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Pastoral

A Dor e o Consolo no Crescimento

21 de November, 2024

Conversei com uma pessoa que, tendo frequentado duas igrejas ao longo de um bom tempo, vive hoje afastada da comunhão por ter se decepcionado com o tratamento que recebeu de irmãos das igrejas das quais fez parte. Obviamente, eu a aconselhei mostrando que a vontade de Deus é que seus filhos congreguem como um corpo (Hb 10.25) e que, sabendo das nossas falhas e dos problemas que resultam disso, orientou-nos a ter no amor o suporte para convivermos em união (Cl 3.13), em uma atitude de verdadeira abnegação (Rm 15.1,2). Ainda assim, a vida cristã nem sempre é fácil e, muitas vezes, sucumbimos ao desânimo e à decepção. Nesse sentido, há dois tipos de desânimo.

O primeiro deles é causado pelas ações de terceiros. Há uma pequena ilustração que fala sobre os desconfortos gerados na necessária e vital convivência dos crentes: “A igreja é como um bando de porcos-espinhos durante o inverno. Eles precisam se aproximar a fim de se aquecer e não morrer de frio. O problema é que a proximidade, além de calor, promove algumas ‘espetadas’. Mas é melhor ser espetado que morrer de frio”. Isso é tão verdadeiro como verdadeira é a dor das “espetadas”. O que quero dizer é que o valor da comunhão cristã não diminui o sofrimento dos atritos dentro do corpo de Cristo. As falhas das pessoas podem causar sofrimentos em outros.

O segundo tipo de desânimo é causado pelas nossas ações pessoais. Se é ruim sofrer com a dor das “espetadas” que vêm de outros, ser aquele que “espeta” também é motivo de tristeza e desilusão. Com todo o desejo sincero que temos de servir a Deus, não é fácil olhar no espelho e ver um pecador, cheio de falhas e, pior, alguém que é causador de sofrimento nas pessoas amadas. É muito triste ser exposto diante dessa visão. Além do mais, nossas falhas precisam ser corrigidas para que cresçamos. Isso acaba por gerar novas dores, simplesmente porque não é nem um pouco fácil ter nossas falhas repreendidas pelos irmãos. O pecador que se importa com a santidade de vida e com a comunhão dos santos não deixa de sentir a dor desse processo.

Apesar da conclusão óbvia de que o sofrimento é parte da experiência eclesiástica até nosso encontro com o Redentor, o Senhor bondoso é sensível ao que sentimos e à tristeza que nos abate. Por isso, no trato com o pecado, nosso e alheio, as Escrituras sempre deixam exalar o perfume do consolo e da esperança que vem do trono do rei majestoso, que é tanto nosso Pai amado como pastor das nossas almas. O livro do profeta Isaías é um exemplo do tratamento preocupado e amoroso do nosso Deus diante da fragilidade dos seus servos.

A primeira parte do livro — capítulos 1 a 35 — tem como ênfase a acusação divina dos pecados de Israel e a garantia de que seu sistema de vida corrupto, imoral e contrário a Deus seria derrubado, havendo punição severa aos rebeldes. O problema é que nem todo mundo era rebelde. Sempre houve em Israel um remanescente fiel que confiava em Deus e que sofria com o pecado dos ímpios. Esses tinham um sofrimento duplo. Em primeiro lugar, sofriam com as injustiças dos pecadores, sendo atingidos pela ganância de homens egoístas, oprimidos pelos poderosos e abatidos pela impureza de quem devia ser luz no mundo. E, segundo, porque a punição que recairia sobre Israel atingiria a sociedade como um todo. No final das contas, as promessas de juízo e purificação da primeira parte do livro de Isaías constituíam um peso para os que temiam a Deus.

Mas o livro não para por aí. Depois de um interlúdio histórico — capítulos 36 a 39 —, a ênfase que surge a partir do capítulo 40 é a de restauração do povo de Deus pela ação do Servo que sofre por eles e do seu restabelecimento debaixo da graça e das bênçãos do Senhor. Mesmo tratando do pecado, Deus não deixa que seu povo que o ama seja abatido pela tristeza da desesperança. Ao contrário, ele consola e concede uma esperança futura que traz alento e coragem no presente. Assim, ele diz, com linguagem quase infantil: “Como pastor, apascentará o seu rebanho; entre os seus braços recolherá os cordeirinhos e os levará no seio; as que amamentam ele guiará mansamente” (Is 40.11). Que palavras doces para quem está sofrendo! É como se Deus tomasse no seu colo crianças chorosas e lhes sussurrasse aos ouvidos para trazer-lhes não apenas a certeza do cuidado, mas a paz do seu trato amoroso e suave. Que conforto é se sentir amado pelo Pai bondoso!

Por outro lado, Deus também quer garantir aos integrantes de seu povo que eles continuarão caminhando com forças que ele lhes dará: “Faz forte ao cansado e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor. Os jovens se cansam e se fatigam, e os moços de exaustos caem, mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças, sobem com asas como águias, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam” (Is 40.29-31). O Senhor garante que sua atuação sobre seus servos enfraquecidos teria neles o efeito que as asas de um pássaro têm, permitindo-lhe voar sobre os perigos e pousar adiante, em um lugar seguro e com alimentos abundantes.

Por isso, por pior que sejam as dores causadas pelo pecado, nosso e alheio, é mais do que possível encontrar em Deus o verdadeiro consolo — o colo de Deus — diante das desilusões e seguir com coragem e capacitação divina — as asas do crente — rumo à santidade requerida pelo Senhor e à comunhão do corpo de Cristo com a qual fomos abençoados, a qual nos fornece calor afável em meio ao inverno do mundo perdido.

Pr. Thomas Tronco