook, 1983, p. 1566.

[2] Spence-Jones, H. D. M. (ed.) Zechariah. The Pulpit Commentary. London; New York: Funk & Wagnalls, 1909, p. 121.

[3] Baldwin, J. G. Ageu, Zacarias e Malaquias: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2006, p. 156.

[4] Matthews, V. H.; Chavalas, M. W.; Walton, J. H. The IVP Bible Background Commentary: Old Testament (electronic ed.). Downers Grove: InterVarsity Press, 2000 [Zc 11.16].

[5] Clark, D. J.; Hatton, H. A Handbook on Zechariah. UBS Handbook Series. Nova York: United Bible Societies, 2002, p. 305.