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Pastoral

Amor e Ódio

02 de dezembro, 2020

As cartas que Jesus mandou João escrever às igrejas da Ásia, no livro do Apocalipse, abrigam algumas expressões que nem sempre conseguimos entender numa leitura rápida. Uma delas é a que aparece na carta à igreja de Éfeso: “Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor” (Ap 2.4). Já ouvi algumas explicações sobre o significado de “primeiro amor”. A mais comum é a de que se refere ao fervor inicial da vida cristã, aquela fase em que o crente vive empolgado em sua conversão que acabou de ocorrer e, assim, evangeliza todo mundo, lê e ora com mais frequência e quase vai morar na igreja. Sem dúvida, essa explicação é atraente. Infelizmente, porém, não há elemento textual nenhum que a apoie, de modo que é bem difícil que Jesus tivesse essa noção em mente quando falou sobre o abandono do primeiro amor.

Outra interpretação, mais sensível a certos sinais presentes no livro, sugere que o primeiro amor é o testemunho vivo do crente que se dispõe até mesmo a morrer pelo evangelho. Esse entendimento tem algum peso porque o substantivo “amor” e o verbo “amar” quase nunca aparecem em Apocalipse para se referir à experiência cristã e, quando aparecem (no texto em análise, em 2.19 e 12.11), mostram certa ligação com o amor expresso no testemunho sacrificial. Daí a conclusão de alguns de que o “primeiro amor” se refere ao amor que se dispõe a morrer para preservar o testemunho da fé. O problema com esse entendimento é que, no v.3, Jesus elogia precisamente a firmeza do testemunho dos efésios dizendo: “E tens perseverança, e suportaste provas por causa do meu nome, e não te deixaste esmorecer”. Se o primeiro amor, portanto, se referisse ao compromisso sacrificial com Cristo, o Senhor jamais diria, logo no versículo seguinte, que os efésios o estavam negligenciando.

Um terceiro sentido, também possível (e esse é o meu preferido), decorre de traços que pertencem especificamente à carta dirigida à igreja de Éfeso. Nessa carta, o v.2 afirma que aquela igreja travava uma luta violenta com homens maus, pondo-os à prova e demonstrando o quanto eram mentirosos. O texto diz que a igreja de Éfeso não suportava essa gente e, quando era preciso, descia o porrete sem dó em quem tentava enganar os outros, fingindo ser apóstolo. Sem dúvida, os efésios demonstravam aos hereges de plantão que não estavam ali para brincadeiras! Em face disso, o que se sugere é que a igreja de Éfeso, em meio a essa luta tão feroz contra os falsos mestres, acabou se embrutecendo, perdendo a ternura, a benignidade, a mansidão e a docilidade que marcam o verdadeiro amor. Provavelmente, sendo tão severos contra os maus, os efésios se tornaram crentes ásperos, antipáticos e mal-humorados até mesmo no trato entre si. Isso explicaria a bronca de Jesus, exortando-os a que voltassem ao “primeiro amor”.

Se essa última alternativa for a correta, então aprendemos de Jesus que a igreja boa é aquela em que existe um convívio amoroso em que cada crente serve com brandura ao seu irmão, tratando-o com bondade, paciência e respeito.

Isso é muito lindo, mas é necessário ter cautela para não imaginar que a igreja ideal é integrada por pessoas parecidas com os “ursinhos carinhosos”. Isso porque, supreendentemente, logo depois de condenar a falta de amor dos efésios, Jesus diz: “Tens, contudo, a teu favor que odeias [odeias?!] as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio” (v.6). Note o imenso contraste: Jesus condena a falta de amor dos crentes e, logo em seguida, os elogia porque eles odeiam! E mais: o Senhor acrescenta — contrariando as noções do Jesus fofinho, com pele rosada e cachinhos dourados — que há coisas que ele, em sua santa perfeição, também odeia. “Isso é discurso de ódio!”, diriam os mimizentos de hoje. Pois é… Mas esse é o Jesus de verdade. Quem não gosta dele como ele é, tem como única opção a teologia do algodão-doce que os pastores-cinderelas pregam por aí.

Enfim, de tudo que foi dito, o que se depreende é que a igreja que nosso Senhor aprova é um misto de amor e ódio. O cristão que Jesus quer que sejamos é aquele que ama tudo que ele ama e odeia tudo que ele odeia. Assim como Jesus é um Cordeiro (Ap 5.6) e também um Leão (Ap 5.5), da mesma forma seus seguidores devem ser brandos e severos, maleáveis e duros, implacáveis e clementes, cheios de amor e cheios de ódio. Nutrir um lado só dessa díade fará com que Cristo, de alguma forma, se volte para nós e diga: “Tenho, porém, contra ti…”.

Pr. Marcos Granconato
Soli Deo gloria